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Semanário no Papel - Diário Online

 

José Miguel Ramos Ferreira

A necessidade de reforçar o controlo do uso de telemóveis nas escolas

11 de Julho 2025

O uso de telemóveis nas escolas tem sido um tema controverso, mas também um reflexo da crescente relação entre as novas gerações e a tecnologia. O anúncio do governo de Luís Montenegro sobre a proibição do uso de smartphones até ao 6.º ano nas escolas é, sem dúvida, uma medida positiva e necessária.

No entanto, é fundamental que, em breve, o governo tenha coragem para ir mais longe e implementar uma reforma mais profunda no tratamento da tecnologia nas escolas. As evidências sobre os impactos negativos do uso excessivo de smartphones nas gerações mais jovens são claras.

O livro Geração Ansiosa, que analisa como a tecnologia afecta as novas gerações, ilustra bem o desafio que enfrentamos. Os jovens estão cada vez mais dependentes dos dispositivos móveis, o que tem levado ao aumento de casos de ansiedade, distração constante e problemas de socialização.

Em muitos casos, as redes sociais tornam-se uma fonte de pressão e insegurança, afastando-os do contacto real e afetando diretamente a sua saúde mental. A medida do governo é um passo importante para garantir que as crianças e os jovens não sejam sobrecarregados com as pressões da tecnologia dentro do ambiente escolar.

A proibição dos telemóveis nos primeiros anos de escolaridade visa criar um espaço de aprendizagem mais focado, sem a constante distração das redes sociais. Além disso, ajuda a proteger a saúde mental dos estudantes, permitindo que se concentrem no que é realmente importante.

No entanto, esta decisão deve ser apenas o primeiro passo. Precisamos de mais ambição. O governo deve garantir que a reforma se estenda também ao 3.º ciclo e ao ensino secundário, com regras mais claras sobre o uso responsável da tecnologia.

A exemplo do que acontece no St. Paul’s School em Coimbra, onde os telemóveis são proibidos durante o horário escolar, Portugal pode dar um passo decisivo na criação de um ambiente educativo mais saudável. A escola tem sido um modelo a seguir, mostrando que é possível preservar a qualidade da aprendizagem sem o uso constante de dispositivos móveis.

Outros países também devem servir de exemplo. Na França, por exemplo, está em curso um projeto para testar a proibição de telemóveis nas escolas para alunos com menos de 15 anos, com o objetivo de promover uma “pausa digital”. Na Nova Zelândia, os telemóveis foram mesmo proibidos nas escolas. E em Espanha, várias regiões estão a implementar este tipo de proibições. Muitos outros exemplos existem.

Estas medidas devem ser apoiadas pela comunidade escolar. As famílias devem exigir que os espaços escolares sejam locais de convívio e aprendizagem, com o máximo de utilização possível do ar livre e dos espaços verdes. As crianças e jovens devem poder crescer, interagir e aprender de forma equilibrada. O uso descontrolado de smartphones compromete essas oportunidades.

Não podemos permitir que a tecnologia se torne um obstáculo ao desenvolvimento das capacidades cognitivas, sociais e emocionais dos nossos jovens.

É, portanto, fundamental que o governo tenha a coragem de dar mais um passo e criar um sistema mais rigoroso de regulamentação sobre o uso de telemóveis nas escolas. Devemos ter um olhar mais atento à saúde mental dos nossos jovens, promovendo um ambiente de aprendizagem saudável e focado.

(*) Advogado e gestor