Joaquim Costa e Nora é, para muitos, o rosto sereno e comprometido da Confraria da Rainha Santa Isabel. Presidente desde 2019 tem assumido esta missão com humildade, dedicação e profundo sentido de responsabilidade. A sua ligação à Confraria, contudo, remonta a há mais de uma década – cerca de 15 anos de entrega silenciosa e constante à devoção de uma figura que marca, com força e ternura, o imaginário de Coimbra e de Portugal.
Campeão das Províncias [CP]: Qual a razão deste ser um ano importante para a Confraria da Rainha Santa Isabel?
Joaquim Costa e Nora [JCN]: Este ano reveste-se de particular importância para a Confraria da Rainha Santa Isabel, não apenas pelo simbolismo associado às suas celebrações, mas também pela coincidência de efemérides de grande relevo histórico e espiritual. A Confraria tem como um dos seus principais propósitos enaltecer a figura de Santa Isabel de Portugal, num ano em que se assinalam os 400 anos da sua canonização pelo Papa Urbano VIII. Acresce a esta celebração o facto de se comemorarem, igualmente, os 700 anos da peregrinação da Rainha Santa a Santiago de Compostela – um episódio marcante da sua vida e da história espiritual da Península Ibérica, que continua a inspirar fiéis e estudiosos pela sua dimensão de fé e de coragem. A estes acontecimentos junta-se ainda o facto de estarmos a viver um Ano Jubilar, proclamado pelo Papa Francisco – cuja recente partida para a Casa do Pai confere, aliás, um peso ainda mais emotivo a este tempo de reflexão e comunhão.
[CP]: A Confraria tem preparado um programa para assinalar essas efemérides?
[JCN]: A Confraria da Rainha Santa Isabel tem vindo a assinalar estas efemérides desde 25 de Maio de 2024, data em que se completaram 399 anos da canonização da padroeira. Desde então, mensalmente, temos promovido celebrações e iniciativas culturais, com destaque para o Ciclo Coral e Instrumental que decorre nos espaços do Mosteiro de Santa Clara-a-Nova que pertencem à Confraria, trazendo ao longo dos meses diversos grupos corais e instrumentais de Coimbra e da sua região. Paralelamente, publicámos edições acessíveis de pequenos livros comemorativos e fizemos o lançamento de uma moeda evocativa dos 400 anos da canonização. Em colaboração com o Museu Nacional de Machado de Castro e a Imprensa da Universidade de Coimbra, será ainda publicada brevemente uma edição fac-similada da primeira biografia da Rainha Santa Isabel, da autoria do seu confessor, cuja cópia manuscrita se conserva no referido museu, que foi digitalizada e está a ser cuidadosamente restaurada. Neste Ano Jubilar decretado pelo Papa Francisco, a Igreja da Rainha Santa Isabel será reconhecida como segunda igreja jubilar da Diocese de Coimbra Estas celebrações adquirem especial relevância num ano em que se assinalam igualmente os 700 anos da peregrinação da Rainha San ta a Santiago de Compostela, feita já em estado de viuvez, após a morte de D. Dinis. A dimensão espiritual e histórica desta viagem é central no programa que temos vindo a desenvolver. Acresce que, neste Ano Jubilar decretado pelo Papa Francisco, a Igreja da Rainha Santa Isabel será, de forma extraordinária, reconhecida como segunda igreja jubilar da Diocese de Coimbra, ac lhendo em 30 de Maio, uma peregrinação dedicada aos mais débeis, nomeadamente das IPSSs e das Santas Casas da Misericórdia da Diocese. Trata-se de um gesto profundamente simbólico, em per feita sintonia com o legado da Rainha Santa, cuja vida foi marcada pela fé, pela pro moção da paz e pela atenção incansável aos mais pobres.
[CP]: A Confraria dedica-se por isso mesmo à ajuda aos mais desfavorecidos?
[JCN]: Ao longo da sua história, a Confraria não se limitou a promover a devoção à sua padroeira, mas pro curou também concretizar, de forma prática, o espírito de caridade e justiça social que ela tão exemplarmente encarnou. Prova disso é o facto de duas instituições de grande relevância em Coimbra terem nascido no seio da Confraria: as Cozinhas Económicas Rainha Santa Isabel e a Casa de Formação Cristã Rainha Santa Isabel. Ambas resultaram de iniciativas concretas da Confraria, ainda que, com o tempo, tenham adquirido tal dimensão e autonomia que a sua manutenção na estrutura da Confraria se tornou impraticável, passando a funcionar como entidades independentes, mas mantendo o vínculo histórico e espiritual à sua origem. As Cozinhas Económicas continuam a desempenhar um papel insubstituível, fornecendo refeições diárias a pessoas em situação de vulnerabilidade social, enquanto a Casa de Formação tem acolhido, ao longo das décadas, crianças e jovens – sobretudo meninas – em risco, proporcionando-lhes um ambiente seguro, educativo e estruturante. Embora hoje em dia o fenómeno do abandono infantil seja menos visível do que no passado, persistem muitas situações de carência e desestruturação familiar que justificam plenamente a continuidade desta missão. Em suma, a Confraria da Rainha Santa Isabel honra a memória da sua padroeira não apenas através do culto e da celebração, mas sobretudo pela acção concreta junto dos mais frágeis, perpetuando a sua mensagem de fé, paz e amor ao próximo.
[CP]: Os “Casamentos da Rainha Santa” foram retomados…
[JCN]: Apesar de menos conhecida do que a celebração lisboeta dos Casamentos de Santo António, esta tradição teve origem em Coim bra, inspirada pelo espírito de solidariedade da Rainha Santa. A sua reactivação nos anos 1970 contou com o apoio do então Presidente da Câmara, Eng.º António Moreira, e do Presidente da República, General Ramalho Eanes, permitindo proporcionar a vários casais não só a bênção do matrimónio, mas também um reencontro com a fé. Este ano, ano ímpar, a Confraria volta a organizar os casamentos, que terão lugar a 6 de Julho, excepcional mente depois do dia da Solenidade, devido ao calendário especial das comemorações em honra da Rainha Santa, que inclui também a solene mostra da sua mão, entre 17 de Junho e 2 de Julho. A cerimónia será celebrada na Igreja da Rainha Santa Isabel, pelo capelão da Confraria, Padre Manuel Carvalheiro, pároco de Santa Clara e da Unidade Pastoral Rainha Santa Isabel. Serão seleccionados até sete casais, de modo a garan tir uma celebração condigna e acolhedora. Esta iniciativa conta com o apoio de di versas entidades, incluindo o Município de Coimbra, o Turismo Centro de Portugal, a Ahresp Coimbra e a E.H.T.C., bem como o tecido comercial local, com especial destaque para os profissionais do sector nupcial, que generosamente oferecem vestidos, fatos, alianças e calçado. O brinde nos claustros e o corte do bolo, oferecidos por estabelecimentos da cidade, encerram com elegância esta celebração profundamente simbólica. A Confraria assegura os custos dos processos matrimoniais, garantindo que nenhum casal deixe de celebrar o seu amor por razões económicas,.
[CP]: Também se reali zam este ano as duas procis sões da Rainha Santa.
[JCN]: Trata-se de uma realização excepcional, uma vez que, tradicionalmente, as procissões da Rainha Santa Isabel apenas se realizam de dois em dois anos, nos anos pares. Esta opção remonta ao final do século XIX, quando, apesar de anteriormente se realizarem anualmente, a continuidade da tradição se tornou insustentável para os comerciantes de Coimbra, que então suportavam grande parte dos encargos logísticos e financeiros. Durante o período da pandemia de covid-19, nomeadamente em 2020, as procissões não puderam realizar-se. Em 2021, apesar da vontade, as circunstâncias sanitárias ainda não permitiram o seu regresso, o que contribuiu para a interrupção da cadência habitual. Este ano, no entanto, atendendo à relevância das efemérides que se assinalam, entendeu-se ser plenamente justificado o esforço suplementar da Confraria e de todos quantos colaboram na concretização destas manifestações de fé e devoção, realizando-se assim, de for ma excepcional, as procissões num ano ímpar. Mantendo-se, contudo, o seu enquadramento litúrgico habitual, a Procissão da Penitência terá lugar na quinta-feira seguinte ao dia da Solenidade da Rainha Santa Isabel, ou seja, a 10 de Julho, e o regresso solene da imagem ao Mosteiro de Santa Clara ocorrerá no do mingo seguinte, dia 13.
[CP]: A Confraria, para além de confrades, tem irmãos e irmãs. Como se processa isto?
JCN]: Actualmente, estima-se que existam “activos” cerca de mil irmãos e irmãs, embora a lista total alcance os seis mil nomes, incluindo muitos que, mesmo residindo longe, fazem questão de se inscrever após visitarem o santuário da Rainha Santa Isabel. Dentro da Confraria, existe um grupo mais restrito, de confrades e confreiras — irmãos com maior envolvimento na vida e administração da instituição —, cujo número é estatutariamente limitado a 100. O ingresso faz-se através de concursos periódicos, abertos a todos os irmãos, e desde 2015 é exigido que uma parte dos confrades possua o grau de doutor pela Universidade de Coimbra, em reconhecimento da forte ligação histórica entre a Confraria e a Universidade. O último concurso con tou com 36 candidatos para 20 vagas, um número que obrigou a uma selecção difícil, deixando vários irmãos de fora.
ENTREVISTA: Luís Santos / Joana Alvim
Publicada na edição em papel do Campeão das Províncias de 24 de Abril de 2025