O Estado Novo de Salazar, ao criar a cidade universitária na Alta, desalojou centenas de famílias (cerca de 2.000 a 3.000 pessoas), a maioria de classe média e baixa, maioritariamente para o Bairro da Fonte do Castanheiro e para o Bairro de Celas, derrubando casas, colégios e igrejas e demolindo quarteirões inteiros a partir de abril de 1943 (Rua das Parreiras, Igreja de S. Pedro, Colégio dos Loios e muito mais).
Salatinas é o nome dos expropriados pela ditadura, a quem foram retirados os negócios, o sentido comunitário, o convívio da vizinhança, transportados em camionetas, para locais então desconhecidos e isolados, pagando uma renda decidida autocraticamente durante 25 anos.
Hoje, o Bairro da Fonte do Castanheiro tem cerca de 150 moradores, salatinas e descendentes, correspondendo a 65 famílias, 11 habitações inauguradas (sem portões de segurança e rede eléctrica insuficiente), e a Associação de Moradores, presidida por Fernando Coelho, reuniu com Ana Abrunhosa, a quem expôs os seus problemas e necessidades. Ficou demonstrada a falta de diálogo e a arrogância do executivo conservador que vigora e a ausência de técnicos de serviço social a cuidar do bairro.
Os projectos não têm o acordo com os moradores, as casas são húmidas no Inverno e muito quentes no Verão, com falta de planificação, pois não têm isolamento, há sala comum no rés-do-chão, apenas 1 WC no 1.º andar, e os arquitectos da Câmara quereriam que tivesse chaminé como antigamente…
Há uma promessa de cedência de uma sede para a associação pela autarquia, mas que ainda não passou de projecto, sendo a sede actual uma casa antiga, com divisões minúsculas.
Com toda a razão, dizem “os eleitos têm que ouvir as pessoas”, cuidar da cidade para os moradores, torná-la boa para visitar.
Ana Abrunhosa comprometeu-se a mostrar abertura em relação aos problemas do bairro, abordando a importância das ilhas ecológicas com lixo selectivo, que possuem um período de vida útil mais longo do que o dos contentores tradicionais, e exigem menor manutenção, e têm financiamento no PT 2030.
A recolha de lixo era feita apenas uma vez por mês até reclamação dos moradores, empurrando o executivo autárquico a responsabilidade para a ERSUC.
Mais uma vez, funcionou a estratégia do passa-culpas entre o executivo e a Junta de Freguesia, entre a delegação e a avocação, não constando o bairro do protocolo de limpeza com a Junta, havendo freguesias ditas rurais com melhor limpeza.
Os Bairros Saudáveis
Ana Abrunhosa, enquanto governante, criou o programa “Bairros Saudáveis”, inspirado pelo conceito das “cidades saudáveis” das Nações Unidas, teve a sua primeira edição há 3 anos, com financiamento europeu de 10 milhões de euros, destinado a áreas como a saúde, a economia, o apoio social, o ambiente e pequenas obras em habitações, equipamentos e espaços públicos, em projectos pensados e executados pelas comunidades (apoio entre 5 e 50.000 euros por projecto).
Afinal, a 2.ª edição do programa que já tinha sido aprovada em 11.12.23, pelo Governo socialista, com uma dotação de 15 milhões de euros foi cancelado pelo Governo AD de direita, que decidiu não dar continuidade ao Programa Bairros Saudáveis, em 13.08.24, entendendo não se justificar a dinamização de “parcerias e intervenções locais de promoção da saúde e da qualidade de vida das comunidades territoriais, através do apoio a projectos apresentados por associações, colectividades, organizações não governamentais, movimentos cívicos e organizações de moradores, em colaboração com as autarquias e as autoridades de saúde”.
Tal impediu que houvesse parceria com as autarquias, mobilizando as organizações da sociedade civil e o exercício da cidadania pela comunidade, nomeadamente associações, organizações de moradores, IPSS, cooperativas, fundações e outras entidades de economia social. Enfim, políticas da direita em que o povo votou…
No Bairro da Fonte do Castanheiro, o policiamento é escasso, e a utilização do ginásio / pavilhão do grupo Desportivo da Arregaça que é propriedade autárquica é desincentivada, pelo que as assembleias ocorrem no Clube de Ténis.
Enfim, a saga dos salatinas e seus descendentes continua, sem apoio autárquico devido aos seus antecedentes de marginalização pelo regime da ditadura…
(*) Médico e vereador do PS na Câmara de Coimbra