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Semanário no Papel - Diário Online

 

Hernâni Caniço

A perda do elitismo

16 de Maio 2025

O Fórum Regional do Centro das Ordens Profissionais (FoRCOP), criado em Outubro de 2002 (já lá vão quase 23 anos), então com a designação Fórum Regional do Centro das Profissões Liberais, realizou as suas Jornadas anuais, com o tema “A Inteligência Artificial e as Profissões”, onde abordou a evolução dos computadores, os neurónios e as sinapses, a imitação do cérebro pela inteligência artificial, o ChatGPT, a criação e a aplicação de Lei da União Europeia, o corpo e as interações sociais, através de brilhante conferência de Carlos Fiolhais, em programa de excelência.

Como todas e todos sabemos, os fóruns, como técnica de comunicação, são assembleias ou reuniões que têm o objectivo de discutir um tema de interesse comum, de forma aberta, dialogante e construtiva, procurando dar um contributo incisivo e pragmático, sem dogmas nem preconceitos.

Destacamos, entre outras iniciativas do FoRCOP, a realização do Seminário “Reflexos da Declaração de Bolonha” (2004), o Fórum “Envelhecimento Activo e Saudável” (2014), o Fórum Global sobre o Desenvolvimento: o mundo do Progresso” (2015) e os Colóquios “Saúde em Tempos COVID” (2022), “A regulação das Ordens Profissionais” (2023), “O Envelhecimento no século XXI (2024).

Na sua criação, as Ordens profissionais representavam organismos corporativos, o que na sua génese incluía o espírito de agremiação como defesa do espírito de classe, em simultâneo com as suas prerrogativas não extensíveis aos cidadãos comuns.

O seu estatuto era, a par da regulação técnico-científica, procurar o reconhecimento da sua superioridade intelectual e detentora da hierarquia personalizada perante o poder autocrático e, a posteriori, frente ao poder democrático.

Tal originou uma atracção fatal das velhas e novas profissões, levando à promoção da sua identidade profissional e ao conceito de supremacia perante as outras profissões concorrentes, interpares e na opinião pública, desvalorizando até a formação pré-graduada como menor em relação à qualificação do exercício profissional.

Em tempo intermédio, a definição de profissão liberal era tida como panegírico, estimulava-se a aparente cooperação de estruturas para fins reivindicativos desligados de interesses comuns, e marcava-se o território para influenciar políticas públicas em direcção ao liberalismo, reduzindo o conceito de serviço.

Estas fases foram ultrapassadas, com uma verdadeira revolução na conjugação da representatividade das Ordens perante a sociedade, aliada a uma atitude de função social e promotora da mais-valia da sua missão, entendida como dever de prestação de serviço, espírito de responsabilidade perante o ser humano e assunção de compromisso solidário.

Perdeu-se o elitismo, ganhou-se a proximidade. A procura de parcerias e a integração na comunidade, bem como a abertura e iniciativa de debates públicos sobre os grandes temas da humanidade como os direitos humanos (entre os quais a saúde, a educação, a justiça e a segurança social) e o Desenvolvimento Sustentável (incluindo o turismo), são paradigmas em curso nas Ordens profissionais.

Igualmente, a coordenação das potencialidades das várias ciências e artes, com acções públicas conjuntas das Ordens, dirigidas a públicos-alvo com informação, esclarecimento e protecção da pessoa, leva ao respeito da opinião pública sem preconceitos classistas e à aceitação da nova função social das Ordens, como contributo para o bem-estar dos cidadãos, além das suas atividades específicas e legítimas no mercado do desempenho profissional.

(*) Médico e vereador do PS na Câmara de Coiimbra