Coimbra  12 de Março de 2026 | Director: Lino Vinhal

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Hernâni Caniço

Portela, cimento e área verde?

30 de Maio 2025

Coimbra que todos amamos, parece ser, na opinião deste Executivo, a beleza de concursos (única no mundo e arredores), o El Dorado do empreendedorismo (onde um empresário que investe 4 milhões é ignorado para ser recebido, mas é premiado!), o Shangri La da juventude eterna e da capacidade de realização elitista.

Mas a realidade, que nos é retratada por organizações de moradores, é que Coimbra está suja e feia (não só por causa das obras, esclareça-se), e a qualidade de vida é desprezada, a começar pelo facto de o Executivo não cumprir as promessas ou mesmo ignorá-las, como se os cidadãos, os seus problemas e necessidades, não fossem o mais importante da sociedade (não por causa dos votos e devotos, mas pelo conhecimento real e capacidade de agregação e realização).

Na Urbanização da Quinta da Portela, sendo a maior urbanização da cidade, foi subvertido o projecto inicial, em que lotes reservados para áreas verdes e equipamento social foram ocupados por novas construções. Ainda recentemente, o Município autorizou o acréscimo de 57 fogos, destinados a comércio, serviços, restauração e indústria, com acréscimo de densidade populacional que se reflecte na receita da edilidade, e a eliminação de uma área total de 1.776 m2.

Assim, não há centro recreativo ou cultural, creche, área desportiva, parque infantil para crianças mais crescidas (há um miniparque para crianças mais pequenas), uma extensão da biblioteca municipal, espaços de convívio, etc. Prevê-se apenas a construção do centro escolar para 2028.

O estímulo à sociabilidade, a criação de espírito comunitário, a criação de condições para desenvolvimento saudável da juventude não são assim prioridades do Executivo.

Áreas verdes, onde estão? Não será a criação de um Aqua Parque, em área adjacente, a funcionar 4 meses por ano e a retirar água do Mondego, que é de “utilização protegida” por alimentar as captações de água da Boavista.

Nem é adequada a realização de festivais de motonáutica como aconteceu o ano passado e este ano, que também elevaram os níveis de poluição sonora (proximidade do Choupal e espécies de aves raras na Europa), atmosférica (emissão de gases de escape como o monóxido de carbono, hidrocarbonetos, óxidos de azoto e partículas) e perda de qualidade da água (possível derrame de óleos e combustível). E provocou a disseminação da elódea-africana em outras massas de água e perturbou a fauna do corredor ecológico do rio. E deveria até ser proibido o uso de motas de água, como albufeira de águas públicas, se existisse um plano de ordenamento.

As áreas verdes reduzem-se ao logradouro dos prédios e aos separadores de tráfego e zonas de estacionamento.

Na situação actual, deveria ser transformada a margem direita entre a ponte da Portela e a praia do Rebolim (e mesmo o “túnel” de arvoredo a montante da ponte da Portela com caminho pedonal classificado), numa zona verde que respeitasse a albufeira do açude e a vegetação ripícola com a sua biodiversidade, por exemplo, do tipo parque dos laranjais com áreas desportivas.

Mas, segundo as GOP (que votámos contra, em tempo oportuno), não parece ser essa a linha de acção do Executivo, não promovendo assim a renaturalização que temos defendido e que o executivo diz também defender, na teoria.

A construção de um verdadeiro Parque Verde (em continuidade do Parque Verde já existente) seria a medida apropriada, com a segurança da margem direita do Mondego, a restrição do assoreamento (fixação do terreno e plantação de espécies autóctones), e a fruição.

(*) Médico e vereador do PS na Câmara de Coimbra