Coimbra  15 de Março de 2026 | Director: Lino Vinhal

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Miguel Antunes desafia Coimbra a mudar: “Se não for agora, quando?”

27 de Julho 2025 Jornal Campeão: Miguel Antunes desafia Coimbra a mudar: “Se não for agora, quando?”

Miguel Antunes é empresário e preendedor nas áreas do software, inovação e tecnologia, tendo dedicado a sua carreira à criação de soluções que aproximam o futuro do presente. Fundador do Nest Collective e da RedLight Software, tem-se distinguido pela visão estratégica e pela capacidade de mobilizar talento em torno de projectos com impacto real na vida das pessoas. Naturalmente com prometido com o desenvolvimento de Coimbra, integra a equipa de Ana Abrunhosa, candidata à presidência da Câmara Municipal pela coligação Avançar Coimbra, trazendo consigo um olhar fresco, inovador e profundamente enraizado na vontade de transformar a cidade num verdadeiro ecossistema de inovação e oportunidades.

 

Campeão das Províncias [CP]: Como começou o seu percurso profissional?

Miguel Antunes [MA]: A minha história é, acima de tudo, uma história de trabalho e dedicação aqui em Coimbra. Sou engenheiro informático de formação, sempre fui muito curioso e bastante activo desde cedo, envolvido em várias actividades, incluindo a Associação de Estudantes. Iniciei o meu percurso profissional em Lisboa, na Siemens, mas rapidamente regressei a Coimbra. Trabalhei durante vários anos na Critical Software, uma empresa que considero uma verdadeira escola de excelência, não apenas uma referência em Coimbra, mas também a nível nacional e internacional.

Desde pequeno, sempre tive o sonho de trabalhar na área do espaço e dos satélites. Recordo-me de, ainda na Faculdade, partilhar com a minha família essa vontade de vir a contribuir para projectos espaciais. Quando surgiu essa oportunidade na Critical, abracei-a com paixão. Foi um período muito enriquecedor.

Com o tempo, comecei a sentir um forte impulso empreendedor, muito inspirado pela liderança do Gonçalo Quadros e do João Carreira, cuja visão e forma de estar me marcaram pro fundamente. Esse “bichinho” levou-me a reflectir sobre como poderia também eu fundar uma empresa, retribuir à sociedade e colocar em prática os princípios de liderança que tanto me inspiraram.

Assim nasceu a RedLight Software, um projecto que me enche de orgulho. Hoje, posso afirmar com satisfação que somos uma empresa fortemente exportadora, mais de 80% da nossa actividade é dedicada a mercados internacionais, com especial incidência nos Estados Unidos.

 

[CP]: As ciências informáticas, apesar de historicamente recentes, estão a ter uma enorme importância em Coimbra. Como é que isto se explica?

[MA]: Em Coimbra, tivemos o privilégio de ser influenciados por pessoas verdadeiramente extraordinárias. A Engenharia Informática nasceu ainda no seio da Engenharia Electrotécnica, mas depressa ganhou identidade própria graças à visão e ao empenho de quem esteve na origem do curso na Universidade de Coimbra. Foram figuras marcantes, com uma enorme capacidade de antecipar o futuro e de mobilizar vontades. A forma como conduziram esse processo de fundação foi inspiradora e deixou uma marca profunda, não só na estrutura do curso, mas sobretudo nas gerações que se seguiram. Muitos de nós seguimos motivados por esse exemplo e por esse espírito pioneiro.

 

[CP]: O que o motivou, pessoal e politicamente, a aceitar o convite para integrar a coligação Avançar Coimbra?

[MA]: A vida é feita de momentos e sinto profundamente que este é o momento certo para participar e de mostrar cidadania activa. Esta decisão resulta de uma conjugação de factores, de um amadurecimento pessoal e cívico. Acompanho há muitos anos a vida pública de Coimbra, com atenção e sentido crítico. Com o tempo, fui ganhando maior consciência da importância de nos envolvermos activamente, sobretudo num período em que a democracia, em particular a democracia local, precisa de rostos novos, de vozes independentes e de contributos genuínos. Sou e mantenho-me independente. Trago ideias próprias, visão própria e vontade própria. Não venho para executar o programa de ninguém, mas para contribuir com o meu pensamento e para conjugar forças com quem partilha a mesma ambição para Coimbra. Há um enorme alinhamento entre a minha visão e aquela que reconheço na Professora Ana Abrunhosa. Vejo nela uma líder natural, com uma impressionante capacidade de gestão, uma visão estratégica clara e, sobretudo, a coragem de tomar decisões difíceis. Isso é raro na política e é urgente.

Coimbra precisa de quem tenha sensibilidade para perceber o que se passa à sua volta, mas também firmeza para agir. Há momentos em que é preciso ter a força de bater com o punho na mesa e dizer: basta. É preciso não ter medo, mesmo em tempos desafiantes como os que vivemos. E é precisamente por isso que decidi estar aqui, agora, porque acredito que posso acrescentar, com verdade, com determinação e com um profundo sentido de compromisso com a cidade.

 

[CP]: Sente que Coimbra estagnou na vida política?

[MA]: É sempre difícil fazer um diagnóstico completo e justo, mas creio que Coimbra sofre de um problema profundo: temos uma certa tendência para olhar constantemente para trás, para nos quedarmos numa espécie de lamento permanente, a cuidar das feridas do passado. Isso não nos faz bem. Oiço frequentemente a expressão “o potencial de Coimbra” e, sinceramente, estou cansado dessa ideia. Coimbra não pode viver eternamente à espera de realizar o seu potencial. Esse momento tem de acontecer agora. Temos de avançar.

É preciso coragem para deixar de olhar para o retrovisor e passar a olhar em frente, com determinação. O ponto de partida é este em que nos encontramos. É com os meios e com as competências que temos hoje que devemos traçar os nossos objectivos e seguir em frente. E temos muito com que trabalhar. O problema é, muitas vezes, de auto-estima: em Coimbra, existe uma percepção de que somos inferiores aos outros, quando, na verdade, somos excepcionais em muitas áreas e, nas que ainda não somos, temos todas as condições para lá chegar. Não precisamos de reinventar a roda, mas sim de traçar estratégias claras, estabelecer prioridades e, acima de tudo, ter ousadia para executar. Temos de inspirar-nos no que já fazemos bem e projectar esse exemplo para outras áreas. Aquilo que mais desejo deixar com este envolvimento é precisamente isso: um legado de exemplo. Mostrar que é possível arregaçar as mangas e avançar com coragem e ambição para que outros venham depois e sigam esse caminho com a mesma vontade de transformar Coimbra.

 

[CP]: Que papel teve Gonçalo Quadros na sua decisão de se envolver mais activamente na vida política de Coimbra?

[MA]: Sempre fui uma pessoa muito curiosa em relação à política, em especial à política autárquica, por ser aquela que mais directamente toca o quotidiano das pessoas. Nunca a vi como um mundo distante, muito pelo contrário. E ao longo dos anos, fui tendo várias conversas com o Gonçalo Quadros sobre Coimbra, sobre o seu futuro, sobre o que poderia e deveria ser feito. Foram conversas regulares, sempre presentes, e que contribuíram para uma consciência cívica mais clara da minha parte.

O Gonçalo é um verdadeiro cidadão de Coimbra, no mais pleno sentido da palavra. Não só pelo crescimento económico que ajudou a gerar com o seu trabalho e visão empresarial, mas também pela forma como se envolve, inspira e mobiliza pessoas. Ele tem esse dom, é um catalisador. Fá-lo com naturalidade, com atenção ao detalhe, com um olhar atento e exigente sobre tudo o que se passa na cidade. É uma pessoa que está sempre desperta, seja para identificar um bom exemplo numa escola, numa empresa, ou numa prática inspiradora que valha a pena replicar.

Há muitas formas de exercer cidadania. Ele sempre acreditou nisso, e eu também. A política é uma delas, mas há tantas outras formas de contribuir e o Gonçalo é, para mim, um exemplo vivo dessa cidadania activa. A sua atenção ao pormenor, que tanto valorizamos no mundo da tecnologia, é também uma atitude perante a vida e a sociedade. Como ele costuma dizer, “o diabo está nos detalhes” e é nesses detalhes que tantas vezes se escondem as soluções mais eficazes. Identifico-me mui to com essa forma de estar e sinto-me parte dessa mesma linhagem de compromisso com Coimbra.

 

[CP]: Quatro anos é pouco tempo para transformar uma cidade. A co ligação Avançar Coimbra pretende trazer novos projectos para Coimbra?

[MA]: Tem de trazer novos projectos, sem dúvida. Só faria sentido envolver-me se reconhecesse uma verdadeira ambição de mudança e uma proposta séria para Coimbra e a Professora Ana Abrunhosa sabe disso. A lista que está a ser preparada é forte e representa um grupo em que me orgulho de estar inserido, pensado com rigor e responsabilidade.

É certo que quatro anos parecem pouco, mas são tempo suficiente para lançar mudanças estruturais, se houver coragem, visão e capacidade de execução. No mundo empresarial, quatro anos são mais do que sufi cientes para mostrar resultados, muitas vezes, basta um ano para isso. Por isso, não podemos usar o tempo como desculpa para não agir.

Há áreas difíceis, como a urbanística, marcada por burocracia e lentidão, mas não podemos aceitar essa realidade como imutável. Temos de olhar para os bons exemplos, estudar o que está a ser bem feito, e adaptar essas práticas a Coimbra.

E, acima de tudo, é fundamental envolver quem já está dentro da Câmara. Os trabalhadores têm conheci mento valioso que não pode ser desperdiçado. Ignorar essa experiência, como se fez no passado, é um erro grave. A mudança exige humildade e a capacidade de integrar todos no mesmo caminho.

Lino Vinhal / Joana Alvim

Entrevista publicada na edição em papel do Campeão das Províncias de 24 de Julho de 2025