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José Manuel Pureza: regresso do BE com nome de peso à corrida pela Câmara de Coimbra

20 de Julho 2025 Jornal Campeão: José Manuel Pureza: regresso do BE com nome de peso à corrida pela Câmara de Coimbra

José Manuel Pureza é Professor Catedrático de Relações Internacionais na Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra. Figura incontornável do pensamento crítico em Portugal, José Manuel Pureza foi também deputado à Assembleia da República pelo Bloco de Esquerda, partido pelo qual agora encabeça a candidatura à Câmara Municipal de Coimbra nas próximas eleições autárquicas. Trata-se de um regresso simbólico e político do Bloco de Esquerda às listas próprias no concelho, após um longo interregno iniciado em 2013, durante o qual apoiou candidaturas cidadãs.

Campeão das Províncias [CP]: O Bloco de Esquerda organizou recentemente um fórum sobre Coimbra. Que balanço faz desse encontro?

José Manuel Pureza [JMP]: O programa contou com três painéis e foi, na verdade, um momento muito significativo de escuta, reflexão e construção colectiva.

O primeiro centrou-se no tema “Uma cidade habitável”, onde discutimos questões cruciais como a mobilidade, o ambiente e a habitação, áreas estruturantes para uma Coimbra mais justa e sustentável. Seguiu-se o painel “Uma Coimbra para toda a gente”, onde abordámos sobretudo temas ligados à inclusão social e à universalidade dos direitos de quem aqui vive.

Em ambos os momentos, procurámos fazer um diagnóstico o mais rigoroso possível sobre os constrangimentos actuais, bem como sobre os erros políticos que se acumularam ao longo de sucessivas governações do PS e do PSD na Câmara Municipal. A partir desse diagnóstico, trabalhámos um conjunto de propostas concretas, com contributos muito valiosos de pessoas que, na sua maioria, nem sequer pertencem ao Bloco de Esquerda.

Já da parte da tarde, tivemos um terceiro painel com um propósito mais visionário: imaginar Coimbra daqui a 10 anos. Desafiámos quatro pessoas de áreas distintas: o arquitecto Alves Costa, a socióloga Sílvia Portugal, a artista e produtora cultural Inês Moura e o médico João Rodrigues, a partilhar connosco a sua utopia para a cidade. Mas pedimos-lhes uma utopia realizável, não uma quimera.

[CP]: Em que aspectos considera que Coimbra tem falhado e que soluções propõe o Bloco de Esquerda?

[JMP]: Gostaria de sublinhar algo que ficou muito claro durante o fórum: há uma cidade e um concelho que não temos, mas que precisamos urgentemente de construir. E essa necessidade foi reconhecida tanto por membros do Bloco como por pessoas que não fazem parte do partido. Há uma visão partilhada de que Coimbra tem de se tornar uma cidade verdadeiramente amigável, para os mais velhos e para os mais novos, no que diz respeito à mobilidade, ao ambiente, à habitação. Uma cidade justa. E essa cidade, simplesmente, ainda não existe.

Coimbra é hoje composta por muitas cidades invisíveis. Um exemplo gritante disso é a decisão da actual Câmara Municipal, sob a liderança de José Manuel Silva, de realojar mais de duas centenas de pessoas em habitações sociais concentradas na Quinta das Bicas, em Taveiro. Trata-se de uma política de habitação cuja marca é a segregação. Parece que, para esta Câmara, essas pessoas não cabem na cidade dos turistas. São remetidas para as margens, como se fossem descartáveis.

Quando confrontado com esta opção, o argumento utilizado foi, pasme-se, o de não perder os fundos do PRR. Ouvi a responsável municipal por esta área afirmar isso num encontro promovido pelo Campeão das Províncias e pela Rádio Regional do Centro. Com toda a franqueza, acho essa justificação inadmissível. Não podemos cometer um erro social e habitacional desta magnitude só para garantir a utilização de verbas europeias. Isso é a inversão total das prioridades políticas e humanas.

E depois há um outro aspecto que não pode ser ignorado: sabemos há décadas que concentrar pessoas vulneráveis em bairros sociais periféricos é tudo aquilo que não se deve fazer. Essa prática cria guetos, estigmatiza, isola. Quando o Lino Vinhal questiona se não será por falta de recursos no centro da cidade, a resposta é clara: há recursos, sim.

Temos 11.000 casas devolutas em Coimbra, segundo dados do Censos de 2021. E ainda há dias, de acordo com dados do IHRU, tivemos a confirmação que Coimbra é o terceiro concelho do país com mais casas fora do mercado. Ao mesmo tempo, vivemos numa das cidades mais caras do país para se habitar.

A política certa é integrar estas pessoas no tecido urbano, em habitação de renda controlada, em vez de as empurrar para fora da cidade. Isso é uma exigência de justiça e racionalidade.

[CP]: Que compromissos concretos está o Bloco de Esquerda disposto a assumir com os eleitores de Coimbra, caso seja eleito?

[JMP]: Queremos dizer às pessoas de Coimbra que o Bloco de Esquerda estará empenhado, até ao limite das suas forças e dentro das possibilidades que os resultados eleitorais nos concedam, na concretização de transformações que consideramos essenciais para a cidade.

Nos órgãos onde formos eleitos, seremos porta-vozes dessa urgência, dessa aspiração colectiva por uma cidade mais justa, mais preparada e mais humana. Não nos limitaremos à denúncia dos erros das governações anteriores; apresentaremos propostas claras e exequíveis, sustentadas na necessidade de agir.

É urgente termos uma cidade pronta para enfrentar as alterações climáticas. As ondas de calor que recentemente atravessaram Coimbra e, do outro lado do calendário, as ondas de frio que todos os Invernos aumentam silenciosamente a mortalidade, não são fenómenos abstractos: têm consequências concretas na vida das pessoas que aqui vivem.

Para responder com a celeridade que se impõe, é necessária uma vontade política firme. É isso que o Bloco de Esquerda traz. Não prometemos que tudo mudará no dia seguinte às eleições, mas garantimos que, no dia seguinte, o Bloco cá estará, determinado em lutar por essas mudanças. Coimbra precisa e merece essa coragem.

[CP]: Com que espírito e motivação encara a sua candidatura à Câmara Municipal de Coimbra?

[JMP]: Quando me apresento a eleições, faço-o com toda a determinação, com o compromisso de conquistar voto a voto. É isso que tenho estado a fazer: procurar as pessoas, conversar com elas, apresentar argumentos que as levem a olhar para esta candidatura do Bloco de Esquerda como algo sério, sólido e comprometido.

Não estamos aqui para cumprir calendário. Importa recordar que, há já vários ciclos autárquicos, o Bloco não se apresentava autonomamente em Coimbra. Desta vez, entendemos que era o momento certo para o fazer porque era necessária uma esquerda que não confundisse verdadeira alternativa com simples alternância. Isso torna esta candidatura ainda mais exigente. Partimos praticamente do zero, sem um histórico de representação municipal recente, e por isso mesmo estamos muito empenhados na construção de um programa pensado com cuidado, transformador, sabendo que, no dia seguinte, todas as pessoas eleitas pelo Bloco cá estarão para o defender e prestar contas.

Naturalmente, a responsabilidade é partilhada por todos os candidatos e candidatas do Bloco, mas no meu caso, como cabeça de lista à Câmara Municipal, a exigência é maior. Não por ambição pessoal, mas porque queremos, com seriedade e clareza, apresentar à cidade um conjunto de ideias e propostas que tornem Coimbra num lugar onde todos caibam. Isso implica uma visão integrada na mobilidade, na habitação, no ambiente, na cultura, na luta contra todas as formas de discriminação no aprofundamento de processos democráticos e em tudo o que dá substância à vida numa cidade verdadeiramente digna para todas as pessoas.

[CP]: O Bloco de Esquerda está disponível para integrar o executivo municipal? E admite entendimentos com outras forças políticas?

[JMP]: Se os votos confiados ao Bloco de Esquerda permitirem eleger alguém para a Câmara Municipal, essa pessoa cá estará para cumprir, com seriedade, o compromisso assumido com os eleitores. Mas quero também ser igualmente claro quanto aos limites desses entendimentos. O Bloco de Esquerda não fará parte de uma maioria com a coligação de direita. Isso seria politicamente incoerente e profundamente desonesto, porque o programa da direita (PSD-CDS) representa precisamente aquilo contra o qual o Bloco se posiciona.

Quanto ao Partido Socialista, a situação é diferente, mas exige igualmente prudência. O Bloco não está disponível para servir de adorno ao PS de Coimbra. Não estamos aqui para disfarçar erros políticos cometidos ao longo do tempo. Dou dois exemplos: o PS votou a favor da urbanização da Quinta das Bicas, associando-se a uma política de segregação habitacional que rejeitamos frontalmente. Mais recentemente, ouvimos a sua candidata afirmar que a Câmara não deve fazer concorrência aos privados na área da cultura, um argumento que, sinceramente, considero muito perigoso.

Essa lógica, aplicada à cultura ou a qualquer outro sector, é a mesma que a direita tem usado no plano nacional para fragilizar o Serviço Nacional de Saúde ou a Escola Pública. Uma lógica política que escolhe o mercado e a sua racionalidade como contraponto à provisão pública de bens essenciais não constrói aquilo de que precisamos: criar comunidade e garantir que as populações não são privadas de acesso à cultura, como à saúde ou à educação. Eu, como António Arnaut, acredito que o poder público tem o dever de garantir bens essenciais com acesso universal. É esse o papel do município. Por isso mesmo, não confundimos o PS com a direita, evidentemente que não, mas conhecemos bem os limites e os erros da ação municipal do PS. Por isso é que defendemos a necessidade de mudar mesmo.

Entrevista: Lino Vinhal / Joana Alvim

Publicada na edição em papel do Campeão das Províncias de 17 de Julho de 2025