Coimbra  17 de Março de 2026 | Director: Lino Vinhal

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“A beleza da política está a desaparecer” — Um retrato crítico de Manuel Rocha

25 de Maio 2025 Jornal Campeão: “A beleza da política está a desaparecer” — Um retrato crítico de Manuel Rocha

Natural de Coimbra, Manuel Rocha nasceu em 1962 e é uma figura incontornável da vida cultural e cívica da cidade. Licenciado em violino pelo Instituto Gnessin, em Moscovo, é professor no Conservatório de Música de Coimbra desde 1988, tendo desempenhado funções de director entre 2005 e 2017. Membro da Brigada Victor Jara desde 1977, colaborou com grandes nomes da música portuguesa e participou em múltiplos projectos nas áreas do teatro, cinema, televisão e investigação etnomusicológica.

Figura destacada do PCP, o seu nome tem surgido em várias listas da Coligação Democrática Unitária (CDU). Homem de convicções, que vive a política como extensão da ética e da cultura, Manuel Rocha aceitou partilhar a sua leitura dos resultados das eleições legislativas de 18 de Maio com a Rádio Regional do Centro e com o Campeão das Províncias.

 

Campeão das Províncias [CP]: O que lhe diz, em termos pessoais, a experiência das eleições legislativas de domingo?

Manuel Rocha [MR]: Vivi a experiência muito de perto, tendo estado numa mesa de voto desde as 7h00 até às 21h00. Foi fascinante observar, não apenas o acto do voto, mas as pessoas — estranhos que, ao longo do dia, foram criando laços, encontrando pontos em comum, e até amizades. Isso, para mim, é uma das grandes vitórias das eleições: a capacidade de unir pessoas em torno do respeito pelo acto democrático. Isto mostra que, apesar das diferenças, é possível conviver com respeito e encontrar consensos, que é a essência do que deve estar em jogo nas eleições.

 

[CP]: Como foi o momento da contagem dos votos?

[MR]: Quando começámos a abrir os votos depressa se instalou uma inquietação. O crescimento do Chega era evidente — e isso provocou alguma apreensão. A Assembleia da República mudou profundamente a sua composição. E essa mudança traz consigo muitas incertezas quanto ao futuro, não apenas político, mas também económico, cultural e social. Foi um choque perceber, ali, à mesa da contagem, que se estava a montar um novo mapa político.

 

[CP]: A contagem dos votos pode revelar mais do que números?

[MR]: Sem dúvida. Há ali quase uma poética silenciosa — os votos vão-se acumulando em pequenos montes. É curioso como os montes simbolizam visivelmente a força dos partidos: os maiores a crescerem, os médios a resistirem e outros a desaparecerem. Há até partidos que, pura e simplesmente, não chegam sequer à mesa, porque ninguém — ou quase ninguém — votou neles. É uma imagem forte, uma metáfora da vida democrática e da nossa relação com ela.

 

[CP]: Que leitura faz do crescimento expressivo do Chega?

[MR]: Para mim, o voto no Chega é, acima de tudo, um voto de protesto. Não vejo ali uma escolha ideológica profunda. É um grito de revolta, uma forma de dizer “basta”, sem necessariamente saber o que se quer a seguir. O problema é que este tipo de protesto carrega um tom insultuoso, de animosidade e ódio. E isso, do ponto de vista social, é muito perigoso. O discurso da bancada do Chega é, muitas vezes, um discurso de confronto, que alimenta divisões profundas.

 

[CP]: Considera então que o discurso político está a ser contaminado?

[MR]: Sim. E o exemplo mais evidente é André Ventura. O problema é que ele tem um microfone enorme, alimentado por uma cobertura mediática que não vi dada a nenhum outro político. As câmaras seguem-no até ao hospital, se for preciso. Isso faz-me lembrar os excessos mediáticos do futebol. Mas a política não pode ser tratada como um jogo de futebol.

 

[CP]: Isso tem consequências mais profundas?

[MR]: Tem. Estamos a perder algo essencial: a ética, a estética, a beleza da política enquanto espaço de construção colectiva. Se tirarmos à política a capacidade de inspirar, de unir através da palavra e da ideia, o que nos resta? Estamos a transformar a política num espectáculo vazio, que pode dar audiências — sim — mas também pode causar tragédias.

A declaração de Ventura sobre “ajuste de contas” foi assustadora. Que sentido faz isto no século XXI? Num país com dez milhões de habitantes a viver desafios sérios, como podemos aceitar um discurso destes?

 

[CP]: Como descreveria o país em que vivemos hoje?

[MR]: Vivemos num país que deixou de produzir. Portugal tornou-se uma economia de serviços — e isso, para mim, é perigoso. Falta-nos um modo de vida sustentável, algo que vá além do consumo imediato. O dinheiro devia ser “cavado” — no estaleiro do Mondego, nos campos de arroz do Baixo Mondego, no parque industrial de Coimbra. Dinheiro sem suor é veneno. Pode comprar coisas, sim, mas não sustenta nada. Não fixa nem segura o que é essencial. E isso é algo que temo profundamente.

 

 [CP]: Sente que isso também pesou nas eleições?

[MR]: Sem dúvida. As eleições reflectiram essa frustração. As pessoas sentem-se revoltadas porque a sua vida perdeu rumo. Porque os filhos emigram. Porque os salários não chegam. Porque não há tempo nem energia para sonhar.

Que orçamento familiar sobrevive com 700 ou 800 euros mensais e uma renda de 600? Não há possibilidade. E isso leva as pessoas a ouvir quem grita mais alto. A mensagem do Chega chega-lhes porque não há outras que lhes falem directamente. Mesmo que essa mensagem não tenha estratégia nem pensamento estruturado, ela tem volume. E às vezes, o volume chega. É como dizia uma senhora durante a campanha: “Ele diz umas verdades”. Mas verdades? Verdades até um bêbado diz no adro da igreja.

 

[CP]: Então, as pessoas estão a correr para o Chega?

[MR]: Tenho muitas dúvidas. Não sei se correm para o Chega ou se fogem de quem não faz. Essa é a verdadeira questão. O Chega tornou-se um catalisador. Mas o catalisador só funciona quando o ambiente está inflamável — e está. Nós temos de aprender com isto. Porque a mensagem do Chega parece diferente, mais directa. E num mundo em que a vida já é tão dura, ninguém tem tempo ou vontade de analisar profundamente. As pessoas querem soluções para o dia de amanhã, não para daqui a 20 anos. É como o Ventura diz: “50 anos não fizeram nada, dêem-me uma oportunidade”. É o regresso do mito de D. Sebastião. Ainda estamos à espera dele. E enquanto esperarmos, vamos continuar a tropeçar nas promessas fáceis — que escondem realidades duras.

 

[CP]: Acredita que os tempos de hoje são piores do que os do passado?

[MR]: Não quero parecer pessimista, até porque não podemos comparar isto com o tempo dos meus primos, que foram para a guerra colonial. Os tempos de hoje são melhores, sem dúvida. A minha dúvida é se estamos a saber aproveitá-los. Herdámos um tempo melhor, fruto de muitas lutas, de muita contestação, de muita vontade de mudança. E, no entanto, estamos a fazer com que esse tempo regresse a uma fase de animosidade e divisão — e isso não produz nada para ninguém.

 

[CP]: E no plano político, como vê o futuro?

[MR]: Com muita preocupação. O que é que vamos ter agora na Assembleia da República? Vamos ter um melhor Serviço Nacional de Saúde? Melhores salários? Mais emprego? Uma nova indústria nacional? Um relançamento da agricultura? Não. Nada disso. Não ouvimos uma palavra sobre estes temas na campanha eleitoral. E não são temas marginais, são a vida das pessoas.

 

[CP]: Falemos agora de Coimbra.

[MR]: Coimbra deixou-se levar. Lembro-me de jantar com um antigo presidente da Câmara, o Dr. Encarnação — um homem que eu estimo. Isto foi há uns 30 anos. Dizia-lhe, na altura, que me fazia impressão que os empresários de Coimbra não gostassem de ganhar dinheiro. Porque, na verdade, eles foram saindo todos daqui. Foram-se embora. Não querem Coimbra para fazer camisolas, para fazer pratos de sopa… não querem Coimbra para fazer nada.

 

[CP]: E isso foi esvaziando a cidade?

[MR]: Fomos esvaziando Coimbra daquilo que podia ser o seu verdadeiro capital. Estamos aqui na zona da Pedrulha, que era o coração da cidade. A cidade pulsava porque a gente a fazia pulsar. Trabalhávamos, produzíamos. Isso era fundamental. Desapossámos a margem esquerda de algo essencial para uma região com milhares de pessoas. Desocupámos o centro histórico. Criámos uma ilusão com o turismo.

 

[CP]: Ilusão?

[MR]: Sim, a ilusão do turismo como factor de desenvolvimento. Temos de olhar para Espanha, para o que acontece na nossa própria Ferreira Borges. O turismo é simpático, claro. Mas não é um motor de desenvolvimento. Porque não cria valor, cria baixos salários. Coimbra precisa de outra visão. Porque uma cidade que não aposta nos seus jovens, que perde os seus empresários, que engaveta a sua saúde e precariza o seu saber… é uma cidade que deixou de se querer.

 

Lino Vinhal/Joana Alvim