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Edene Melodie Mota

Urgências em colapso: a excepção que virou rotina

5 de Setembro 2025

Nos bastidores dos hospitais trava-se uma guerra silenciosa. Não apenas contra a doença ou a morte, mas contra o abandono de um sistema e o desgaste de quem resiste. Os Serviços de Urgência (SU) estão à beira da rutura e os profissionais perante o abismo.

Todos os dias, estes corredores transformam-se em frentes de batalha física e emocional. Doentes em macas durante horas ou dias, equipas reduzidas, recursos limitados. O SU, criado para situações agudas e críticas, tornou-se a porta de entrada para milhares de cidadãos. O que era excepção tornou-se rotina e esta por sua vez insustentável. Segundo a OCDE, cerca de 20% dos episódios de urgência em Portugal poderiam ser resolvidos noutros contextos de cuidados, como os cuidados de saúde primários (CSP). Mas marcar uma simples consulta é, para muitos, impossível. A falta de profissionais, a burocracia e o desinvestimento empurram a população para os SU, mesmo em situações não urgentes.

Recorrer ao sector privado também não é solução universal: com o aumento do custo de vida, a saúde tornou-se, para muitos, um privilégio inacessível. E quando não há alternativas, resta ir onde sabem que serão atendidos – ainda que isso signifique horas de espera, sobrecarregar profissionais e contribuir inconscientemente para o colapso do sistema.

No centro desta espiral está o Enfermeiro. Profissional altamente qualificado, preparado para cuidar em contextos de alta complexidade. Mas como garantir excelência em ambientes de exaustão permanente? Há turnos em que um enfermeiro cuida de dez ou até quinze doentes críticos. Trabalha em esforço constante, reduzidas pausas, alimentação desequilibrada, insónias e vida familiar inexistente. De acordo com um estudo da ESEL (2023), mais de 60% dos enfermeiros portugueses apresentam sinais de burnout, e 20,5% já sofrem de exaustão emocional severa.

Este desgaste é estrutural: cresce a rotatividade, multiplicam-se pedidos de mobilidade e abandonos da profissão. E quem permanece? Os resilientes, os apaixonados… até quando?

A instabilidade política agrava o cenário. A saúde serve de bandeira eleitoral, mas raramente de prioridade governativa. Planos iniciam-se e ficam pelo caminho, reformas são adiadas, orçamentos cortados. Cada mudança de governo traz intenções novas, mas nunca continuidade. Esta dança política fragiliza ainda mais o SNS, desgastando equipas e gerando uma sensação colectiva de abandono.

 

Cuidados de qualidade e proteger os cidadãos

 

A Ordem dos Enfermeiros (OE) tem, de forma reiterada, chamado a atenção para esta realidade. Nos seus pareceres e recomendações, lembra que sem dotações seguras não é possível garantir cuidados de qualidade nem proteger os cidadãos de riscos acrescidos. O Regulamento n.º 743/2019 da OE estabelece critérios claros para a adequação das equipas. A OE assume o papel na defesa da segurança dos cuidados, alertando para as consequências de se manter este ciclo de exaustão e de omissão de cuidados.

Para além da denúncia, a OE tem assumido uma postura proactiva, promovendo visitas institucionais, relatórios e recomendações que expõem fragilidades estruturais e apontam caminhos de melhoria. A sua intervenção procura não apenas proteger os Enfermeiros, mas sobretudo garantir que cada cidadão tem acesso a cuidados seguros, dignos e de qualidade, mesmo em contextos de enorme pressão como os SU.

Estes necessitam de uma reestruturação: reorganizar fluxos, garantir altas atempadas e vagas de internamento, reduzir permanências e readmissões, que são indicadores de qualidade e eficiência assistencial. É urgente reforçar a articulação com os CSP, o sector social e o privado. E, tal como tem defendido a OE, nada será possível sem reconhecimento e valorização concreta dos profissionais. Valorização não é apenas salários, mas também, dotações seguras de Enfermeiros, condições que permitam cuidados humanizados, seguros e individualizados; tempo para formação; atualização científica e reflexão clínica.

Um SU moderno e funcional começa em equipas respeitadas e capacitadas. Se nada mudar, não será apenas o SU a colapsar: será todo o SNS, a saúde mental e física de quem o sustenta e a esperança de quem entra por aquelas portas à espera de ser salvo. Mas afinal, quem cuida de quem cuida? É tempo de agir. Porque o colapso já não é ameaça, é uma realidade.

(*) Membro do Conselho de Enfermagem Regional da Secção Regional do Centro da Ordem dos Enfermeiros