Fotografia de Susana Paiva
O Citemor — Festival de Montemor-o-Velho chega ao último fim-de-semana da sua 47.ª edição, consolidando-se como um território fértil para o encontro entre práticas artísticas contemporâneas, pensamento crítico e experimentação em tempo real. Entre 18 de Julho e 9 de Agosto, a vila do Baixo Mondego voltou a ser palco de residências criativas e apresentações que rompem fronteiras entre o que é espectáculo e o que é processo.
Um festival que resiste
Apesar da excelência artística e da projecção internacional — com o apoio institucional da DGArtes, do Programa AC/E para a Internacionalização da Cultura Espanhola (PICE), do Institut Ramon Llull e da Antena 1 e Antena 2 —, o Citemor cumpre, em 2025, 12 anos sem qualquer financiamento do Município de Montemor-o-Velho.
É neste contexto que os directores do festival deixam um repto claro às forças políticas locais, em ano de eleições autárquicas: “Os candidatos devem esclarecer atempadamente o que pensam do festival, se o pretendem apoiar e em que medida. Ou seja, se Montemor-o-Velho tem interesse, ou não, em que nós continuemos a desenvolver aqui este projecto artístico”.
Neste fecho de ciclo, a programação dá destaque a três propostas que abrem generosamente os bastidores da criação artística, permitindo ao público assistir ao pulsar vivo de obras em construção.
Escadas como manifesto
Amanhã, dia 7 de Agosto, pelas 22h30, o artista Bruno Humberto apresenta a abertura de processo da sua Enciclopédia das Escadas, uma performance que ocupa o espaço público de Montemor-o-Velho. A partir de uma residência com a comunidade local, Humberto propõe uma investigação multidisciplinar sobre o elemento arquitectónico das escadas, não apenas como estrutura funcional, mas enquanto metáfora de transições, ascensões e quedas do mundo contemporâneo.
As escadas, lembra o artista, evocam escaladas geográficas, políticas e emocionais, da arquitectura à guerra, da mobilidade social à especulação económica. Este projecto combina som, texto, escultura e movimento, com colaborações de João Ferro Martins e Miguel Ângelo Santarém.
Palestina, imagens e montagem
Na sexta-feira, dia 8, é a vez do Teatro do Vestido abrir o processo criativo de Exercício de Montagem, uma proposta que nasce das viagens de Joana Craveiro à Palestina, em 2023 e 2024. Com início marcado para as 22h30 no Teatro Esther de Carvalho, esta criação parte de imagens captadas nesses territórios sob ocupação para ensaiar, com sensibilidade e rigor, uma linguagem performativa que cruza cinema, teatro documental e memória pessoal.
A performance integra a voz da artista palestiniana Mery Lian Djadjanidze e convoca uma equipa artística e técnica multidisciplinar, entre quem manipula arquivos, compõe ambientes sonoros ou ilumina as zonas cinzentas da história contemporânea. A estreia está prevista para 2026, mas em Montemor o público é convidado a assistir ao segundo momento deste processo de criação em curso, onde o cinema em progresso se funde com o teatro em mutação.
Courávia: um concerto como paisagem em fluxo
O encerramento do festival, no sábado, 9 de Agosto, às 22h30, também terá lugar no Teatro Esther de Carvalho e faz-se com música em estado de invenção. Courávia, projecto inédito liderado pelo trompetista Gileno Santana, junta em palco nomes consagrados da cena musical contemporânea, Bruno Pernadas (guitarra), Frederica Campos (harpa) e Carlos Barretto (contrabaixo), num concerto que nasce de uma residência artística imersiva em Paredes de Coura.
Neste quarteto singular, o jazz dialoga com a música erudita, a electrónica e a improvisação livre, construindo paisagens sonoras que se moldam à medida do momento e da escuta. É um fecho de edição com fôlego e densidade poética, onde a criatividade se assume como prática colectiva e partilhada, entre passado, presente e os muitos futuros possíveis.