Beatriz Almeida é Directora da Zona Centro da Associação Nacional de Jovens Empresários (ANJE). Nesta entrevista ao “Campeão” aborda a realidade dos jovens empresários em Portugal e traça um diagnóstico da realidade da Região Centro, onde se inclui Coimbra, com cada vez mais “dinamismo, inovação e abertura a novas formas de fazer negócio”.
Campeão das Províncias [CP]: Que áreas são cruciais actualmente para a ANJE a nível empresarial e dos jovens empresários?
Beatriz Almeida [BA]: Na ANJE queremos fazer a diferença no terreno. As bandeiras que definimos para este mandato incluem a capacitação empresarial, internacionalização e digitalização, o empreendedorismo feminino, a imigração empreendedora e a atração de investimento – áreas absolutamente centrais para criar um ecossistema mais inclusivo, competitivo e preparado para os desafios de hoje e de amanhã. Acredito profundamente que é através desta abordagem mais humana, empática, próxima e estratégica que podemos desbloquear o enorme potencial que temos, especialmente na nova geração de empreendedores – cheia de visão, coragem e vontade de fazer acontecer.
[CP]: Quais são os grandes constrangimentos que se colocam ao investimento em Portugal e que barreiras há a ultrapassar?
[BA]: Portugal tem um enorme potencial para captar investimento, mas enfrenta ainda vários obstáculos que comprometem a nossa competitividade. A complexidade burocrática e a elevada carga fiscal, com várias situações de dupla tributação e desenquadramento face às novas realidades, tornam o ambiente menos atractivo do que desejável, sobretudo para quem quer empreender ou escalar um negócio. A isto junta-se a instabilidade política e legislativa, que fragiliza a confiança dos investidores e adia decisões estratégicas, e a falta de capital disponível para o investimento. Se queremos realmente posicionar Portugal como um destino atractivo para investir, precisamos de simplificar, agilizar e apostar numa visão de longo prazo que valorize a estabilidade, a inovação, a capacidade de execução e a capitalização.
[CP]: São muitos os empresários que, há largos anos, abordam a questão fiscal como sendo ainda muito pesada e burocrática no País. Qual a posição da ANJE sobre esta matéria?
[BA]: A posição da ANJE é muito clara: defendemos uma redução e uma simplificação significativa da carga fiscal sobre pessoas e empresas. O actual sistema fiscal é excessivamente complexo, pouco transparente e penaliza especialmente quem está numa fase inicial do seu negócio, como as startups e as PME. Esta realidade limita gravemente a competitividade das nossas empresas e coloca Portugal em desvantagem face a outros países com sistemas mais simples, estáveis e amigos do investimento. Acreditamos que uma reforma fiscal orientada para a eficácia, é essencial para fomentar o crescimento económico, estimular o empreendedorismo e atrair talento e capital.
[CP]: Também o crescimento, a criação de riqueza e emprego são atingidos por esta carga burocrática e fiscalmente negativa. No caso deste nicho – que é uma grande fatia da economia – quais as principais consequências?
[BA]: A carga fiscal e a burocracia excessiva têm um impacto directo e profundo no crescimento das empresas, sobretudo nas mais jovens e inovadoras. Além do mais, afecta gravemente a capacidade de atrair e reter talento e investimento estrangeiro, elementos essenciais para manter a competitividade num mercado global. Muitos jovens empresários sentem-se desmotivados perante um sistema que, em vez de impulsionar, trava. Precisamos urgentemente de um ambiente mais favorável, que valorize quem cria, arrisca e gera impacto – porque são esses empresários que fazem a economia andar para a frente.
[CP]: A nível da inovação, que geração de jovens empresários temos neste momento em Portugal?
[BA]: Temos uma geração de jovens empresários absolutamente notável – altamente qualificada, inovadora, com visão global e uma capacidade imensa de adaptação e execução. São empreendedores que não têm medo de arriscar, que pensam em soluções escaláveis e que já nascem a olhar para o mercado internacional. Se houver a capacidade de reduzir as burocracias e barreiras estruturais, reforçar o apoio efectivo à inovação e ao financiamento, poderemos aproveitar muito mais o potencial existente, que é enorme. O que nos falta é um ecossistema mais robusto, com políticas públicas e instrumentos que estejam verdadeiramente alinhados com a ambição desta geração. E é exatamente aí que a ANJE quer actuar: ajudar a criar as pontes certas para que estes jovens possam transformar as suas ideias em negócios de impacto.
[CP]: A fuga de talentos é uma questão permanentemente. Temos assistido à emigração de muitos jovens que, lá fora, alcançam melhores salários, empregos e condições económicas e sociais distintas das de Portugal. Como olha a ANJE para esta situação? O que pode o País fazer para inverter este cenário?
[BA]: É importante perceber que, no mundo global em que vivemos, irá sempre existir emigração com a consequente fuga de talentos. O que a mim me entristece, é a saída de pessoas que na verdade gostariam de ficar em Portugal por não encontrarem cá as condições de trabalho, progressão e qualidade de vida que encontram noutros países. Na ANJE acreditamos que são necessárias respostas no plano individual, através de políticas públicas que melhorem o rendimento líquido, como a revisão do IRS Jovem entre outros exemplos; no plano empresarial, com verdadeira simplificação fiscal e burocrática, para as empresas conseguirem oferecer melhores salários, mais estabilidade e oportunidades de progressão; e no plano colectivo, onde é essencial criar um ecossistema diferente em Portugal com uma cultura de admiração perante o investimento e não o seu contrário. A ANJE tem, também aqui, o seu papel.
[CP]: A nível de mão-de-obra estrangeira, como analisa a importância dela na economia nacional e de que forma temos trabalhado numa estratégia coesa?
[BA]: A mão-de-obra estrangeira tem um papel essencial na economia nacional, não só para suprir carências de recursos humanos em diversos sectores, mas também para trazer diversidade, novas competências e dinamismo ao mercado de trabalho. É fundamental existir um verdadeiro apoio a estas pessoas no seu processo de adaptação e integração, bem como aplicar políticas de retenção de talento estrangeiro e qualificado. Só assim conseguiremos que quem escolhe Portugal como destino veja aqui uma oportunidade de vida a longo prazo.
[CP]: Com a crise política actual, como analisa a ANJE a situação económica e como pode esta instabilidade impactar na economia?
[BA]: A instabilidade política tem sempre um impacto directo na economia, sobretudo ao nível da confiança – tanto dos investidores como dos empresários. O que mais receamos é a retracção do investimento, principalmente o internacional, e a consequente redução do crescimento económico, num momento em que o País precisa exatamente do contrário: estabilidade, previsibilidade e ambição estratégica.
[CP]: Enquanto Directora da Zona Centro da ANJE, quais têm sido as prioridades do trabalho na região por parte da ANJE?
[BA]: O meu foco está em aproximar a ANJE dos empresários da região, mas também em aproximá-los entre si, criando uma rede de apoio e partilha onde todos possam crescer juntos. Também como empresária, acredito profundamente que aprendemos muito com as experiências uns dos outros e que a força da rede é uma das maiores ferramentas para enfrentar os desafios do empreendedorismo. Há também um enorme trabalho a desenvolver no apoio e valorização do empreendedorismo feminino: descobrir, valorizar e encorajar as mulheres, muitas delas mães, que decidem empreender, provocando diariamente uma alteração profunda no antigo contexto e cultura portuguesa. Vejo esta região como um território com imenso potencial, com muito caminho para andar e com vontade de fazer diferente. O nosso desafio agora é transformar esse potencial em impacto real, e é isso que me move todos os dias neste projecto.
[CP]: Sobre a Região Centro – onde se inclui Coimbra – como analisa o tecido económico e empresarial e a penetração de jovens empresários nesta zona? É uma região cada vez mais capacitada e atrativa?
[BA]: Após vários anos de alguma estagnação, sinto que em Coimbra volta a fervilhar uma vontade de se afirmar enquanto território cada vez atractivo e vanguardista. Sinto sinais positivos de dinamismo, inovação e abertura a novas formas de fazer negócio. Em sectores como a tecnologia, saúde, indústria criativa e turismo encontro vários projectos liderados por jovens empresários cheios de visão, talento e ambição. Confesso que me motiva. Esta região tem vantagens claras: universidades de referência, elevada qualidade de vida a custos competitivos, e uma ligação interessante entre tradição e inovação. O desafio agora é garantir que esse potencial é aproveitado com políticas certas e com redes que sustentem o crescimento.
Entrevista: Ana Clara (Jornalista do “Campeão” em Lisboa)
Publicada na edição em papel do Campeão das Províncias de 1 de Maio de 2025