Coimbra  10 de Abril de 2026 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

Carlos Robalo Cordeiro: um percurso ímpar ao serviço da medicina respiratória

17 de Maio 2025 Jornal Campeão: Carlos Robalo Cordeiro: um percurso ímpar ao serviço da medicina respiratória

Carlos Robalo Cordeiro, Professor catedrático e Director da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra (FMUC), dirige o Serviço de Pneumologia da ULS de Coimbra. O seu percurso clínico e académico é marcado por uma forte presença internacional: foi presidente da Sociedade Portuguesa de Pneumologia (2010-2015), secretário-geral da European Respiratory Society (ERS) entre 2016 e 2019 e, em 2020, tornou-se o primeiro português eleito presidente desta que é hoje a maior sociedade respiratória do mundo, com 34 mil membros em 165 países. O mandato, que terminou em Setembro de 2024, coincidiu com uma das fases mais desafiantes da saúde pública global. Com o reconhecimento internacional veio também o reforço da visibilidade da Pneumologia portuguesa e da sua qualidade científica.

Campeão das Províncias [CP]: Como é que está o Serviço Nacional de Saúde?

Carlos Robalo Cordeiro [CRC]: Estamos numa cidade da saúde, por excelência. E importa lembrar que foram precisamente pessoas desta cidade que estiveram na génese do Serviço Nacional de Saúde. Desde logo, no plano político, António Arnaut — o pai do SNS — e, no plano médico, o Professor Mário Mendes, que foi secretário de Estado no governo em que António Arnaut lançou esta grande reforma. Por isso, sendo de Coimbra, teria vergonha de dizer que o SNS não está bem — mas posso dizer que já esteve melhor.

O Serviço Nacional de Saúde foi criado num tempo completamente diferente, em que a necessidade era absoluta. Tratava-se de garantir o acesso universal à saúde, num país onde esse acesso era extremamente desigual e limitado. Já existia o Serviço Médico à Periferia, que foi pioneiro e abriu caminho para esta visão mais abrangente. O SNS veio consolidar essa ideia: saúde para todos.

Hoje, o contexto é outro. A inovação tecnológica, os medicamentos mais sofisticados, os meios de diagnóstico e tratamento — tudo isso eleva exponencialmente os custos da saúde. E o modelo criado há mais de 40 anos, apesar de visionário, enfrenta agora desafios que não existiam na sua origem.

 

[CP]: A sustentabilidade do Serviço Nacional de Saúde está em risco?

[CRC]: Essa é a chamada pergunta de um milhão de dólares. A verdade é que o modelo como hoje o conhecemos — universal e tendencialmente gratuito, com cobertura para todos — coloca naturalmente desafios enormes à sua sustentabilidade.

O SNS foi, à época da sua criação, uma viragem extraordinária. Foi inspirado na escola inglesa, que serviu de referência e que, tal como nós, também enfrenta hoje dificuldades significativas. Acompanhámos os benefícios da implementação desse modelo — e agora acompanhamos também as suas fragilidades.

O grande problema é, sem dúvida, o financiamento. A inovação tecnológica, os avanços na terapêutica, os medicamentos cada vez mais sofisticados… tudo isso trouxe ganhos imensos em capacidade curativa e preventiva, que são inegáveis. Mas os custos associados cresceram de forma exponencial. Se quisermos fazer uma analogia, diria que os ganhos cresceram em progressão aritmética, mas os custos cresceram em progressão geométrica.

Apesar de tudo isto, continuo a acreditar que o SNS é — e deve continuar a ser — a base da saúde em Portugal. Não há qualquer dúvida sobre isso. No entanto, temos também de admitir a necessidade de complementaridade. Falo da complementaridade com o sector social e com o sector privado, que não devem ser vistos como concorrenciais, mas como complementares.

Essa é uma visão mais actual, mas que faz sentido, e que deve ser assumida sem complexos. A chave está em encontrar um equilíbrio que permita preservar o essencial: o acesso equitativo e de qualidade para todos.

 

[CP]: Como é que vê o papel do hospital privado e público?

[CRC]: Coimbra tem uma longa tradição de saúde, especialmente na área da medicina privada. No entanto, é importante não ver esses sectores como concorrentes, mas como complementares. Cada um tem seu papel, com o hospital público, especialmente o SNS, sendo a base fundamental. O SNS tem fragilidades, principalmente financeiras, mas continua a ser essencial para garantir o acesso à saúde para todos.

 

[CP]: Quais são as maiores dificuldades do SNS actualmente?

[CRC]: O SNS enfrenta dificuldades significativas em várias áreas, desde a instalação de serviços em determinadas regiões até à falta de capacidade financeira para oferecer salários adequados aos profissionais. Além disso, a atracção e retenção de médicos são desafios, especialmente no interior do país. Muitos procuram melhores condições noutros locais, seja no sector privado ou fora do país. A geração actual tem um olhar mais atento ao equilíbrio entre vida profissional e pessoal. A rigidez dos contratos no sector público afasta muitos, especialmente os mais jovens.

A pressão nas urgências é um dos maiores problemas. O aumento da carga de trabalho, especialmente em especialidades que lidam directamente com urgências, está a afastar os profissionais de saúde. Além disso, a falta de uma rede de apoio e a baixa literacia em saúde contribuem para que muitas pessoas recorram às urgências desnecessariamente, o que sobrecarrega ainda mais o sistema.

 

[CP]: Como se pode melhorar o sistema de saúde e aliviar a pressão nas urgências?

[CRC]: Uma solução seria melhorar a literacia em saúde da população, para que as pessoas saibam quando realmente precisam de ir ao hospital. Criar alternativas de atendimento não presencial e fortalecer a medicina geral e familiar são medidas fundamentais para reduzir a pressão nas urgências. Além disso, promover a integração de cuidados entre o SNS, o sector privado e o serviço social pode melhorar a eficácia e a sustentabilidade do sistema.

 

[CP]: A saúde em Coimbra tem potencial para ser líder nacional?

[CRC]: Sim, sem dúvida. O serviço que dirijo na ULS de Coimbra tem todas as condições para ser líder a nível nacional. Temos pessoas altamente diferenciadas, líderes nas suas áreas, com conhecimento e experiência que colocam o nosso serviço na linha da frente.

Apesar da qualidade técnica e humana, temos tido dificuldades organizativas. Existem vários problemas que comprometem a consolidação dessa liderança. Acredito que há uma partilha de responsabilidades que deve ser assumida. A saúde, infelizmente, continua a ser usada como arma de arremesso político. Isso fragiliza o sistema. A saúde deveria ser um compromisso de regime, um desígnio nacional. Em vez disso, continua a ser instrumentalizada, especialmente em períodos eleitorais. A mesma realidade é apresentada de formas diferentes consoante os interesses políticos.

[CP]: O pensamento dos partidos políticos sobre a saúde é assim tão diferente?

[CRC]: Curiosamente, não. Tirando os extremos, os grandes partidos não têm visões tão distintas quanto isso. Mas falta-lhes a coragem de firmar um compromisso conjunto e duradouro. Veja-se o exemplo das PPP (Parcerias Público-Privadas): criam-se, extinguem-se, voltam-se a criar, conforme quem está no poder. O foco devia estar na eficácia das soluções, não na ideologia da gestão.

 

[CP]: Qual deve ser, então, o objectivo final?

[CRC]: É simples: garantir que os portugueses tenham acesso aos melhores cuidados de saúde. Independentemente da forma de gestão ou do modelo adoptado, o que importa é o resultado para as pessoas.

 

[CP]: Quais são os benefícios do modelo de organização das Unidades Locais de Saúde?

[CRC]: Este modelo tem várias vantagens, como a promoção da medicina fora dos hospitais e a proximidade entre o paciente e a sua comunidade e família. Os hospitais devem estar focados em cuidados de maior complexidade, enquanto a medicina geral e familiar deve atender a casos menos graves, o que facilita a gestão. A principal dificuldade é a articulação entre a realidade hospitalar e os cuidados primários de saúde, que nem sempre estão bem integrados. Existem modelos diferentes de organização e financiamento que criam assimetrias entre os profissionais de saúde.

 

[CP]: Gostava de ser Reitor da Universidade de Coimbra?

[CRC]: Ser Reitor da Universidade de Coimbra é um desafio muito interessante, sem dúvida. Tenho pensado nisso, com toda a sinceridade, mas depende de várias circunstâncias. Neste momento, estou concentrado nas minhas responsabilidades actuais, como Director da Faculdade e do Serviço de Pneumologia. Ser Reitor seria um fim de carreira digno e de grande prestígio, algo que atrai qualquer professor que tenha dedicado a sua vida à Universidade. A Universidade de Coimbra sempre foi a minha casa desde o tempo de aluno e todas as funções que desempenhei aqui sempre foram muito significativas para mim.

 

Lino Vinhal/Joana Alvim