Quando se fala de transportes urbanos, falar de mobilidade suave tornou-se incontornável. Não mais os carros que entopem cidades, não mais os escapes que poluem o ar, vivam os transportes públicos, as bicicletas – e as trotinetas!
As trotinetas, esse meio tão ligeiro e eficaz que em muitas cidades pode ser requisitado em diversos pontos, permitindo fazer trajectos demasiado longos para serem feitos a pé mas evitando o carro. As trotinetas, que são tão cómodas que podem ser largadas em qualquer rua, graças às maravilhas da tecnologia: desbloqueia-se aqui, faz-se o caminho por ali, e no fim é só abandonar o maravilhoso veículo em qualquer lado. Por exemplo, no meio do passeio, impedindo a passagem de pessoas que se desloquem em cadeiras de rodas, tornando a vida difícil a quem circula com um carrinho de bebé ou estorvando quem vem carregado com sacos ou com crianças pela mão. Quantas vezes em Bruxelas não se encontram as trotinetas, em jeito de cadáveres de insectos gigantes, tombadas pelos passeios?
As trotinetas, tão amigas do ambiente que circulam funcionando a electricidade, para o que requerem o uso de baterias, que implicam a extracção de terras raras e lítio, assim como tremendas emissões de carbono para a sua produção. Importa é que seja bem longe do nosso olhar, porque longe da vista, longe do coração. Baterias cujo fim de vida será nalguns casos demasiado cedo, sem garantias de adequada reciclagem, mas enquanto o pau vai no ar descansam as costas, e enquanto a trotineta acelera não vemos o lixo em que se transformarão quando chegar ao fim o seu ciclo de vida.
As trotinetas, tão flexíveis que circulam na estrada, como se fossem um carro, mas muitas vezes circulam, de forma totalmente ilegal, nos passeios, pondo em risco a segurança dos peões.
As trotinetas, leves e simples, mas que estão na origem de um número de acidentes que vem aumentando gradualmente à medida que o seu uso aumenta também. Acidentes graves, envolvendo fracturas dos membros ou traumatismos cranianos, e com crescente número de mortos. Na região de Bruxelas, só nos primeiros três meses de 2025 registaram-se 470 acidentes com feridos ou mortos, sem incluir os que envolvem apenas o utilizador do veículo, já que esses, compreensivelmente, não são comunicados à polícia. Mas não será que as trotinetas são apenas vítimas da sua própria vulnerabilidade face aos veículos automóveis? Claro que as trotinetas também são vítimas dos automóveis, e que esses estão na origem de muitos e perigosíssimos acidentes. Mas os perigos inerentes às próprias trotinetas são pouco mencionados, havendo muitas referências às suas vantagens e poucas aos seus riscos.
Em Bruxelas, já ninguém quer mais a sensação de andar a pé no ‘pietonnier’ (ou seja, na grande zona pedonal que preenche o centro da cidade), com o coração nas mãos, à espera da próxima tangente de uma silenciosa e vertiginosa trotineta. As trotinetas vão em breve ser proibidas de aí circular. Em boa hora.