Coimbra  17 de Março de 2026 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

Hernâni Caniço

À lei da bomba e da fome

8 de Agosto 2025

No dealbar da 2.ª Guerra Mundial, criou-se simpatia pelos judeus, espoliados dos seus bens e barbaramente massacrados, na maior tentativa de extermínio humano, até então, perpetrado pelos nazis, criando-se o Estado de Israel em 1948, com o voto favorável da União Soviética de Estaline, através do Plano de Partilha da Palestina, promovido pela Assembleia Geral da ONU, a pedido do Reino Unido, e aprovando-se 2 Estados, Israel com 53% do território (700.000 judeus) e o Estado Árabe da Palestina com 47% (1.4000.000 árabes).

Começaram então as várias guerras entre Israel e os árabes que apoiavam os palestinianos, tendo Israel ocupado também território que pertencia ao Estado da Palestina (Cisjordânia, península do Sinai, faixa de Gaza e montes Golã).

Regressamos à actualidade em que, após um raid da organização terrorista Hamas, que matou 1.500 israelitas e outros cidadãos, Israel matou 60.000 palestinianos, em bombardeamentos contra tudo o que mexe (civis, crianças, mulheres) e não mexe (hospitais, habitações particulares, pontos de recolha de alimentos), a pretexto de libertar reféns (alguns dos quais também matou).

Israel tornou-se um Estado que é assassino, sem distinção de movimentos extremistas e da população civil, provocando a destruição de infra-estruturas sem critério, a morte de inocentes, nomeadamente crianças, e a ocupação feroz e perseguição ao povo palestiniano, deixando-os à fome, bombardeando os locais onde crianças e mulheres procuram alimentos para sobrevivência, impedindo entrada de ajuda humanitária, violando todas as convenções internacionais de defesa da vida.

As imagens de crianças palestinianas esquálidas, em subnutrição severa, com um tacho na mão apelando a um alimento que lhe prolongue a agonia mas minimize o sofrimento, são um violento murro no estômago, demonstrativo de uma humanidade que não existe, e uma Humanidade que não acorda para impedir esta catástrofe, verdadeiro genocídio de um povo a que, na prática, não dão o direito de existir.

 

Crimes sem castigo

 

Existem leis internacionais que não são cumpridas por Israel, existe um corrupto no poder sanguinário, cruel e desumano, há forças políticas de extrema-direita que querem novo extermínio de sinal contrário, e há uma comunidade internacional que permite a chacina de seres humanos mortos como tordos.

São verdadeiros crimes sem castigo, praticados por Israel, com o apoio do país dono do mundo dominado por um alucinado, e com o mundo a olhar para o lado, quando devia ter vergonha da sua inacção, dos jogos de interesses económicos, e da demonstração de desprezo pela vida dos filhos de um deus menor.

Hoje, aqueles que defendem o indefensável, até sonegam as fotos internacionais com crianças em Gaza em estado de desnutrição, pelo facto de nalguns casos a desinformação apresentar casos de outra região, quiçá para desacreditar o que toda a gente vê, a morte em directo.

A ONU, através da sua organização mundial de monitorização da fome, alerta para o “pior cenário de fome” em Gaza, citada pela Euronews, prevendo-se uma “morte generalizada”, caso o mundo continue ausente.

Quando 143 em 193 países já reconheceram o Estado da Palestina, o governo português ainda pondera que fazer, até o dia de são nunca à tarde ou como último abencerragem desligado do mundo que sofre, mas pendurado no mundo da finança, dos interesses próprios e do poder instalado.

Em Gaza, já não bastava a lei da bomba, vieram a fome, as doenças, a morte. Já não há nenhuma simpatia por Israel, Estado algoz, carrasco, verdugo, carnífice.

(*) Médico e vereador do PS na Câmara de Coimbra