Em Janeiro, o Campeão das Províncias lançou a pista: poderia estar a nascer uma coligação inédita para disputar Coimbra. Hoje, é uma realidade. Sob o nome “Avançar Coimbra”, PS, Livre, PAN e Cidadãos por Coimbra (CpC) uniram forças e já têm listas fechadas para a Câmara Municipal e para a Assembleia Municipal. No dia seguinte à reunião decisiva (12 de Agosto), Jorge Gouveia Monteiro, líder do CpC, fala-nos sobre o caminho até aqui e os desafios que se seguem.
Com raízes políticas no Partido Comunista Português e um histórico de 12 anos como vereador (1997-2009), Gouveia Monteiro construiu um percurso marcado pela defesa de valores essenciais à sociedade e pelo contributo para o desenvolvimento local. Hoje, à frente do CpC, mantém o foco na participação cívica e na defesa dos interesses dos conimbricenses.
Campeão das Províncias [CP]: Como está a Coligação Avançar Coimbra?
Jorge Gouveia Monteiro [JGM]: As coisas estão muito bem encaminhadas. A decisão da estrutura concelhia do Partido Socialista, tomada ontem por larguíssima maioria, foi determinante. Aprovaram as listas para a Câmara Municipal e para a Assembleia Municipal, que serão apresentadas em breve. O prazo para entrega no Tribunal termina já na próxima segunda-feira, dia 18. Há um vento de mudança muito interessante, que começa no próprio Partido Socialista. Não foi uma construção imposta de fora. A entrada da professora Ana Abrunhosa e o processo que a acompanhou mostram isso mesmo. Não foi uma “epidural” indolor, mas antes um parto com alguma dor e o resultado é uma criança saudável. Quero felicitar o presidente da Comissão Concelhia do PS, Ricardo Lino, pela firmeza e persistência. É um transmontano de palavra, que soube resistir e manter a convicção até ao fim.
[CP]: Houve críticas ao CpC por alegadamente favorecer o chamado “rotativismo” político. Como responde?
[JGM]: Fomos acusados de favorecer a alternância PS-PSD. É uma leitura injusta. Desde a nossa origem que procuramos alianças construtivas. Durante vários actos eleitorais fomos aliados do Bloco de Esquerda, que foi o único partido que aceitou integrar-se connosco no início. Falámos com todos, desde a fundação, quando Barbosa de Melo presidia à Câmara. Na altura, havia sinais de que o PS poderia encaminhar-se para mais um ciclo de Manuel Machado, e muitos socialistas entenderam que seria útil juntar forças à esquerda. Uma delegação dos Cidadãos por Coimbra, que incluía socialistas, elementos do Bloco e eu próprio, então no PCP, apresentou a proposta ao PS. Carlos Cidade, presidente da Concelhia, não a rejeitou de imediato, mas deixou-a cair. Se tivesse dito sim, em 2013 poderia ter havido uma grande frente de esquerda e não estaríamos a falar de rotativismo. Está na nossa matriz a ideia de agregar forças pelo bem da cidade. É isso que continuamos a fazer agora.
[CP]: Sente que as coligações estão a ganhar terreno e fazem cada vez mais sentido no actual contexto político?
[JGM]: Ontem recebi um telefonema de um antigo militante muito activo na defesa dos trabalhadores das minas de urânio. Dizia-me, com pena, que não conseguimos “fazer o pleno” e que era urgente unir as forças de esquerda para travar o avanço da direita, incluindo movimentos como o Chega.
Partilho essa visão. Este ano participámos na manifestação do 25 de Abril com uma faixa que dizia: “Abril 2025 – É tempo de unir forças.” Não tenho dúvidas: o número de coligações é hoje maior do que nunca, seja a nível nacional, municipal ou até de freguesia. Não me interessa conversar apenas com quem pensa como eu. A dialéctica é a base da esquerda: discutir, confrontar ideias, polinizar mentes diferentes. Quando era vereador, consegui convencer colegas do PSD sobre a justeza de muitas das minhas propostas. Isso, para mim, é quase tão gratificante como ganhar eleições.
[CP]: Sente que os eleitores estão hoje mais receptivos a soluções políticas que resultem de entendimentos e coligações?
[JGM]: Nas autárquicas, as pessoas querem sobretudo ver problemas resolvidos e isso é avassalador. Pegando no exemplo da habitação, que conheço bem: sem uma maioria capaz de enfrentar de frente o problema dos milhares de imóveis devolutos, tanto em Coimbra como no resto do país, teremos crises sérias, até com risco de ocupações.
Acredito que as coligações podem abrir caminho a soluções mais fortes e duradouras do que as que uma única força política consegue alcançar num mandato de quatro anos.
[CP]: O que o leva a acreditar que esta coligação poderá ter esse efeito?
[JGM]: Pela experiência e perfil das pessoas que a integram. A professora Ana Abrunhosa e a professora Maria Manuela Leitão Marques, que encabeça a lista para a Assembleia Municipal, trarão uma dinâmica muito diferente àquele órgão. No fórum realizado em Junho, no Pólo 2, mais de uma centena de participantes votou ideias novas para o programa que está a ser elaborado e que será, em breve, distribuído a todos os eleitores. Há sangue novo: tanto de quem entra pela primeira vez, como de quem mudou a sua perspectiva e aderiu a propostas inovadoras.
[CP]: Esta coligação junta ideias de várias origens políticas e perspectivas diferentes. De que forma essa diversidade se traduz em benefício para Coimbra?
[JGM]: Sem dúvida. A diversidade de percursos e sensibilidades é uma das maiores riquezas desta coligação. O confronto saudável de ideias permite encontrar soluções mais completas e inovadoras, que dificilmente surgiriam num contexto político homogéneo. Acrescenta capacidade de resposta. Quem vem de áreas ou partidos diferentes traz prioridades e olhares distintos sobre os mesmos problemas. Isso obriga a que cada proposta seja mais trabalhada, mais discutida e, por isso, mais sólida. É dessa síntese que pode nascer um projecto verdadeiramente transformador para a cidade.
[CP]: Como avalia a qualidade da lista apresentada pela coligação?
[JGM]: A lista reúne pessoas de grande valor, embora seja natural que nem todas as especialidades estejam cobertas no órgão executivo. Por exemplo, gostaria que algumas figuras-chave, como o arquitecto Adelino Gonçalves, especialista em urbanismo e mobilidade, tivessem uma posição com eleição praticamente garantida, dado o seu contributo essencial. Coimbra dispõe de boas competências nesta área, mas escasseiam profissionais com experiência consolidada e com tradição em planeamento urbano, ao contrário de uma prática centrada apenas na aprovação de projectos. A diversidade e o talento desta lista permitem uma abordagem mais qualificada e consistente ao desenvolvimento da cidade. É uma boa equipa e está muito entusiasmada.
[CP]: Está convicto da vitória em Outubro?
[JGM]: Não posso afirmar com certeza que vamos vencer, mas sou optimista por natureza e observo com atenção a reacção das pessoas na rua. Há entusiasmo, há simpatia pelo projecto, e isso nunca me enganou completamente. Em Coimbra, as pessoas são naturalmente polidas, mas sérias; formam convicções próprias. Ainda não estamos numa fase em que seja possível avaliar resultados com precisão, mas acredito que há uma procura por abordagens novas e soluções inovadoras para a cidade. Aguardo com interesse os dados das sondagens que estão a ser realizadas por órgãos como a SIC e o Expresso, que nos poderão fornecer mais elementos para análise.
[CP]: O programa que estão a preparar será exequível em quatro anos?
[JGM]: Estou convencido de que, com a Ana Abrunhosa, o Miguel Antunes e várias outras pessoas experientes à frente das operações, temos ideias muito claras sobre o que é preciso realizar no quadriénio. Há uma preocupação com os chamados “quick wins” — conquistas que podem ser implementadas rapidamente nos primeiros anos, produzindo resultados tangíveis. É natural que algumas iniciativas mais estruturantes se prolonguem para além do mandato, mas a convicção que tenho é que esta abordagem nova e dinâmica permitirá alcançar resultados significativos. Acredito ainda que, ao perceberem que esta coligação não é apenas rotativa, mas substancialmente diferente de mandatos anteriores, outras forças de esquerda poderão reconhecer o valor do trabalho realizado e até querer colaborar.
[CP]: Quais serão as principais “bandeiras” e assuntos-chave desta coligação?
[JGM]: A aposta central é a participação cidadã. Este objectivo é reforçado com a nova Assembleia Municipal, que assume um papel inovador e até agora pouco visível, muitas vezes submersa pelo executivo. Além disso, pretendemos fortalecer a colaboração com as juntas de freguesia e com as associações de moradores, incluindo zonas de classe média alta que estão a criar associações activas e influentes. A abertura à participação é um dos grandes defeitos da actual gestão, que desmotivou a comunidade ao romper com associações ambientais e ao adoptar uma abordagem burocrática e restritiva. A coligação quer mudar isso, promovendo processos presenciais, transparentes e realmente inclusivos.
Outro eixo-chave é a habitação. O novo bairro da estação e outros loteamentos deverão incluir habitação pública. Será necessário apoiar cooperativas habitacionais e promover a função social da propriedade, evitando a especulação e a deterioração de edifícios. A ideia central é que ser proprietário não deve significar o direito de deixar degradar imóveis à custa do interesse colectivo.
[CP]: Como é que avalia o trabalho desenvolvido pelo actual executivo?
[JGM]: Não digo que tenham feito tudo mal. Não vou a esse ponto, mas há várias questões que considero muito importantes e que ficaram por resolver. A participação dos cidadãos, por exemplo, onde está? Sempre foi forçada, quase arrancada com um alicate dentista. E depois, a habitação… a estratégia municipal não pode ser apenas correr com os mais pobres para Taveiro, sem equipamentos ou escolas previstas. Enfim, há alguma adaptação da EB 2/3 para as crianças, mas é pouco. A venda de terrenos valiosos da Câmara, em vez de os destinar a habitação mais acessível ou a renda social, reflecte uma ideia muito segregadora da cidade: limpar o centro, afastar as IPSS, até a Cozinha Económica queriam remover. Felizmente não conseguiram e espero que essa orientação já tenha sido abandonada. Coimbra tem locais com grande potencial, com pontos estratégicos que poderiam ser servidos pelo Metro, que deve funcionar como uma rega gota a gota: levar transporte onde há pessoas e fomentar a habitação onde o transporte chega.