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Semanário no Papel - Diário Online

 

Hernâni Caniço

A política a que chegámos

12 de Setembro 2025

Há movimentos independentes das forças partidárias que fortalecem a democracia e colocam-se em paralelo com as organizações da sociedade civil no exercício da cidadania e na promoção dos direitos humanos, e há movimentos oportunistas que funcionam como refúgio para alcançar o poder político, estimular o ego e mesmo exercer a tirania.

Diz o povo, há de tudo como na farmácia. Como não há democracia sem partidos, há partidos que se unem nos objetivos principais, em que o único tirano á a voz da consciência, e há partidos que são barriga de aluguer para interesses pessoais e desempenho déspota, desvirtuando os princípios programáticos da sua fundação.

O leitor não precisa de outras indicações para formular os seus juízos de valor, habilitados pela sua experiência de vida, pela visão política que perfilham e pelas ações meritórias e inovadoras ou impertinentes e decrépitas que as candidaturas autárquicas apresentam ao eleitorado.

Coimbra é uma lição, por vezes de sonho e tradição, com evolução e desenvolvimento, outras tantas (por outras vias), de pesadelo e manipulação, numa mistura de mentira e ilusão.

Após anos sem mobilidade adequada à sustentabilidade e ao impacto ambiental, um executivo socialista iniciou obras para o MetroBus, a que se seguiu um executivo de direita que, após colocar a cidade em pantanas nos últimos anos, inaugura 5 km de trajecto (de um total de 42), em modo veraneio, gratuito (em período pré-eleitoral), em percurso não essencial para o trabalho ou a vida quotidiana.

Entretanto, como quem não quer a coisa, através do conluio governativo nacional e autárquico, aproveita-se para demitir 2 administradores (perigosamente do PS) que asseguraram o sucesso da continuidade e conclusão da obra, por 2 administradores do PSD, que irão preparar a exploração comercial (decerto não gratuita, após as eleições).

Invocam-se valores cuja autoria é assumida com toda a subjectividade. O presidente da Câmara de Coimbra menciona o ligeiro aumento da população em Coimbra, nos últimos 4 anos, como se fosse obra sua e seu mérito, aproveitando para elogiar os imigrantes, quando a política da sua área é estigmatizá-los, impedindo o reagrupamento familiar (por acordo com o Chega). Claro que devemos elogiar os imigrantes pelo contributo para a economia nacional, em dignidade e direitos humanos (que são ignorados), mas não reconhecemos qualquer mérito ao referido presidente, pois o aumento da população é nacional (1,6 milhões) e não é regional e sectorial, nem havendo nenhuma ação de integração dos imigrantes em Coimbra no mandato do executivo de direita. Segundo o INE, Coimbra travou a perda de população residente entre 2001 e 2021 (mandatos social-democratas e socialistas), a que se seguiu a vinda da imigração.

Atribui-se um prémio de mérito empresarial, mas o empresário premiado não é recebido, até vir reclamar e devolver o prémio em sessão de Câmara, e o presidente critica o seu vereador, não assumindo responsabilidade solidária.

Cria-se um gueto habitacional em Taveiro, mas não se providenciam creches e jardins-de-infância, transportes adequados e estruturas de saúde dimensionadas como é responsabilidade autárquica, após delegação de competências.

Um distinto quadro e figura emérita do PSD (Nuno Freitas) diz publicamente que não vota em José Manuel Silva, não lhe reconhecendo qualidades nem mais-valia para o cargo, e porque (entre outros factores) “manteve-se a arrogância com tiques autoritários a par de todo o tipo de festarolas ad nauseum” (também já o dissemos previamente).

A política a que chegámos baixou o nível com um protagonista autocrata, demagogo e falacioso, que talvez se apoie no Chega, se precisar. A contestação dos verdadeiros social-democratas, a alternativa de uma coligação abrangente liderada por uma independente séria e pelos socialistas, aliada à sabedoria do povo, favorecerão a derrota do executivo de direita, perdida a aura da competência que pariu um rato.

(*) Médico e vereador do PS na Câmara de Coimbra