Com frequência, nas Câmaras Municipais impera, como preocupação dominante, a componente “civil”, isto é, as estradas, às vezes os passeios, e não se dá a devida atenção ao ambiente no seu conjunto. É “mais fácil” derrubar uma árvore do que contorná-la. É mais fácil (mais barato?) abater uma árvore do que lhe dar a devida manutenção. Rapidamente há quem afirme que esta ou aquela árvore está doente, ou em risco de queda, sem tratar de apurar qual o risco efectivo, se pode ou não ser tratada.
As árvores nas cidades melhoram significativamente a qualidade de vida dos moradores.
No Verão as copas das árvores interceptam a radiação solar e é muito significativa a diferença de temperatura entre uma rua com árvores ou sem elas. Se forem de folha caduca, fazem sombra no Verão e deixam passar os raios solares no Inverno.
Algumas folhosas caducas ajudam-nos a sentir a sucessão das estações do ano. O cheiro das tílias, quando começam a florir, traz-nos a Primavera. Mas também as de folha perene ajudam a melhorar as cores e a paisagem nas cidades.
Quando chove, as árvores interceptam as águas das chuvas e facilitam a penetração da água no solo com o seu sistema radicular, aumentando a permeabilidade dos solos e controlando a erosão.
Filtram os poluentes da atmosfera, despoluem! Retém o carbono do dióxido do carbono, no processo de fotossíntese, libertando-se assim o oxigénio.
Reduzem o ruído e a velocidade dos ventos.
A circulação dos ventos nas cidades é fundamentalmente horizontal, sem árvores é maior a concentração de poluentes e o efeito dos ventos.
Aumentam a biodiversidade urbana. São abrigo para as aves.
Podem melhorar a nossa saúde física e mental.
Um banco, um jardim, à sombra de árvores é também um local de convívio, um local de memória.
Poderíamos continuar a enumerar múltiplas vantagens para a existência das árvores nas ruas, nos bairros, nas cidades.
Mesmo alguns “inconvenientes” que lhes são atribuídas, como por exemplo as suas raízes levantarem os passeios ou as estradas podem ser resolvidas, quer pela escolha criteriosa das espécies, quer fazendo acções de correcção, aumentando as caldeiras para lhes facilitar o acesso a água e nutrientes, quer alteando os passeios e assim corrigir os desníveis ou ondulações que podem limitar a mobilidade de alguns. Na cidade de Setúbal foi implementado um processo de colocar tijolos de pé enterrados junto das árvores, ao nível do restante passeio, que permitem a penetração das águas e a caminhada das pessoas sem obstáculos.
O abate das árvores tem de ser condenado e combatido.
As podas drásticas reduzem a vida de uma árvore a 1/3 e debilitam-nas, proliferando fungos e outras doenças. Quando se fazem podas radicais, nomeadamente nos plátanos, debilitam-se as árvores e reduz-se drasticamente o seu tempo de vida. Porque se faz? Ignorância.
Quando se abate uma dúzia de árvores majestosas e frondosas numa cidade, deve-nos levar a pensar, a interrogar o porquê.
Claro que ninguém deseja que haja uma rotura, um tombamento descontrolado com eventuais perdas materiais e riscos de segurança para as pessoas.
Mas foi feito algum estudo sobre o estado sanitário das árvores antes do abate? Há meios técnicos para o fazer que não são invasivos…
O abate sendo a solução radical, pode com frequência ter alternativas. Há aquilo que se designa como cirurgia das árvores, podando ramos mortos e equilibrando as árvores, mantendo a arquitectura de copa. As “cavidades” podem ser preenchidas e tapadas evitando que se alastre a podridão ou invasão de pragas e fungos.
Através de vários estudos, foi estabelecida uma correlação entre o bem-estar mental e a presença de vegetação nos locais onde vivemos. Aquilo que se designou por regra de 3-30-300 foi desenvolvida por The University of British Columbia pela Prof. Cecil Konijnendijk: (1) – quando está em casa, deverá olhar pela janela e ver pelo menos 3 árvores; o local onde mora deve ter pelo menos 30% de cobertura de árvores e a sua casa deve ficar a menos de 300 metros de um parque.
É preciso que as comunidades se sensibilizem para a importância das árvores também no meio urbano.
Não basta que se grite aos quatro ventos sobre o perigo das alterações climáticas. É necessário actuar!
É necessário que cada Câmara Municipal faça o recenseamento das árvores existentes na cidade ou vila e do seu estado sanitário e que isso seja do conhecimento do público. Há Empresas, Universidades e Institutos Politécnicos que têm capacidade científica e técnica para o fazer com os seus alunos. Naturalmente que devem ser contratualizados e pagos para o efeito.
É necessário que cada Câmara Municipal estabeleça um Plano de Acção de arborização, e de reposição de árvores nas caldeiras ali onde foram abatidas, calendarizado com metas a atingir, para melhorar as suas cidades ou vilas e proteger os seus cidadãos.
Claro que não se pode pensar que tudo isto é de implementação imediata e fácil em qualquer cidade, mas quando a opção é o inverso, então estamos mesmo muito mal.
(1) Fonte: https://www.researchgate.net/publication/353571108_The_3-30-300_Rule_for_Urban_Forestry_and_Greener_Cities
Engenheiro Florestal e Mestre em Recursos Florestais