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Relíquia natural destruída no incêndio da Lousã: Associação MilVoz perdeu a sua mais importante bio-reserva.

13 de Setembro 2025 Jornal Campeão: Relíquia natural destruída no incêndio da Lousã: Associação MilVoz perdeu a sua mais importante bio-reserva.

Manuel Malva é o rosto da Milvoz, Associação de Protecção e Conservação da Natureza, criada em Maio de 2019. O jovem, que começou a fotografar aves aos sete anos, é hoje um biólogo empenhado na conservação do património natural da região centro.

No entanto, os tempos não são felizes para Manuel. Conversámos dias depois do destruidor incêndio na Serra da Lousã, onde a Milvoz tinha uma das suas mais preciosas reservas, uma verdadeira relíquia natural: a Vale da Aveleira. Com cerca de setenta hectares, continha um leque de valores naturais únicos do ponto de vista da sua preservação, relevantes à escala nacional e mesmo internacional. Um conjunto de cinco vales íngremes e de difícil acesso, sobre solos xistosos, que desde há décadas não tinham sofrido presença ou impacto humano, estando a salvo dos sucessivos incêndios que assolaram a região — até à devastação deste Verão.

Como recuperar um ecossistema com centenas de anos?

Encontrei-me com o Manuel Malva em Coimbra, dias depois do incêndio. O desânimo era visível. A perspectiva futura da recuperação daquele ecossistema é para o biólogo uma tarefa hercúlea: “ainda estamos a assimilar tudo isto. Sabemos que foi uma tragédia monumental. E nunca vamos atingir a verdadeira dimensão do que acabou de acontecer”, refere o biólogo. Com o fogo, espécies pirófilas e invasoras — como as acácias — vão encontrar condições para se Sementes que, até aqui, estavam adormecidas vão eclodir e o isolamento da reserva e a orografia do terreno dificultam qualquer intervenção. O isolamento — que terá sido um dos factores de preservação do bosque natural —é hoje um obstáculo à sua recuperação. Manuel refere que demora seis horas a pé para chegar até à reserva. “Não é qualquer pessoa que o faz. Qualquer tentativa de recuperar um ecossistema com estas características geográficas é extremamente exigente”, adianta. O grande desafio é o controlo das espécies invasoras — o que pode demorar décadas até se conseguir um ecossistema funcional e equilibrado, com capacidade de se regenerar. “Claro que uma árvore centenária é uma perda irreparável. Até porque, a continuar assim, não vamos conseguir gerar novas árvores centenárias, porque o futuro é altamente imprevisível e as ameaças são imensas”, lamenta o biólogo, acrescentando que “este evento pode ter mudado, de forma irremediável, o futuro da serra. Será muito difícil controlar invasoras, como as acácias, as canas, as tintureiras e os eucaliptos — que também têm um comportamento invasor, ainda que não estejam integrados na Lista Nacional de Espécies Invasoras. Isto porque — na hora em que o fossem — deixavam de poder ser plantados. E não há interesse. Neste caso, não se seguem critérios científicos. No caso da Serra da Lousã, as acácias são as mais problemáticas. É uma espécie altamente resiliente, que tem um banco de sementes brutal, que pode estar latente durante décadas, até surgir a oportunidade certa para as sementes germinarem. E a partir do momento que a acácia passa a dominar, perde-se logo a biodiversidade de uma forma muito acentuada”.

Como surgiu a MilVoz

Ano após ano, um grupo de cidadãos deparava-se com um cenário de perdas muito significativas no património natural da região e sem qualquer resposta social ou institucional.

Assim, numa fase inicial, a MilVoz surge precisamente com o intuito de dar voz ao património natural da região centro. De forma a materializar isso, foi criada uma rede de bio-reservas na região. Estas bio-reservas são áreas de conservação que a associação procura adquirir. Quando a aquisição não é possível, há outras modalidades — como contratos de gestão, mas a aquisição é sempre o mecanismo mais seguro. Assim, segundo Manuel Malva “são procuradas áreas de conservação prioritárias, que estejam muito vulneráveis, para tentar adquirir os terrenos que as compreendem e escudar a sua preservação”.

Foi desta forma que surgiu a primeira bio-reserva da associação, em Almalaguês, na Senhora da Alegria. “Comprámos o coração de um bosque de caducifólias nativas. Um bosque muito biodiverso, com um grande valor ecológico. Através de um crowdfunding iniciámos uma campanha”, conta o biólogo, acrescentando que “apelámos aos cidadãos para que se unissem para comprar o coração do bosque. No momento em que estávamos a legalizar a associação, estávamos também a lançar o nosso primeiro crowdfunding. Um tiro no escuro. Éramos todos colegas de curso e muito novos. Foi uma aventura. Não sabíamos o que nos esperava”.

A verdade é que conseguiram angariar o suficiente para adquirir não só a área prevista, como ultrapassar essa meta — o que permitiu adquirir terrenos na periferia do coração do bosque. Nasce assim a bio-reserva da Senhora da Alegria. Desde então (2019) foram criadas mais três bio-reservas, uma em Cernache, outra na Serra da Lousã — a Vale da Aveleira — e outra completamente fora da área de actuação da MilVoz, na Nazaré, mas que surgiu de uma doação.

“Quando criamos uma bio-reserva, o objectivo primordial é escudar, salvaguardar, aquela área, porque estamos a trabalhar num contexto em que todas estas bolsas — ecologicamente muito preciosas, estão altamente vulneráveis à destruição. Uma vez que não usufruem de nenhum mecanismo de protecção”, salienta Manuel.

Quando um ecossistema valioso não tem estatuto de reserva, não faz parte da rede nacional de áreas protegidas. Isso faz com que tenhamos muitas bolsas dispersas pelo território, que são ecologicamente muito valiosas, mas que estão altamente vulneráveis.  Assim, a Milvoz escuda a protecção desses territórios pela via da propriedade.

A Bio reserva da Senhora da Alegria

Manuel Malva conta que “a Senhora da Alegria tem actuado como modelo. Adquirimos um bosque maduro, nativo, ecologicamente muito valioso, e também os eucaliptais que estavam na área envolvente, de modo a fazer o restauro ecológico e garantir que controlamos as ameaças sobre o núcleo. Além disso, a associação dinamiza várias acções abertas ao público e que funcionam também como actividades de educação ambiental. Por outro lado, fazemos também a recuperação e manutenção de percursos pedestres antigos. Por exemplo, a senhora da Alegria integra uma capela antiga e um caminho pedestre até ela. É um caminho histórico. Assim, além da questão ambiental tentamos fazer a ponte com aspectos históricos e culturais, o que aproxima pessoas com interesses diversos”.

As dificuldades no planeamento da conservação. A bio-reserva Vale da Aveleira

O biólogo explica que “parte das áreas de conservação estão em antigos territórios agrícolas, que sofreram uma renaturalização. A vegetação tenta retomar o sítio que tinha sido tomado pela agricultura durante séculos. O problema é que esse processo de naturalização já raramente corre bem, com as invasoras a proliferar. Muitas têm uma vantagem competitiva em relação às espécies nativas. Assim, estas áreas estão sempre muito ameaçadas e a pressão do fogo é crescente: “O que torna muito difícil o planeamento da conservação em geral porque começamos a sentir que não há nenhuma área florestal que esteja completamente a salvo e que de um momento para o outro pode ser tudo arrasado”, esclarece o biólogo, acrescentando: “sobretudo, quando estamos a trabalhar com a conservação de bosques maduros, como é o caso da bio-reserva integral que se perdeu na Serra da Lousã”. Um bosque secular, com árvores centenárias. As maiores, as mais antigas eram castanheiros. Mas havia também azinheiras, carvalho-alvarinho, azevinho, medronheiros, cerejeira-brava, aderno, aveleiras e azereiros — uma relíquia da floresta de Laurissilva, muito rara. Manuel Malva lamenta: “era, de facto, uma zona que tinha um bosque maravilhoso, com todo o ecossistema que gerava. Uma das últimas matas antigas, maduras, seculares, cada vez mais raras. Ao mesmo tempo que estava a arder a Vale de Aveleira, ardia também a Mata da Margaraça, que é, fazendo um paralelo, o bosque mais próximo em termos de composição, de humidade. A bio-reserva actuava quase como uma viagem no tempo. Naquele espaço, conseguíamos aceder àquilo que existia há séculos, antes da intervenção humana. Estava ali um pedacinho representativo da realidade que podia existir se não tivesse havido a pressão humana. Estamos a perder estes últimos redutos”.

A variedade de espécies faunísticas e florísticas ali existentes era enorme, bem como de fungos, líquenes e musgos. Era um refúgio privilegiado para espécies da fauna portuguesa, designadamente aves florestais, mesocarnívoros e ungulados, bem como répteis e anfíbios, sendo de assinalar a presença de vários endemismos ibéricos. Podia também ser encontrado o veado-vermelho, o corço, a águia-cobreira, o melro-d’água, a salamandra-lusitânica, o lagarto-d’água ou a víbora-cornuda. Manuel Malva refere que “esta área era particularmente importante para os morcegos arborícolas. Por ser um bosque antigo, eles tinham muitas cavidades naturais para se esconder”.

Com a destruição absoluta da reserva, o foco das intervenções será o controle de espécies invasoras, nomeadamente da acácia. Uma acção hercúlea, tendo em conta a orografia do território, uma área bastante extensa, sem acesso a tecnologia. A bio-reserva do Vale da Aveleira fica na encosta norte da Serra da Lousã, precisamente onde o fogo foi mais intenso. A montante de Vilarinho e Cabanas. O acesso à reserva será mesmo um problema — seis horas de caminhada. Além disso, serão necessárias pessoas experientes e com disponibilidade para pernoitar — devido à distância. Só com mais recursos financeiros, que permitam a contratação de duas ou três pessoas dedicadas ao restaurante ecológico da reserva, será possível intervir.

“O que não é fácil. Captar esses recursos financeiros e encontrar as pessoas certas, com esse perfil”, lamenta Manuel Malva. No entanto, adianta, “este sítio é demasiado valioso para que não tenhamos em marcha qualquer projecto de restauro. Até porque estamos a ficar com uma paisagem repleta de biomassa. Mas de uma biomassa que não está integrada num sistema em equilíbrio. Temos uma paisagem cada vez com menos descontinuidades naturais. Com menos prados. Com menos pomares. Com menos campos de cultivo. Isso faz com que, quando começa, um incêndio ganhe dimensões incontroláveis. Temos uma paisagem com muito combustível. E sem áreas de trabalho”.

As encostas xistosas e ingremes da Serra da Lousã estão agora sem sustentação, o que poderá ser um problema também para o Inverno. Como refere o biólogo, “se tivermos o azar de o Outono começar com grandes chuvadas, vai ser caótico. Porque vamos ter toneladas de solo e de cinzas a serem canalizados para as linhas d’água”. O cenário não é animador, mas a MilVoz continuará os seus esforças, com o empenho de Manuel Malva e de todos os seus colaboradores. Fazer-se associado é sempre uma forma de ajudar e estimular o trabalho da associação que tão necessária é em tempos difíceis para o património natural.

 

Ana Rajado