Coimbra  16 de Março de 2026 | Director: Lino Vinhal

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João Marrana: “Primeira fase do Metro a funcionar até ao final do ano, hospital em 2026”

3 de Agosto 2025 Jornal Campeão: João Marrana: “Primeira fase do Metro a funcionar até ao final do ano, hospital em 2026”

À frente do Conselho de Administração da Metro Mondego desde 2019, João Marrana tem sido o rosto do processo de concretização do Sistema de Mobilidade do Mondego, que abrange os concelhos de Coimbra, Miranda do Corvo e Lousã. A obra, uma das mais aguardadas do país, entrou finalmente na sua fase final, prevendo-se que esteja a funcionar em pleno até ao fim de 2026. Trata-se de um empreendimento de elevada complexidade técnica e organizativa, que procura reconciliar décadas de expectativas da população com os desafios de uma mobilidade mais sustentável e eficiente. O novo MetroBus é a face visível de um sistema que vai muito além do transporte público, ambiciona ser um motor de requalificação urbana e de coesão territorial.

Nesta entrevista, João Marrana traça o ponto de situação do projecto, reconhece os obstáculos que ainda importa ultrapassar e partilha a sua visão para o futuro da mobilidade na região.

 

Campeão das Províncias [CP]: A obra do Sistema de Mobilidade do Mondego tem sido descrita como uma das mais complexas das últimas décadas em Coimbra. O que justifica essa complexidade?

João Marrana [JM]: De facto, esta é, muito provavelmente, a obra pública mais complexa realizada em Coimbra nas últimas dezenas de anos. Para se ter uma ideia da sua dimensão, estamos a falar de mais de 14 concursos públicos, entre empreitadas e fornecimentos, todos com valores superiores a um milhão de euros. Isso significa um processo extremamente exigente do ponto de vista administrativo e técnico, que envolve a abertura, análise e adjudicação de cada um destes concursos. É demorado, naturalmente, mas foi e continua a ser feito com rigor, em estreita articulação entre a Metro Mondego e a Infraestruturas de Portugal [IP].

 

[CP]: Quando assumiu a presidência da Metro Mondego, em que fase se encontrava o processo?
[JM]:
Quando a primeira administração que integrei iniciou funções, apenas tinha sido lançado um concurso de execução de infraestruturas relativo à empreitada do troço Suburbano. A partir daí, foi um processo contínuo: a empreitada de infraestruturas entre o Alto de São João e a Portagem; depois, da Portagem até à estação de Coimbra-B e mais tarde, a empreitada entre a Avenida Aeminium e o Hospital Pediátrico. Também houve outras intervenções fundamentais, como a empreitada do Parque de Material e Oficinas (PMO), a dos edifícios da Baixa, o fornecimento dos autocarros, os postos de transformação, os sistemas técnicos, as guardas de segurança, os sistemas de bilhética, os abrigos, entre outros. É, de facto, um volume de obra notável e com elevada diversidade técnica.

 

[CP]: Qual tem sido o papel da Infraestruturas de Portugal no desenvolvimento do Sistema de Mobilidade do Mondego?

[JM]: Importa sublinhar que, ainda em 2018, antes de ter iniciado funções, o Governo atribuiu à Infraestruturas de Portugal (IP) a responsabilidade de elaborar os projectos, lançar os concursos e assumir o papel de dono de obra no que respeita às infraestruturas do Sistema de Mobilidade do Mondego. Desde então, tem sido a IP a responsável pelo lançamento e gestão dos concursos públicos associados às empreitadas de base. Há, naturalmente, algumas excepções: o Parque de Material e Oficinas (PMO), o fornecimento dos veículos, os postos de transformação ou a empreitada dos edifícios da Baixa, são exemplos de empreitadas geridas directamente pela Metro Mondego.

[CP]: As empreitadas de infraestruturas envolvem também outras entidades. Como tem sido feita essa integração de interesses?

[JM]: Várias empreitadas têm vindo a ser lançadas através de agrupamentos de entidades adjudicantes. Um exemplo é a empreitada entre o Alto de São João e a Portagem, que envolve a IP, a Águas do Centro Litoral e a Águas de Coimbra. A lógica é simples: numa mesma obra, realizam-se intervenções para as três entidades. No caso concreto, estão a ser executadas infraestruturas hidráulicas da Águas de Coimbra, emissários e adutoras da Águas do Centro Litoral, e até uma grande estação elevatória localizada junto à Ínsua dos Bentos, no início da Avenida da Lousã.

Aproveita-se, assim, a realização da obra para evitar intervenções sucessivas no mesmo local. Faz-se tudo de uma só vez, com ganhos de eficiência, investimento racionalizado e menos transtorno global para as populações.

 

[CP]: Uma das preocupações é a manutenção futura do sistema.

[JM]: Essa preocupação foi prevista logo desde o início. Uma das regras definidas é que não pode haver infraestruturas instaladas sob o canal dedicado do MetroBus. A razão é simples: sempre que fosse necessário intervir, por exemplo, para reparar uma rotura ou instalar um ramal de abastecimento, seria preciso suspender a circulação, algo que queremos evitar a todo o custo. Assim, a primeira fase de cada obra envolve precisamente o desvio das infraestruturas existentes: redes de água, saneamento, electricidade, comunicações… tudo é relocalizado fora do canal. Este processo não só evita futuras interrupções do serviço, como permite renovar as redes de infra-estruturas urbanas, muitas delas já envelhecidas. É uma medida estrutural com impacto a longo prazo.

 

[CP]: Que iniciativas estão previstas para que a população possa conhecer o novo sistema antes da entrada em operação comercial?

[JM]: Durante o mês de Agosto, vamos realizar três acções de demonstração, uma no território de cada município do Sistema de Mobilidade do Mondego.
Em Miranda do Corvo, em Coimbra e na Lousã, o MetroBus vai circular durante um fim-de-semana, ainda com algumas limitações, mas com o objectivo claro de permitir à população experimentar os veículos, as estações, os abrigos e a informação ao público.
Colocaremos autocarros a circular entre as 10h00 e as 19h00, de forma gratuita. Depois, se tudo decorrer como previsto, em Setembro vamos iniciar uma operação preliminar entre o Alto de São João e a Portagem, já com veículos a circular diariamente, de modo regular, mas transportando passageiros embora ainda em regime gratuito. Esta fase servirá para testarmos intensivamente a infraestrutura, os veículos e a sua interacção com o ambiente urbano. Não vamos ainda operar com as frequências finais previstas — de 5 em 5 minutos, nos períodos de ponta — mas será uma forma útil de simular a operação real e dar continuidade ao processo de ajustamento técnico e operacional.

 

[CP]: Qual é a previsão para o arranque em operação comercial e o que ainda falta garantir?

[JM]: O nosso objectivo é que, até ao final do ano, possamos colocar em funcionamento o troço entre Serpins e a Portagem, ou seja, entre a Lousã e o centro de Coimbra.
Para que isso aconteça, é essencial que o sistema de sinalização esteja certificado, garantindo os requisitos técnicos e de segurança exigíveis para o troço suburbano, que será operado em via única e, por isso, com exigências superiores.
Assim que essa certificação estiver concluída, poderemos solicitar ao Instituto da Mobilidade e dos Transportes (IMT) o licenciamento da operação, e acreditamos que, algumas semanas depois, será possível iniciar a operação comercial. Esperamos, sinceramente, que isso ocorra antes do final do ano, mas dependerá da validação técnica e administrativa do sistema.

 

[CP]: O Metro Mondego tem procurado responder às preocupações ambientais, nomeadamente no que respeita às árvores afectadas pelas obras. Que medidas estão a ser implementadas nesse sentido?

[JM]: Sim, é importante sublinhar que o nosso projecto tem, de facto, um impacto significativamente inferior ao do anterior projecto de metro ligeiro, no que toca à afectação de árvores. Ainda assim, há sempre impacto e é por isso que definimos, em articulação com a Câmara Municipal de Coimbra, um compromisso claro: por cada árvore abatida, plantamos três. Esta regra aplica-se tanto às empreitadas conduzidas pela IP, como às da Metro Mondego, e esse plano está já a ser executado. Por exemplo, no parque urbano criado entre o Centro de Saúde do Vale das Flores e o Mondego, plantámos cerca de 400 árvores e mais de 2400 arbustos. As árvores são naturalmente mais jovens, mas com maior capacidade de adaptação e longevidade. O objectivo é que, dentro de alguns anos, estas novas árvores assumam uma presença significativa na paisagem urbana e nos ecossistemas locais. Esta é uma aposta na sustentabilidade a médio e longo prazo.

 

[CP]: Qual é o calendário previsto para a entrada em funcionamento do sistema em pleno?

[JM]: A ligação suburbana entre Serpins e a Portagem deverá entrar em funcionamento até ao final deste ano, como referido. Já no primeiro semestre de 2026, prevemos a entrada em funcionamento da ligação entre a Portagem e Coimbra B. E, até ao final do mesmo ano, deverá estar concluída a ligação até ao Hospital.
O troço mais desafiante é precisamente o da Praça da República à zona do Hospital, passando pela Avenida Sá da Bandeira e pela Rua Lourenço Almeida Azevedo, por se tratar de uma área urbana muito densa. Mas o nosso objectivo é claro: todo o sistema a funcionar em pleno até ao final de 2026.

 

Lino Vinhal/Joana Alvim