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Greve na CP paralisa circulação e expõe tensão entre sindicatos, Governo e administração

8 de Maio 2025 Jornal Campeão: Greve na CP paralisa circulação e expõe tensão entre sindicatos, Governo e administração

Trabalhadores ferroviários exigem cumprimento de acordo salarial e rejeitam motivações políticas; paralisação deverá prolongar-se até 14 de Maio.

A circulação de comboios em Portugal está, desde quarta-feira, a enfrentar perturbações severas devido à greve dos trabalhadores da CP – Comboios de Portugal, convocada por um vasto conjunto de sindicatos do sector ferroviário. A paralisação, que teve início a 7 de Maio e se deverá estender até ao próximo dia 14, regista uma adesão total, com a circulação completamente suspensa nas primeiras horas do segundo dia de greve, esta quinta-feira.

De acordo com Júlio Marques, da Associação Sindical das Chefias Intermédias de Exploração Ferroviária (ASCEF), “tal como no primeiro dia de greve, a adesão é de 100%”. Até ao momento, não houve avanços nas negociações com o Governo ou com a administração da CP, mantendo-se o impasse que motivou o protesto.

A greve é impulsionada por reivindicações salariais e pelo incumprimento de um acordo celebrado a 24 de Abril entre os sindicatos e a administração da CP, que previa a reestruturação das tabelas salariais. Segundo os trabalhadores, os aumentos impostos pelo Governo “não repõem o poder de compra” e representam uma “discriminação inaceitável” face ao restante sector público. Os sindicatos exigem a negociação de aumentos salariais dignos e a aplicação integral dos termos negociados.

A CP lamentou os “graves transtornos” provocados pela greve, sobretudo para os passageiros que dependem do transporte ferroviário para aceder ao trabalho, à saúde e à educação. Sublinha, ainda, que contestou judicialmente a ausência de serviços mínimos, uma decisão do Tribunal Arbitral do Conselho Económico e Social que a empresa considera desproporcional face ao impacto da paralisação.

Apesar de não estarem a ser realizados serviços comerciais, continuam assegurados os serviços de emergência, manutenção de equipamentos e infra-estruturas, bem como os comboios de socorro.

A tensão intensificou-se com as acusações do ministro das Infra-estruturas, Miguel Pinto Luz, e do presidente do PSD, Luís Montenegro, que sugeriram motivações políticas para a marcação da greve, a poucos dias das eleições legislativas antecipadas. Em resposta, o Sindicato Nacional dos Maquinistas dos Caminhos de Ferro Portugueses (SMAQ) rejeitou liminarmente tais alegações, afirmando tratar-se de uma “greve de trabalhadores que exigem o cumprimento de um acordo justo e negociado”.

O SMAQ considera que o Governo, ainda em funções e com plenos poderes, tem recorrido a argumentos infundados para justificar a não aplicação do acordo firmado. Segundo o sindicato, os montantes acordados estão orçamentados e, por isso, a recusa do executivo em cumpri-los “empurrou os trabalhadores para esta greve”. Relativamente à proposta de última hora apresentada pelo Governo, que previa a aplicação parcial do acordo no valor de 5,7 milhões de euros, o SMAQ aponta que cerca de dois milhões já foram absorvidos por aumentos salariais inferiores aos previstos para a Administração Pública, considerando a diferença “um sinal claro de discriminação”.

Os restantes três milhões de euros, distribuídos por cerca de quatro mil trabalhadores ao longo de 14 meses, traduzir-se-iam, segundo contas do sindicato, num acréscimo de apenas 1,78 euros por dia – uma proposta que classificam como “obviamente inaceitável”.

Entretanto, os utentes dos comboios continuam a ser os mais penalizados, enfrentando dias de incerteza e dificuldades acrescidas na mobilidade, num serviço que continua a ser vital para milhares de portugueses em todo o território nacional.