Clara Cruz Santos e Bruno Pedrosa são os rostos do partido LIVRE, que faz parte da coligação Avançar Coimbra, juntamente com o PS, PAN e movimento Cidadãos por Coimbra (CpC), nas Legislativas de 2025. Ela, conimbricense e professora universitária, tem dedicado a sua carreira à investigação e à acção cívica, com especial foco na justiça social e nos direitos dos migrantes. Ele, engenheiro civil natural da Bajouca (Leiria), reside em Coimbra, onde se apaixonou pela cidade durante os seus estudos e se envolveu activamente na política local. Unidos por uma visão progressista, ecologista e europeísta, ambos se apresentam como candidatos comprometidos com o reforço do Estado Social, a justiça climática e a construção de uma democracia mais próxima dos cidadãos.
Campeão das Províncias [CP]: O que distingue a visão do LIVRE para o desenvolvimento da cidade e do concelho de Coimbra?
Clara Cruz Santos [CCS]: A visão do LIVRE para Coimbra baseia-se num progresso centrado nas pessoas, não apenas na lógica económica. Acreditamos que a economia só faz sentido se melhorar a vida das pessoas e promover uma sociedade mais justa, sustentável e equitativa. Sem abdicar da iniciativa privada, reafirmamos a importância de um Estado Social forte e comprometido com o bem comum. Defendemos um concelho coeso e diverso, onde todas as vozes contam e a comunidade cresce a partir das suas diferenças. Queremos uma cidade amiga das pessoas, atenta à urgência climática e promotora do desenvolvimento pessoal.
[CP]: Como pretende o LIVRE abordar a prevenção e a acção climática no concelho?
[CCS]: Há um conjunto de actores fundamentais que têm de ser trazidos para a mesa do diálogo quando falamos de acção climática e prevenção. Este é um esforço que exige planeamento estratégico partilhado — não pode ser feito de forma isolada. Precisamos de pensar, em conjunto, o que é possível fazer em termos de prevenção e, sobretudo, o que ainda não foi feito. No âmbito do plano de acção climática — que o LIVRE considera prioritário para Coimbra — temos a vontade clara de trabalhar em articulação com diferentes instituições e níveis de decisão. Essa abordagem permite a criação de acções concretas, com impacto real na vida das pessoas e no território.
Embora ainda estejamos na fase de escuta e de recolha de contributos para o nosso programa — e por isso não revelamos ainda as medidas específicas — já temos definida a estratégia e o caderno de preocupações. Mas nesta área da ecologia estamos a estudar uma proposta chave para o programa eleitoral a enquadrar no Plano Municipal de Ação Climática com o objetivo de envolver a comunidade escolar na valorização ecológica de várias zonas do município. Este sábado dia 5 de Julho faremos o Fórum Ouvir Coimbra aberto à participação de cidadãos independentes mediante inscrição onde iremos trabalhar propostas estruturantes do programa da coligação.
[CP]: Que abordagem defende o LIVRE para a construção de pontes políticas e soluções concretas para Coimbra?
Bruno Pedrosa [BP]: Desde a sua fundação, o LIVRE defende o diálogo construtivo à esquerda, focado em soluções concretas para os problemas reais das pessoas. Acreditamos que é possível construir uma alternativa agregadora, inovadora e com capacidade de execução.
A mobilidade e os transportes são uma área onde iremos apresentar propostas para deixarmos de estar tão dependentes do automóvel em Coimbra. Criticamos o facto de o actual Plano Ciclável ser vazio de prioridades, metas e financiamento. Para o LIVRE, não basta apresentar ideias — é preciso garantir que são viáveis, mensuráveis e orçamentadas.
Escutamos activamente a cidade e os seus bairros, o que torna as nossas propostas mais próximas das necessidades reais. Queremos uma Coimbra de progresso e ecologia, com mais espaços verdes e ruas pensadas para as pessoas, em especial para as crianças e para os idosos — com mais árvores para que nestes dias de calor intenso seja mais caminhar nas ruas de Coimbra – um programa de veredas municipais iria ao encontro desta necessidade.
[CP]: Como vê o crescimento do LIVRE em Coimbra e no resto do país?
[BP]: O LIVRE tem crescido em Coimbra de forma consistente — em votos, mas sobretudo em confiança. Este progresso reflecte uma postura coerente, transparente e com propostas viáveis, as nossas “utopias concretas”.
A escuta activa é o centro da nossa acção. “Ouvir Coimbra” não é apenas uma fase do programa eleitoral — é a nossa forma de estar. Falamos com as pessoas, não apenas sobre elas.
Volto ao tema da mobilidade para falar de algo que nos preocupa. A reformulação da rede dos SMTUC está a ser feita à porta fechada, sem auscultação pública — algo inaceitável, sobretudo com a chegada do Metro Mondego. Sem ouvir quem usa os transportes, não há integração possível.
Em freguesias como São João do Campo ou São Silvestre, a queixa principal é a ausência de transporte público. E até zonas centrais, como o Pólo II da Universidade, continuam isoladas. Estes problemas afectam directamente a qualidade de vida e o acesso a oportunidades.
Queremos levar estas questões à Assembleia Municipal — não só para denunciar, mas para apresentar soluções concretas, sustentáveis e inclusivas.
[CP]: A pobreza e os baixos rendimentos são temas centrais no discurso do LIVRE. Como propõem inverter este ciclo?
[CCS]: Metade da nossa população vive em pobreza — e ser pobre não significa estar na rua, significa ter de escolher entre pagar a renda ou comprar alimentos, porque o salário simplesmente não chega até ao fim do mês. As rendas voltam a subir, os bens essenciais também, e as pessoas sentem-se encurraladas num ciclo vicioso que tem de parar.
As autarquias têm poder de decisão e capacidade de inovar. Mas falta coragem. Muitos políticos preferem acomodar-se para não desagradar, e acabam por se calar. O LIVRE recusa essa postura.
Sabemos que este ciclo de empobrecimento arrasta consigo não só consequências económicas, mas também sociais e políticas devastadoras. Cresce o desânimo, o descrédito na política, e a facilidade com que se encontra “culpados” — grupos sociais inteiros transformados em alvos, como se isso resolvesse alguma coisa. Pelo contrário, só gera mais divisão e injustiça.
Acreditamos que é possível reconstruir a confiança das pessoas na política, desde que se fale com verdade e se actue com coragem.
A população idosa vai merecer a nossa atenção na construção do programa eleitoral da coligação pois é uma faixa etária onde a pobreza e os baixos rendimentos subsistem. Vamos apresentar uma proposta estruturante para Coimbra tendo como foco a qualidade de vida da população sénior.
[CP]: A habitação acessível é outro tema central em Coimbra. Que propostas defende o LIVRE neste campo?
[BP]: A falta de habitação acessível é um problema grave em Coimbra que se liga com o número bastante elevado de casas vazias — e, embora se sinta por toda a cidade, a Baixa é um exemplo flagrante. Vivo lá e vejo com os meus próprios olhos a quantidade absurda de edifícios devolutos. São casas vazias no coração da cidade, enquanto muitas famílias são empurradas para as periferias, onde depois se confrontam com transportes públicos que não funcionam, filas de trânsito intermináveis e falta de estacionamento.
Coimbra corre o risco de se tornar um “donut”: um centro esvaziado, rodeado por zonas residenciais desconectadas. Isto é insustentável e injusto. Precisamos de agir com urgência e de forma estruturada.
Nós estamos nesta coligação porque acreditamos no compromisso de avançar com habitação pública no concelho — mas não qualquer habitação pública: tem de ser feita à medida das pessoas, com visão e justiça social mas acima de tudo que promova a coesão territorial. E não podemos continuar a tratar a habitação como se fosse uma excepção ou uma urgência passageira. É um direito básico e uma peça central na coesão urbana.
A habitação cooperativa também tem de voltar a ter um papel de relevo. Há 50 anos, as cooperativas foram fundamentais para resolver o problema da habitação — por que não hoje? É uma solução viável, sustentável e socialmente justa. Precisamos de dar nova força a esse sector e colocá-lo a funcionar novamente com uma abordagem adaptada à realidade atual.
Nós no LIVRE temos princípios claros e lutamos por eles até ao fim. Não estamos aqui por conveniência — estamos aqui porque acreditamos que é possível mudar o rumo das coisas. E vamos continuar a acordar todos os dias com essa missão.
Lino Vinhal/Joana Alvim