A recente conversa entre Vladimir Putin e Xi Jinping, captada por microfones abertos durante um desfile militar em Pequim, na qual se especulou sobre transplantes de órgãos, biotecnologia e a possibilidade da imortalidade não é, apenas, um episódio curioso da política internacional… É também um sintoma de uma questão filosófica e científica fundamental: até que ponto o desejo de prolongar a vida pode redefinir a condição humana? A ideia de viver 150 anos, ou mesmo indefinidamente, traduz uma aspiração antiga: escapar à finitude. Do mito de Gilgamesh à alquimia medieval, a humanidade sempre procurou vencer a morte. Hoje, esta busca ganha aparência técnica, legitimada pelos avanços da biotecnologia, da engenharia de tecidos e da inteligência artificial médica. O que antes era sonho mitológico torna-se, agora, hipótese laboratorial. Mas se prolongar a vida biologicamente já é controverso, mais radical é o horizonte em que deixamos de falar apenas de Inteligência Artificial (IA) para falar de Transferência de Inteligência (TI)… Neste instante abre-se a verdadeira caixa de Pandora: a possibilidade de “migrar” a mente para fora do corpo, criando entidades híbridas, semi-humanas, que dissolvem os limites entre o biológico e o digital. Se a IA foi pensada como ferramenta, a TI coloca em causa a própria definição de sujeito. Isso vai acontecer… A questão deixa de ser “quanto tempo podemos viver” e passa a ser “quem, ou o quê, é que continua a viver”… Contudo, prolongar a vida biologicamente não equivale a alcançar a imortalidade! A ciência pode prolongar funções orgânicas, substituir órgãos ou retardar o envelhecimento celular, mas persiste a questão filosófica…: qual é o sentido de viver sem a presença da morte? Heidegger lembrava-nos que é a consciência da finitude que estrutura o “ser-no-mundo”. Eliminar a morte significaria também transformar, radicalmente, a experiência humana do tempo, do aborrecimento, da herança e da responsabilidade… A própria ética funda-se na transitoriedade… A conversa dos líderes traduz menos uma meditação sobre a condição humana do que uma projeção de poder. Para governantes que já ultrapassaram décadas no cargo, a promessa da imortalidade é, também, a promessa de perpetuação política. Aqui reside um paradoxo: enquanto a biotecnologia se apresenta como emancipadora, o seu acesso pode tornar-se instrumento de concentração de privilégio, criando uma nova desigualdade, não apenas entre ricos e pobres, mas entre mortais e quase-imortais! Do ponto de vista científico, subsistem limites intransponíveis… O prolongamento artificial da vida suscita dilemas sobre qualidade, identidade e dignidade… Se um corpo é continuamente “reciclado”, permanece a mesma pessoa? O “eu” sobrevive à substituição de órgãos e tecidos, ou apenas uma simulação prolongada do organismo? Não sei não… A filosofia da mente sugere que a consciência não é redutível ao suporte biológico e, talvez, nunca seja transplantável como um coração ou um fígado. Em última análise, acredito que a imortalidade tecnológica não resolve a vulnerabilidade humana; apenas vem disfarçá-la. O perigo maior talvez não esteja em viver 150 anos, mas em acreditar que a morte pode ser abolida… O risco é que, ao tentar dominar o ciclo natural, acabemos por empobrecer o próprio sentido da vida… A imortalidade, assim, permanece menos como horizonte científico do que como metáfora política e existencial… É possível que se viva mais, mas é preciso, antes de tudo, decidir para quê e para quem… Se a morte é o limite que dá forma ao viver, então a vida, liberta da sua sombra, deixaria de ser mais do que soma de instantes, perderia o peso do destino e, com ele, a profundidade que transforma a existência em humanidade. O todo deixaria de ser maior do que a soma das partes… Quando a caixa de Pandora da imortalidade se abrir, não é apenas o corpo que se prolonga ou a mente que se transfere, é a própria humanidade que se reconfigura e, nesse reordenamento, a vida já não é soma de partes, mas o enigma maior daquilo que ousamos chamar eternidade.
(*) Doutorando da FMUC