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Semanário no Papel - Diário Online

 

Joana Gil

Azul

6 de Junho 2025

As praias da Bélgica são de uma beleza deslumbrante” é uma frase que eu nunca ouvi ninguém dizer. Isto não significa que não haja encanto na costa do país. Os quase 70 kms de linha costeira conferem uma bela oportunidade para os belgas se estenderem ao sol (nos poucos dias em que há) e aproveitarem o calor (nunca muito intenso) nos longos dias de Primavera e Verão.

As instâncias balneares mais populares são Ostend, Knokke-Heist e Blankenberg, onde as temperaturas de Verão rondam os 15º a 20º, brindados em média com 9 dias de chuva por mês. Já as temperaturas do mar podem surpreender os portugueses pela positiva: em Agosto, por exemplo, o Mar do Norte na costa belga está a uns razoáveis 19º, curiosamente superiores à média, por exemplo, das águas da Figueira da Foz.

Em termos de paisagem natural, a costa belga tem interessantes pontos, não só do ponto de vista cultural mas também em termos de biodiversidade. Não faltam zonas de nidificação para muitas aves, belas dunas e muitas tradições que ainda são preservadas. A mais insólita será porventura a pesca de camarão a cavalo – os pescadores montam os seus cavalos e adentram-se pelo mar, apanhando os camarões. Difícil de imaginar, mas não ficariam também os belgas surpreendidos se lhes dissessem que na arte xávega tradicional portuguesa as redes da pesca de cerco são puxadas para terra por bois?

Entre faróis, esculturas na areia, natureza mas também muito urbanismo, a costa belga tem a sua tranquilidade para oferecer aos visitantes, até por contar com extensíssimos areais. É certo que na Praia da Claridade há que caminhar muito antes de conseguir molhar os pés, mas os areais da costa belga são de tal forma extensos que é preciso alguma determinação para chegar à água.

Só que 70 kms de areia para 11 milhões de habitantes redundam em entupimentos na circulação sempre que o calor aperta na Bélgica. Para quem está em Bruxelas, o regresso a casa ao fim do dia pode ser verdadeiramente infernal, transformando um passeio de uma hora e meia numa tortura de pára-arranca que leva horas.

Mas o maior senão é mesmo o azul – o azul que não há. Quem em Portugal se abeira da costa pousa o olhar no azul profundo e belíssimo do Atlântico. Na costa belga, o tom acastanhado e barrento das águas é decepcionante. Não tem qualquer relação com a qualidade da água, antes sendo uma mera característica das correntes da região. Mas falta o vigor do azul profundo das praias portuguesas, o contraste entre a infinita toalha azul de água salgada e a espuma branca levantada pelo vento, a linha da rebentação que realça o azul que se estende lá para trás, a linha do horizonte onde o azul luminoso do céu se encontra com o azul mais carregado do mar, um azul onde mergulhamos com o olhar, mesmo que não toquemos na água.

Fernando Pessoa disse-o bem: “Azul, azul, azul, o mar fraqueja / Em orlas brancas pela praia fora”.