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Semanário no Papel - Diário Online

 

João Ferreira

A fábula dos Bichos do Pântano

30 de Maio 2025

Num pântano extenso e fértil, habitavam muitas criaturas: havia rãs que coaxavam em coro ao entardecer, libélulas que dançavam sobre a água, tartarugas que meditavam em silêncio e até crocodilos, temidos mas essenciais ao equilíbrio do lugar. Apesar das diferenças, todos partilhavam a mesma água, o mesmo solo, o mesmo ar.

Com o passar do tempo, as tensões começaram a crescer. O sapo queixava-se de que o canto do rouxinol o impedia de dormir. A libélula achava o crocodilo demasiado assustador, e a garça estava farta de mergulhar em águas poluídas pelos castores. O pântano, outrora símbolo de vida e diversidade, começava a ser visto como um problema.

Um dia, surgiu uma proposta inesperada: drenar o pântano para “resolver os conflitos”. Era uma ideia radical, apresentada por uma coruja misteriosa, que dizia saber o que era melhor para todos. A promessa era simples: sem pântano, sem problemas. E então, começou-se a votar.

A rã, que odiava o sapo por antigas discussões, votou a favor. O castor, irritado com as críticas constantes à sua engenharia de diques, também apoiou. Até a tímida libélula, que nunca participava de nada, decidiu que talvez uma mudança drástica fosse positiva. A garça, encantada com a ideia de ver o solo seco e limpo, foi das primeiras a levantar a asa a favor. Já a tartaruga hesitou.

– Prefiro não me meter – disse. – Nada vai mudar para mim…(!)

E assim, absteve-se.

A decisão foi aprovada com entusiasmo e, em breve, começaram os trabalhos de drenagem.

Os dias seguintes foram silenciosos. O pântano secou lentamente. As rãs deixaram de coaxar, as libélulas já não tinham onde pousar, os peixes desapareceram. Os crocodilos, privados de água, morreram encalhados ao sol. A vegetação murchou, os insectos sumiram. A tartaruga, que julgava estar segura na sua carapaça, viu-se sozinha num chão rachado e estéril, sem sombra, sem alimento, sem vida.

A coruja, que propusera a mudança, voou para outro lugar.

Esta fábula, que parece apenas uma história simbólica, é, na verdade, um retrato fiel das sociedades humanas. Muitas vezes, deixamo-nos levar pela raiva, pelo desejo de vingança ou, simplesmente, pela apatia. Votamos não com base na esperança de melhorar, mas no desejo de castigar o outro. E, mais grave ainda, muitos abstêm-se de participar, convencidos de que a neutralidade os isenta da responsabilidade.

Mas, num ecossistema – seja ele natural ou social – ninguém vive isolado. A decisão que afecta o colectivo acaba, inevitavelmente, por alcançar cada indivíduo. O voto da rã contra o sapo, ou o silêncio da tartaruga, revelaram-se igualmente fatais.

Num mundo onde as crises se multiplicam – políticas, ambientais, sociais – esta metáfora convida-nos a reflectir. A democracia é frágil e exige participação consciente. A abstenção pode parecer inofensiva, mas quando o pântano seca, não há excepções: todos pagam o preço, inclusive os que preferiram calar-se.

Por isso, é preciso votar com lucidez, dialogar com empatia e recusar soluções fáceis que prometem eliminar os “inimigos”, mas acabam por destruir o que temos em comum. Pois, no fim, o pântano é a casa de todos – e, sem ele, não há vida.

A moral não é votar sempre, nem votar em quem nos pareça perfeito. É compreender que vivemos num ecossistema comum – social, político, ambiental – e que as nossas decisões, ou a ausência delas, têm impacto. Não há voto sem consequência. E, no final, como a tartaruga, até quem não escolhe pode acabar por pagar o preço.

(*) Doutorando na FMUC