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Serpins transforma-se em palco vivo para celebrar a música e pensar a paisagem

12 de Junho 2025 Jornal Campeão: Serpins transforma-se em palco vivo para celebrar a música e pensar a paisagem

 

No próximo solstício de Verão, a aldeia de Serpins, no concelho da Lousã, será o cenário de uma experiência artística singular onde a natureza é o próprio palco. A iniciativa “Palco Paisagem”, promovida pelo projecto Música Portuguesa a Gostar Dela Própria (MPAGDP), acontece a 21 de Junho e propõe um dia de concertos, contos e conversas, sem palco, sem som amplificado e com a paisagem como protagonista.

Distribuído por quatro locais emblemáticos da aldeia – o Quintal dos Javalis, o Banco do Júlio, o Lavadouro da Valada e o Mar de Acácias e Eucaliptos – o evento desafia os formatos tradicionais de fruição musical. Cada espaço evoca uma relação íntima com o território: desde a regeneração pós-incêndio até à memória do despovoamento ou à exuberância da vegetação dominante na região.

“O palco é o lugar, com as suas condições acústicas, com o som do rio, das rãs, dos passarinhos. Queremos que o público experimente aquilo que acontece nas gravações que sempre fizemos ao ar livre”, explica Tiago Pereira, fundador da MPAGDP.

Os visitantes poderão assistir a três concertos em rotação, com Fernando Mota, Sónia Sobral e Sílvio Rosado, em actuações que se repetem às 15h30, 16h30 e 17h30. A lógica é livre: cada um pode escolher ver o mesmo artista em diferentes paisagens, diferentes artistas num mesmo local ou qualquer outra combinação.

Para além da música, haverá duas sessões de contos com Gil Dionísio e Ana Sofia Paiva e três conversas temáticas: uma sobre fogo e regeneração, outra sobre os “jardineiros da paisagem” e ainda uma terceira sobre despovoamento e memória, com a participação de Álvaro Domingues, geógrafo, e Aurora Carapinha, arquitecta paisagista.

O encerramento terá lugar no palco natural do “Mar de Acácias e Eucaliptos”, com a actuação do Coro da Cura, colectivo local, e uma última conversa que lança uma questão essencial: “Qual o papel de cada um na paisagem e nas suas transformações?”

Para Tiago Pereira, esta proposta “rompe com a lógica do palco elevado, distante do público” e convida à criação de novas formas de estar com a música e com o território: “Discutimos o lugar, a paisagem, mas também porque é que não temos mais encontros como este.”

O evento insere-se na candidatura da MPAGDP à Direcção-Geral das Artes e conta com o apoio da Câmara Municipal da Lousã e da Junta de Freguesia de Serpins. Os bilhetes têm o valor de 10 euros e o público terá acesso a um mapa com toda a programação e localização dos quatro “palcos”.

Neste dia especial, a paisagem de Serpins deixa de ser apenas cenário e torna-se palco vivo, memória partilhada e reflexão colectiva.