João Francisco Campos é presidente da União de Freguesias de Coimbra e da Comissão Política Concelhia do PSD. Empresário e dirigente associativo, com um percurso de dedicação à cidade, integra agora a coligação Juntos Somos Coimbra, candidata às eleições autárquicas de 12 de Outubro.
Campeão das Províncias [CP]: Como nasceu o seu gosto pela política e quais foram os primeiros passos nesse caminho?
João Francisco Campos [JFC]: Gosto muito da política. Ainda na escola, no liceu Infanta Dona Maria, convidaram-me logo no 7.º ano para a Associação de Estudantes. Aí comecei a participar na vida política, mas sem ligação a nenhuma juventude partidária. Só me filiei num partido mais tarde, já com 21 anos.
[CP]: Como se deu a entrada formal na vida partidária?
[JFC]: Filiei-me no PSD em 1997, com 21 anos, e passado menos de um ano fui eleito presidente da JSD de Coimbra. Foi uma responsabilidade grande, mas ao mesmo tempo uma afirmação clara do meu interesse pela vida pública.
[CP]: Pensa em fazer carreira política a nível nacional?
[JFC]: Não. Apesar de já ter passado pela distrital da JSD, não gostei dessa experiência. Nunca tive interesse em ser deputado. Recusei convites para outros cargos, porque gosto de fazer política local, em Coimbra, no contacto directo com as pessoas. É aqui que me realizo.
[CP]: E esse contacto directo com os cidadãos é o que mais o motiva?
[JFC]: Sim. Eu gosto muito da proximidade com as pessoas. Há dias em que é cansativo, claro, porque nem sempre tudo corre bem. Mas quem faz o que gosta nunca sente que está a trabalhar. Essa ligação diária, mesmo quando surgem críticas ou desafios, é o que me dá energia.
[CP]: Como encara actualmente a designação da União de Freguesias que preside?
[JFC]: Temos feito uma transição para passar de “União de Freguesias de Coimbra” para “Freguesia Cidade de Coimbra”. Não é formal ainda, mas é o caminho que queremos seguir. Somos, na prática, a freguesia da cidade. Para já tem sido mais um trabalho de imagem e de marketing, mas a ideia é tornar essa designação oficial no futuro.
[CP]: E como pensavam apresentar essa nova imagem à população?
[JFC]: Estava previsto fazermos essa apresentação pública aquando da reinauguração da sede, no bairro Sousa Pinto, após as obras. Criámos uma nova imagem, com identidade própria, e melhorámos também as condições de trabalho dos funcionários, que antes estavam em espaços sem condições.
[CP]: E porque é que essa apresentação não chegou a acontecer?
[JFC]: Porque entretanto foram marcadas as eleições e não podemos inaugurar ou divulgar novidades sem parecer propaganda. Foi frustrante, porque o objectivo era apenas apresentar o trabalho feito e a nova imagem da freguesia. Mas acabámos por adiar para depois das eleições.
[CP]: Como surgiu a sua entrada na lista da coligação Juntos Somos Coimbra?
[JFC]: Foi um desafio que se impôs. A coligação foi alargada com a entrada da Iniciativa Liberal e do MPT. Com isso, o PSD perdeu o quinto lugar de vereador para a IL. Perante essa alteração, fez sentido manter o nosso vice-presidente e eu próprio integrar a lista, como sinal político de força e de compromisso total do PSD com a coligação.
[CP]: Essa decisão foi consensual dentro da coligação?
[JFC]: Sim, totalmente. Não houve qualquer polémica quanto à minha entrada na lista. Percebeu-se que era natural que o presidente da concelhia do PSD assumisse esse lugar. É até uma certa tradição. A leitura nunca foi de oposição interna, mas sim de reforço e unidade.
[CP]: Alguns podem interpretar essa mudança como um passo para preparar uma futura candidatura sua à Câmara. Essa leitura faz sentido?
[JFC]: Não, não corresponde à realidade. Nunca vi esta decisão como um trampolim para daqui a quatro anos.
[CP]: Então, não ambiciona uma carreira política mais longa em nome do partido?
[JFC]: Não. Estou no meu segundo mandato como presidente da concelhia do PSD e não me recandidatarei, até porque só são permitidos três mandatos. Defendo que os ciclos autárquicos devem ser respeitados. Cabe a outros preparar as próximas eleições. Naturalmente, daqui a quatro anos veremos o que acontece, mas o meu compromisso é com este ciclo.
[CP]: Como avalia este mandato da Câmara Municipal?
[JFC]: Eu acho que foi um mandato difícil. Este Executivo pegou numa Câmara sem projectos lançados, sem nada preparado. Por exemplo, nas escolas, não havia absolutamente nada; tudo teve de ser feito do zero. Na acção social, tirando um projecto parado no Vale de Figueiras, não existia nada que pudesse avançar. A Quinta das Bicas é outro exemplo: com 230 ou 240 fogos, representa um avanço enorme para a nossa lista de espera, que tem cerca de 800 famílias à espera, incluindo aquelas em situação difícil, como mães solteiras que trabalham. O mandato exigiu perceber a realidade da Câmara, que é como uma locomotiva: para pôr a andar, demora tempo.
[CP]: Como olha para os erros que aconteceram neste mandato?
[JFC]: Seria arrogância dizer que não houve erros. Houve, claro. Por exemplo, a questão da internalização dos serviços municipais de transportes urbanos foi um erro. Do meu ponto de vista, esses serviços deviam evoluir para uma empresa municipal. Mas só erra quem trabalha e todos nós erramos. O importante é reconhecer e melhorar.
[CP]: E sente que a cidade melhorou?
[JFC]: Sim, muito. Coimbra hoje é uma cidade mais aberta, mais dinâmica. O ecossistema mudou: há mais empresas, mais investimento, mais movimento. O parque empresarial está lotado, e o problema agora não é atrair empresas, é ter espaço para as receber.
[CP]: E quanto à habitação?
[JFC]: É um problema sério. O PDM está obsoleto e trava muita coisa. Continuamos a construir em altura baixa — seis andares — quando devíamos estar a pensar em prédios mais altos, optimizando melhor o solo.
[CP]: Pode dar um exemplo dessa limitação?
[JFC]: Claro. A última grande torre de escritórios construída em Coimbra, já há muitos anos, está hoje completamente lotada. Foi sempre uma discussão sobre deixar ou não construir em altura. A verdade é que agora faz imensa falta.
[CP]: Isso tem impacto também nos preços das casas?
[JFC]: Sem dúvida. Lembro-me de casos concretos em que projectos foram travados ou reduzidos, e isso fez disparar os preços. Em vez de doze andares, construíram três ou quatro. Resultado: muito menos apartamentos disponíveis e preços a subir.
[CP]: Caso a Coligação que integra ganhe as eleições, o que podemos esperar de si?
[JFC]: Podemos estar cheios de sonhos e de vontade, mas é importante aprender com exemplos concretos. Veja-se o caso do Metro Mondego: foi uma obra altamente complexa, que envolveu a Câmara e as Infra-estruturas de Portugal, e que só avançou porque houve entendimento. Nunca senti que houvesse “pontapés debaixo da mesa” nas reuniões que tive com a Metro Mondego e com o IP. Pelo contrário, disseram-me até que Coimbra foi um exemplo nesse aspecto.
A obra não está mais atrasada sobretudo graças à vereadora Ana Bastos e à capacidade de articulação que houve. Isso mostra que, em projectos complexos, é possível chegar a entendimentos para além das pressões partidárias. É isso que eu quero para Coimbra: uma cidade que se desenvolve com base em consensos e não apenas em jogos políticos.
Dou outro exemplo: os SMTUC. Temos de ter um entendimento sério entre PSD e PS, no pós-eleições, para o futuro da mobilidade. O plano de integração com o Metro Mondego está em marcha: os autocarros vão alimentar o metro, reforçando as linhas exteriores e libertando a malha urbana. Todos ganham com isso. O problema maior não é comprar novos veículos, mas sim os motoristas. E isso resolve-se se os SMTUC passarem a ser uma empresa municipal. Sei que há receios, até porque se fala logo em “privatização”, mas isso não faz sentido. Veja-se o exemplo das Águas de Coimbra: quando passaram a empresa municipal, há mais de 20 anos, havia quem dissesse que era um desastre e que iam privatizar. Hoje, os trabalhadores estão satisfeitos porque têm melhores condições.
Já nos SMTUC, temos greves quase todos os meses, muitas vezes por assuntos que não são sequer da Câmara. Como empresa municipal, a gestão seria mais ágil, mais flexível nas contratações e na remuneração. É esse o caminho. E repito: não há nenhuma intenção de privatizar. Pelo contrário, seria muito mais fácil privatizar na situação actual do que sendo empresa municipal. O que queremos é eficiência, estabilidade e soluções para as pessoas.