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Do confinamento ao recreio: o legado silencioso da pandemia

2 de Setembro 2025 Jornal Campeão: Do confinamento ao recreio: o legado silencioso da pandemia

Nos últimos anos, professores, psicólogos e famílias em Portugal têm reportado um aumento preocupante da violência entre crianças, incluindo casos de bullying em idades cada vez mais precoces. A pandemia de COVID-19, com os longos períodos de confinamento, ensino à distância e isolamento social, teve um impacto profundo no desenvolvimento emocional e social das crianças, deixando marcas que ainda hoje se fazem sentir.

Durante o confinamento, muitas crianças ficaram privadas de interações presenciais com colegas, professores e amigos — essenciais para o desenvolvimento de competências sociais como a empatia, a partilha e a resolução pacífica de conflitos. As interações que antes aconteciam no recreio ou em atividades extracurriculares foram substituídas por ecrãs, aumentando a exposição a conteúdos digitais nem sempre adequados e limitando a aprendizagem de regras de convivência.

A pandemia desencadeou fenómenos de regressão emocional em crianças pequenas, manifestando-se em maior impulsividade, dificuldade em lidar com frustrações e comportamentos agressivos. A ausência de rotinas estáveis e a ansiedade vivida dentro das famílias durante este período também contribuíram para um aumento da irritabilidade e da instabilidade emocional. Muitas crianças demonstraram sinais de regressão comportamental, como voltar a ter medos típicos de idades mais baixas, maior dependência dos cuidadores ou dificuldades de concentração. Outras crianças passaram a reagir de forma mais explosiva perante pequenas contrariedades, revelando a fragilidade das suas competências de autorregulação.

Com o regresso ao ensino presencial, observou-se uma intensificação de comportamentos agressivos e casos de bullying. Crianças que passaram longos meses em ambientes restritos tiveram dificuldades em readaptar-se à convivência em grupo. Muitas expressaram as suas ansiedades através de comportamentos violentos ou de exclusão social. Além disso, o aumento da utilização de dispositivos digitais durante a pandemia potenciou novas formas de cyberbullying, prolongando o impacto da violência para além das paredes da escola.

Dados da PSP indicam que, no ano letivo 2021/22, houve um aumento de cerca de 37% dos casos registados criminalmente em contexto escolar, atingindo 2.847 ocorrências — o valor mais elevado dos últimos nove anos. Entre estas, destacam-se 1.169 casos de agressão física e 752 de injúrias e ameaças.

Um estudo do ISCTE revelou que mais de 60% dos estudantes portugueses (entre março e maio de 2020) afirmaram ter sido vítimas de agressões online, incluindo insultos, partilha de imagens íntimas ou incitação ao suicídio. Os jovens mais vulneráveis foram estudantes LGBTI, rapazes e alunos de famílias com menos recursos, revelando desigualdades acrescidas neste fenómeno.

Um balanço de denúncias recentes mostra que a idade média das vítimas de bullying em Portugal é de 13,7 anos, sendo 59% raparigas. Contudo, o fenómeno não se restringe a adolescentes: o 1.º ciclo concentra 32,9% dos casos denunciados, o que significa que crianças cada vez mais novas estão a ser alvo de violência entre pares.

Os dados apontam para uma subida dos incidentes de violência entre pares, inclusive em crianças do 1.º ciclo, algo que anteriormente era mais frequente em adolescentes. Os professores têm partilhado a perceção de que os alunos regressaram à escola com menor capacidade de concentração, mais ansiedade e maior dificuldade em respeitar regras básicas de convivência.

Perante este cenário, é fundamental que os pais e cuidadores estejam atentos, não apenas aos sinais de bullying, mas também às manifestações emocionais mais subtis que as crianças podem apresentar. Irritabilidade frequente, isolamento, queixas físicas sem causa aparente ou resistência em ir à escola podem ser indicadores de sofrimento.

Os pais podem ajudar criando um ambiente de escuta ativa e validação emocional em casa. É essencial que os adultos modelem comportamentos saudáveis: a forma como lidam com conflitos, frustrações e emoções é aprendida e reproduzida pelas crianças.

Pais e professores devem comunicar de forma aberta e rápida perante sinais de violência, para evitar que episódios de bullying se prolonguem e causem maior sofrimento.

Para enfrentar este desafio, torna-se fundamental reforçar a educação emocional desde cedo, tanto no ambiente escolar como familiar. Estratégias como promover atividades de cooperação, incentivar a empatia e criar espaços de diálogo sobre sentimentos são essenciais para reduzir comportamentos agressivos. O acompanhamento psicológico em casos mais graves também desempenha um papel crucial na prevenção do bullying e na recuperação das crianças envolvidas, sejam vítimas ou agressores.

 

Inês Andrade Sousa

Psicóloga Clínica