TONY CARREIRA ACTUA A 3 DE AGOSTO EM CANTANHEDE
ANA CLARA*
É um dos cantores mais acarinhados em Portugal, nas comunidades portuguesas e em todo o mundo. Aos 61 anos, Tony Carreira, conta com uma carreira de sucesso de 37 anos, e os números falam por si: 30 álbuns originais, 60 discos de platina e mais de 4 milhões de discos vendidos. Em entrevista ao “Campeão das Províncias” e no contexto da Expofacic, onde dará um concerto a 3 de Agosto, percorre o caminho, nem sempre fácil, a que se dedicou durante toda a sua vida. De Armadouro, “a aldeia perdida na Beira, a terra que o viu nascer”, até aos grandes palcos que o consagraram como artista, continua ainda hoje a ter muitos “sonhos de menino” por conquistar. Em Setembro regressa a estúdio para gravar novo disco, e promete canções novas ao seu público, o mesmo por quem tem uma “eterna gratidão”. Sobre o País e o Mundo, partilha algumas preocupações, mas mantém viva a esperança de que, “se olharmos todos uns pelos outros”, vai correr tudo bem.
Campeão das Províncias [CP]: É um dos artistas convidados da Expofacic 2025. Que simbolismo tem este espectáculo para si em Cantanhede?
Tony Carreira [TC]: Cantanhede tem para mim um significado muito pessoal, emocional, artístico, e que se prende com a minha vida. Diria até que é um caso de estudo, já que canto em Cantanhede desde 1993, todos os anos.
[CP]: Todos?
[TC]: Todos. Desde o primeiro dia que lá fui cantar, ainda me lembro da Expofacic ser um evento com uma dimensão mais pequena.
[CP]: E que tem crescido ao longo dos anos.
[TC]: Sim. Sem dúvida, tem tido um crescimento enorme e cada vez mais expressivo.
[CP]: E, portanto, para si tem muita importância cantar neste certame.
[TC]: É muito importante, sim. E fico muito feliz sempre que o convite é renovado, ano após ano. Porque é uma ligação de afectos, julgo que é o local onde eu mais cantei na vida.
[CP]: Isso é muito interessante.
[TC]: Se não me falha a memória, já cantei 27 vezes no MEO Arena, mas acho que já cantei 32 na Expofacic. É uma ligação de afectos.
[CP]: Sendo uma ligação de afectos, não é o mesmo que cantar em Paris, em Lisboa ou no Porto, presumo, tendo em conta a ligação que tem com o distrito de Coimbra.
[TC]: Estes concertos, em particular, tocam-me mais por ter essa ligação de raiz à região. A minha ligação com Coimbra não é muito grande, confesso. A distância da minha aldeia até Coimbra é de 90 quilómetros. Mas esses 90 quilómetros, quando eu era miúdo, representam, provavelmente, 200 quilómetros hoje. A grande ligação com a minha terra foi, essencialmente, ali até aos 10 anos de idade. E nunca perdi esse contacto, vou lá frequentemente. Nos últimos anos um pouco menos. Mas nunca perdi a ligação à minha aldeia, nunca. Contudo, Coimbra continua a estar longe. E, nessa medida, nunca tive muita ligação com Coimbra, directamente.
[CP]: Fale-me um pouco das suas raízes e que memórias tem da sua aldeia, Armadouro (concelho da Pampilhosa da Serra) sempre que regressa?
[TC]: A minha ligação à minha aldeia é sempre uma ligação muito de cheiros, de sítios. Sítios, onde eu fui muito feliz na minha infância. Na própria adolescência, sempre passei lá todos os meses de Agosto, porque eu vivia fora de Portugal e vínhamos sempre em Agosto: era tradição. Os meus pais vinham passar o mês à aldeia, portanto, nunca perdi essa ligação. Mais tarde, como cantor, nunca perdi essa ligação. Foi dos primeiros sítios onde eu cantei e no dia em que eu decidir que vai ser o último concerto, certamente será lá. Portanto, há uma ligação de pessoas, de sítios, de cheiros, há uma ligação eterna. E essa ligação é para sempre, porque é muito forte e tem muita força na minha memória.
“Sou uma pessoa de muito trabalho e entrega”
[CP]: É um dos cantores portugueses mais queridos do público, não só em Portugal como nas comunidades portuguesas, e também por esse mundo fora. Como lida com tudo isto e de que forma é que também o ajudou a estruturar a sua carreira? Que balanço faz?
[TC]: O balanço é extraordinário. Acima de tudo, eu sou uma pessoa de trabalho. Eu gosto de trabalhar e de criar projectos, ainda hoje isso acontece como se eu tivesse quase 20 anos. Sou uma pessoa de muito trabalho e de entrega. Entrega total à minha profissão. Eu entreguei-me por completo a este sonho, que depois se tornou profissão. E nessa entrega, eu percebi que no meu percurso nada foi fácil. E ao não ser fácil, quase com certeza, isso chamou-me muito à terra. Nada nos é devido. É ter gratidão para com a vida, para com o público, para com os meus colegas de trabalho. E com muita humildade. Não estou a dizer que sou humilde, porque os outros é que me haverão de julgar. Mas a humildade de entender que nada nos é devido. E claro que, nisto tudo, também considero que há sempre uma pontinha de sorte.
[CP]: E a sorte também dá muito trabalho.
[TC]: Sim, mas nessa pontinha de sorte, Deus, o Universo, como lhe queiramos chamar, acho que me acompanhou, porque eu tinha quase tudo para nunca conseguir. Nasci numa época e numa aldeia que não é como hoje e é sempre bom situar o contexto. Numa aldeia completamente fora de tudo, e depois a minha vida de português fora do País, ainda mais distante fiquei.
[CP]: Tinha quase todos os factores contra si?
[TC]: À partida sim, não é? Mas a vida decidiu de outra maneira, e o balanço que eu faço no final de toda esta aventura, é, principalmente, muita gratidão para com a vida. E valeu a pena.
[CP]: Como lida com o sucesso?
[TC]: Lido com muito respeito e, sobretudo, tenho consciência de que nada é eterno, porque sei que nada é eterno. Nunca é fácil para mim falar do fim ou de um hipotético fim, mas sei que nada é eterno; e mesmo que o não seja – porque não é -, aquilo que a vida me deu já é muito mais do que eu esperava. E como é que eu lido? Como qualquer pessoa: há coisas na minha profissão que eu gosto muito e há outras que não gosto nada.
[CP]: O que é que não gosta?
[TC]: O que lhe vou dizer é um pouco um contrassenso. Toda a vida lutei e trabalhei para ser um cantor conhecido, um cantor com público. Mas isso, com o tempo, traz outras coisas. E hoje, mais do que nunca, há coisas que não me agradam, que é o lado mediático. Acho que não é só em relação à música. Estamos a viver um patamar assustador e que eu, sinceramente, não gosto. Mas nada se pode fazer e as coisas vão piorar. Do lado mediático, hoje escreve-se o que se quer, basicamente. E este lado é, de facto, algo que eu não aprecio. Já não falo sequer só em relação a mim, mas sim de uma forma global. Isto não nos leva para um futuro melhor, na minha opinião.
[CP]: E esta realidade é uma das grandes preocupações que tem?
[TC]: Sim, mas acho que já vai mais além das preocupações. É quase como atirar a ‘toalha ao chão’, porque este mundo está virado do avesso, com guerras todos os dias. Não aprendemos nada com o passado. Mas é o que é.
Um percurso que caminha ao lado da palavra “gratidão”
[CP] Ao todo são 37 anos de carreira, 30 álbuns originais, 60 discos de platina e mais de 4 milhões de discos vendidos. Qual o peso destes números para si?
[TC]: Com muita gratidão, simplesmente. Tive a sorte de gravar muitos discos, muitas canções, com vários produtores diferentes. Gravei em vários estúdios pelo mundo. Só o facto de ter trabalhado com músicos enormes como o Rudy Pérez ou o Patrick Oliveira, é uma honra. Gravei em inúmeros países, como Londres, Miami ou Paris. E o facto de a vida me ter dado a possibilidade de conhecer pessoas maravilhosas, como o Júlio Iglézias, e outros tantos, para mim este caminho foi um sonho. Foi realmente um privilégio que o público me deu. E sou muito feliz com tudo aquilo que eu alcancei. Com mais ou menos dificuldades.
[CP]: Portanto, estes números são só o reflexo desse trabalho e caminho de muito trabalho.
[TC]: Sim, eu olho para isto dessa maneira, como um troféu no bom sentido. Hoje, as coisas mudaram, mas olhando para trás e ao lembrar-me que tive épocas da minha vida em que vendíamos 50 mil discos por semana, pergunto-me como é que foi possível…
[CP]: Uma vida de luta que está bem plasmada, por exemplo, na minissérie biográfica ‘Tony’, emitida pela TVI e pela Prime Vídeo.
[TC]: Sim, se tivesse que resumir esta caminhada, eu resumia desta maneira: quando comecei a lutar por este sonho, de repente, passaram mais de 30 anos, que eu nem os vi passar, para ser sincero. 30 anos em lutas, em projectos, sempre com vontade de fazer. Eu tive anos na minha vida em que tinha uma média de 150 concertos por ano e ainda gravava um disco.
[CP]: Foi condecorado em França (Cavaleiro da Ordem das Artes e das Letras, em 2016) quase uma década antes de ter o reconhecimento no seu País (Comendador da Ordem do Infante D. Henrique, 2024). Que significado tiveram para si? No caso de Portugal, considera que foi tarde esta atribuição?
[TC]: Não, não foi tarde. Sinceramente, não foi tarde. Porque as coisas acontecem quando têm de acontecer. Eu nunca fui uma pessoa de ter pedras na mão. Nunca fui. Há tanta gente que nunca acreditou em mim, tanta gente que falava de mim de uma forma que não era muito bonita e que, entretanto, hoje são pessoas com quem eu me dou muito bem. Todos nós temos o direito de ter uma opinião. E ninguém é dono da razão. E o que veio, acabou por vir num momento certo. E o que não vier, entretanto, se chegar depois da minha morte, também está certo. Não há problema absolutamente nenhum.
[CP]: Mas são duas condecorações especiais para si.
[TC]: Acima de tudo, acho que são especiais para o meu público. É o reconhecimento de um caminho e de um trajecto que eu não fiz sozinho. Acima de tudo, fico muito grato por todas as pessoas e os profissionais que me acompanharam durante uma vida toda. Há pessoas que trabalham comigo há 30 anos. É o reconhecimento de uma equipa e, dentro dessa equipa, está o meu público também. Ninguém faz nada sozinho. E, sinceramente, acho que estes prémios, naquilo que me deixam mais feliz é por saber que envolvem muita gente. Não sou só eu.
“Os concertos no MEO Arena são sempre especiais”
[CP]: Foi um dos cantores portugueses a esgotar o Olympia de Paris consecutivamente e a lotar o MEO Arena sempre que ali tem um concerto. Em março deste ano teve dois na maior sala de espectáculos do País, precisamente. O que tiveram de especiais?
[TC]: Os concertos no MEO Arena são sempre especiais. Mas há uns que nos marcam mais do que outros, naturalmente. Eu preparo para aquela sala um concerto que é só para ali. Até porque é a única sala em Portugal que nos pode permitir sonhar tão alto. Aliás, é uma das maiores de Europa e do Mundo. Portanto, permite ao miúdo António Antunes, que com 15 anos sonhava com música, ir para ali com essa cabeça e essa forma de estar – que é fazer algo que, para mim, é um prémio. Enquadra-se dentro daqueles prémios que referenciou. Além disso, são concertos que eu costumo, por norma, quase sempre, filmar e que ficarão para sempre disponíveis para o público. Seja hoje ou daqui a 30 anos. Portanto, para mim cantar no MEO Arena é sempre um prémio. Sempre.
[CP]: Mas estes dois concertos no MEO Arena, em 2025, parecem ter sido diferentes.
[TC]: Sim, essencialmente, em termos de produção, que é uma parte que eu gosto muito, por tudo o que envolve, o palco, e foi, sem dúvida, a maior produção que eu fiz até hoje. E se voltar lá daqui a dois anos, não vai ser igual. Porque o objectivo é sempre elevar a fasquia.
[CP]: Estamos a entrar no Verão, uma época muito exigente para qualquer artista. Como está a sua agenda?
[TC]: Este ano é de muito trabalho e, praticamente, só terei concertos em Portugal. Anda à volta de 70 concertos. No próximo ano, será estrangeiro.
[CP]: Tem novo disco na calha? Pode falar sobre o que ainda tenciona fazer?
[TC]: Já comecei na composição de algumas canções. Mas confesso que com tantos concertos, prefiro não misturar os dois mundos. Vou entrar em estúdio a partir de Setembro. Já estou com saudades de ter canções novas. Há cinco anos que não entro em estúdio. Mas quero ir com calma.
[CP]: A nível geral, que olhar tem sobre o Portugal de 2025? O que o preocupa mais?
[TC]: O Portugal de 2025 não foge à regra e faz parte do Mundo; há tendências actuais que não estão bem e espero que as coisas, num futuro breve, tomem um rumo diferente. A insegurança já existe em Portugal, coisa que não tínhamos há uns tempos. Há extremos, o que, na minha visão, nunca são bons. Sejam eles de esquerda ou de direita. Mas eu entendo as pessoas que estão descontentes com a política, também. Mas acho que temos de tomar conta do nosso País, porque estes extremos nunca são bons para ninguém.
“A cultura sempre foi um parente pobre deste País”
[CP]: Teme pelo futuro das gerações mais novas? Ou tem esperança de que as coisas irão mudar?
[TC]: Em relação a Portugal, ainda tenho algumas esperanças. Agora, é claro que temos de olhar uns pelos outros. Evidentemente que há muitas coisas que não estão bem. A cultura também não está bem, mas nunca esteve em Portugal. A cultura sempre foi um parente pobre deste País. Nunca foi apoiada em nada, bem pelo contrário: muitas vezes é prejudicada. E não me parece, no que respeita à cultura, que haja uma mudança breve. O importante é que a classe política também olhe para a cultura de uma forma global. Mas, acima de tudo, acho que tem de se pensar no ser humano, em problemas como o aquecimento global, sobre estas guerras que não nos levam a lado algum. Acho importante sabermos que futuro é que queremos deixar a quem vier a seguir.
[CP]: Que “sonhos de menino” tem hoje o Tony Carreira, aos 61 anos, e com uma carreira ímpar no panorama musical português?
[TC]: Os sonhos de menino ainda se mantêm. Ainda tenho alguns. Tenho o sonho de envelhecer bem, com quem gosta de me ouvir cantar, porque acho que envelhecer juntos é extraordinário. E outros, como por exemplo, uma tournée acústica, que nunca fiz, e espero que aconteça no próximo ano. É um espectáculo perfeito para a proximidade com o público, que eu gosto muito. Gostava, também, de gravar duetos com artistas que eu admiro muito, e, portanto, ainda tenho alguns sonhos. É isso que nos alimenta a vida e nos dá força.
[CP]: Por fim, que mensagem gostaria de deixar ao público que o vai ver em Cantanhede, na Expofacic, a 3 de Agosto?
[TC]: Espero que, enquanto eu cantar, possa fazer parte sempre desse evento maravilhoso porque, entre mim e Cantanhede, há uma afinidade especial. Portanto, é um motivo de muito orgulho saber que todos os anos o público me quer lá e sou muito grato por isso e espero que assim seja durante ainda alguns anos.
*Jornalista do “Campeão” em Lisboa