Oh Portugal, terra de brumas e luz, de vozes que ecoam no vento salgado, de mãos calejadas que moldaram o mundo com fé e coragem. Tu que nasceste entre vales, montes e marés, guardião do poente, foste farol da humanidade quando o mundo era escuro, e ainda hoje brilhas, mesmo quando querem apagar a tua chama com estatísticas secas e leis distantes do teu coração…
Oh Portugal, terra de navegadores, berço de sonhos que cruzaram oceanos, nação forjada pelo sal do mar e pela coragem dos que ousaram ir além do horizonte! Hoje, diante da realidade cruel de um salário mínimo que envergonha a dignidade do teu povo, ergue-se uma certeza: a tão falada União Europeia revela-se, afinal, desunida, desigual, míope nas suas promessas de coesão e prosperidade partilhada.
Não és pequeno, Portugal. Foste desenhado com a bússola da ousadia, não com réguas de contabilistas. És um dos maiores da Europa, não em arranha-céus ou PIB, mas em mar, em alma, em legado! O teu território marítimo – vasto como o sonho do Infante – estende-se como um manto azul à tua volta, abraçando-te com a promessa de futuro. E mesmo assim, vês-te reduzido, limitado, acorrentado a directivas que não conhecem a tua história, que não sentem o teu pulsar.
Oh Portugal, foste tu que abriste o mundo! Foste tu que ensinaste as estrelas aos navegantes e traçaste com mestria as rotas que uniram continentes. És mais do que um nome no mapa, és memória viva da ousadia, és identidade forjada na travessia do desconhecido. Não és pequeno – és imenso, és oceânico! És Europa e és mundo.
A tua alma é mais vasta que o continente que te tenta subjugar com métricas frias e burocracias que nada compreendem da tua essência. O Eurostat lançou números como lanças: 870 euros de salário mínimo. Um valor que não dá para viver, apenas para sobreviver – e mal, muito mal. Enquanto os ventres de outras nações se saciam com mais de 2.000 euros, tu jejuas em nome da estabilidade alheia. Enquanto Luxemburgo, Irlanda e Alemanha garantem conforto e dignidade, tu vês os teus jovens partir e os teus velhos definhar em silêncio.
Mas não, Portugal, tu não foste feito para mendigar. Foste feito para descobrir, para criar, para inspirar. És filho do mar, irmão do vento, e pai de tantos mundos que só existem porque um dia ousaste atravessar o impossível. Tens em ti mais força do que te permitem usar, mais riqueza do que te deixam explorar, mais voz do que te escutam. E se um dia te libertares das amarras – políticas, económicas, mentais – verás como podes superar até a tua própria história, essa que já é das mais grandiosas da Terra. O que serias, Portugal, se fosses livre de investir nos teus mares, de colher o que semeias com suor e esperança? Que país serias tu, se não fosses travado por cordas finas feitas de papel e hipocrisia? És Nação, és Pátria, és Promessa. Mas não és colónia da austeridade nem servo de tratados que ignoram o teu povo. És gigante adormecido, pronto a erguer-se. É preciso coragem – como a dos teus navegadores – para dizer basta. Para exigir dignidade. Para lembrar à Europa que a união sem justiça é só conveniência, e que uma casa comum não pode ter filhos de segunda linha.
Portugal, acorda! Que a tua juventude não fuja mais, que o teu povo viva com orgulho e não com aperto. Que os teus mares deixem de ser fronteira e voltem a ser caminho. E que o mundo, mais uma vez, olhe para ti e veja não um país pequeno à beira-mar plantado, mas um império de alma, um oceano de possibilidades, uma Pátria com lugar de honra também no presente e no futuro da humanidade. Chegou o tempo de voltarmos a erguer as velas, desta vez rumo à soberania da dignidade.
(*) Doutorando da FMUC