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Programa de reabilitação para transplantados cardíacos aumenta em 50% a autonomia

8 de Agosto 2025 Jornal Campeão: Programa de reabilitação para transplantados cardíacos aumenta em 50% a autonomia

Na fotografia: Maria de Fátima de Sequeira Loureiro, da Escola Superior de Enfermagem de Coimbra

 

Um inovador programa de Enfermagem de Reabilitação dirigido a pessoas transplantadas ao coração revela ganhos médios de 50,26% na melhoria do estado funcional e na recuperação da autonomia nas actividades básicas da vida diária. Esta conclusão resulta de um estudo de doutoramento conduzido pela professora Maria de Fátima de Sequeira Loureiro, da Escola Superior de Enfermagem de Coimbra (ESEnfC), que sublinha ainda a importância de incluir o cuidador no processo de reabilitação.

Desenvolvido ao longo de três anos e testado entre 2021 e 2023 num dos quatro centros nacionais de referência em transplante cardíaco, a Unidade Local de Saúde de Coimbra, o programa envolveu 19 doentes e apresentou resultados expressivos no aumento da capacidade de autocuidado, na literacia em saúde e na adesão a regimes de actividade física adequados.

Além disso, os dias de internamento foram significativamente inferiores à média registada na literatura médica, com uma duração média de 15 dias, quando o habitual oscila entre 20 e 33 dias. Importa ainda destacar que não se registaram reinternamentos associados a intolerância ao programa ou à actividade física prescrita.

Maria Loureiro destaca que o pós-transplante impõe desafios complexos aos doentes e às suas famílias, desde a adaptação à nova condição física e regime terapêutico até às limitações funcionais iniciais, como fraqueza muscular e perda de autonomia. A docente alerta para a presença frequente de alterações emocionais e cognitivas: ansiedade, medo da rejeição, perturbações do sono e da imagem corporal, que exigem um acompanhamento integrador e humanizado, capaz de valorizar a pessoa na sua totalidade.

O programa inclui “mobilização precoce” após a cirurgia, treino de exercícios respiratórios, aeróbios e de resistência, com níveis de intensidade progressivos, e educação direccionada para o reconhecimento de sinais de alerta e gestão dos factores de risco cardiovasculares. Após a alta hospitalar, o acompanhamento semanal dos transplantados durante os primeiros dois meses garantiu uma transição mais segura e eficaz para o domicílio.

Um dos aspectos mais inovadores do estudo é a valorização do cuidador familiar, considerado não apenas parceiro mas também alvo directo de intervenção. De acordo com a investigação, a inclusão dos cuidadores nos programas de reabilitação pode potenciar a sua própria saúde e facilitar o desempenho do papel de prestador de cuidados.

Esta perspectiva foi reforçada pela validação, por 42 peritos internacionais de 20 países, de sete recomendações que promovem a integração do cuidador na reabilitação cardíaca. Entre elas, destaca-se que cuidadores e doentes frequentemente partilham factores de risco cardiovascular, pelo que ambos beneficiam da participação conjunta na gestão destes riscos. Além disso, a reabilitação cardíaca poderá funcionar como uma intervenção de prevenção primária para cuidadores, ao mesmo tempo que aumenta a adesão dos doentes aos programas.

Maria Loureiro considera que este trabalho representa uma contribuição sólida para a construção de práticas especializadas e sustentáveis, com impacto directo na vida das pessoas e das suas famílias, podendo servir de modelo para outras situações complexas de transição em saúde.

Desde 2003 que Portugal tem vindo a registar um crescimento significativo no número de transplantes cardíacos, que actualmente ultrapassa os 40 por ano. Em 2024, o país atingiu o recorde histórico de 58 intervenções, distribuídas por quatro unidades hospitalares de referência: Hospital de São João (Porto), Unidade Local de Saúde de Coimbra, Hospital de Santa Cruz e Hospital de Santa Marta (Lisboa).