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Associação Avoar usa a Arte para promover a Literacia

21 de Abril 2025 Jornal Campeão: Associação Avoar usa a Arte para promover a Literacia

“O saber não ocupa lugar” é o provérbio que melhor descreve a visão da Avoar – Associação para a Educação Artística e as Literacias. O projecto promove o ensino através da Arte, e actua, sobretudo, junto de populações desfavorecidas em Portugal e a nível internacional. O objectivo é simples: trabalhar a palavra com aqueles que não têm discurso em casa.

“A palavra faz toda a diferença para uma pessoa. Quem a dominar pode almejar o que quiser”, sublinha Rui Andrade, presidente da Associação Avoar, em declarações ao “Campeão”. Foi essa vontade de levar a leitura aos mais pequenos que o fez mudar o rumo da sua vida. Depois de 23 anos dedicado à gestão de recursos humanos, decidiu criar uma empresa onde a leitura e as Artes deram as mãos.

Começou por fundar um serviço educativo de literacia emergente dedicado a crianças a partir dos dois anos de idade, até entrarem no ensino primário. “Falamos de literatura para a idade pré-leitura, portanto, trata-se de trabalhar o texto e a palavra com meninos que ainda não sabem ler”, explica. Pouco depois da sua criação, o Programa de Literacia Emergente (PROL) foi distinguido com o selo Ler+ do Plano Nacional de Leitura. Para Rui Andrade, esta acção significou que algo estava a mudar.

“Só agora é que o Ministério da Educação e os municípios estão a pensar que, de facto, é muito importante trabalhar o texto com crianças que ainda não sabem ler. Atenção, não é ensiná-los a ler mais cedo. É dar-lhes vocabulário”, assegura. O certo é que o programa acabou por ser integrado em jardins-de-infância, abrindo portas àquele que viria ser um novo projecto: a Avoar.

“Criámos a Avoar a pensar nas crianças que vêm de meios mais desfavorecidos e que não têm discurso em casa”, assume. A iniciativa foi trilhando o seu caminho e, apesar de ter nascido em Castelo de Vide, rapidamente chegou a todo o país e, mais tarde, voou para o mundo. “Temos estado também a trabalhar com meninos de Moçambique, Índia e Cabo Verde”, conta o responsável.

 

“A Arte é tudo”

A Avoar é, desde 2019, uma Organização Não Governamental para o Desenvolvimento (ONGD), com estatuto de utilidade pública. A Literacia chega ao seu público-alvo através da literatura, artes plásticas, dança, teatro, cinema e música. De acordo com Rui Andrade, o trabalho da associação não poderia ser feito de outra forma, já que “a Arte é tudo; Abre muito a cabeça das pessoas: abre novos caminhos e novas perspectivas”.

Nesse sentido, além de ensinar, o projecto quer colocar crianças e jovens a pensar. Para isso, realiza várias actividades que chamam a atenção para temáticas actuais na sociedade. “Temos uma iniciativa que consiste na construção de livros. O primeiro, foi sobre a poluição; o segundo, sobre igualdade de género; e o terceiro, sobre as alterações climáticas”, conta o fundador. As obras foram desenvolvidas por crianças de Portugal, Índia e Moçambique.

Rui Andrade não esconde que acções como esta vêm preencher uma lacuna que, há muito, existe em termos educativos. “Nós vivemos num país onde as crianças têm todas direito à educação e têm manuais gratuitos, no entanto, há uma série de componentes que não são trabalhadas na escola (…) Continuamos com a escola da mesma forma que estava no século XIX”, alerta.

Deste modo, garante que é essencial pensar nas chamadas “competências transversais” e trabalhar, por exemplo, as emoções. “É preciso perceber como é que os professores se sentem em relação às aulas. Sabemos que esta é uma das profissões que mais causa problemas na área da saúde mental e, portanto, há muito a fazer. A Avoar faz o seu papel”, realça.

 

Contribuir para uma sociedade melhor

Para o seu eficaz funcionamento, a associação estabelece protocolos de cooperação, bem como parcerias com outras instituições, de forma a chegar a cada vez mais pessoas. Posteriormente, é importante captar a atenção dos participantes. “O projecto tem de ter algo que os entusiasme (…) No ano passado falei com cerca de 2500 crianças e jovens, porque faço questão de ser eu a dizer-lhes o que é que vamos fazer. É importante que eles se sintam incluídos no objectivo e que está ao alcance deles”, recorda o responsável.

As mais-valias da metodologia utilizada vão desde a melhoria na auto-estima à forte componente pedagógica. Segundo Rui Andrade, o feedback por parte dos mais novos não podia ser mais positivo. “Eles dizem que este projecto é bom para promover a leitura, porque eles vão ficar mais próximos do livro e, depois, esse livro vai chegar a outras pessoas. Dizem também que gostam das oficinas e laboratórios que fazemos com eles”, adianta.

Não obstante, todas as actividades levadas a cabo pela Avoar têm ajudado a que milhares de crianças e jovens descubram novos gostos pessoais. “O autoconhecimento é um dos pontos mais importantes, mas não só. A resiliência e o trabalhar de emoções também”, frisa ainda.

Para além da audiência juvenil, a associação actua cada vez mais junto de idosos e outros públicos excluídos ou socialmente desfavorecidos, promovendo “o relacionamento entre os povos no sentido da construção da paz”. Rui Andrade não tem, por isso, dúvidas: promover a Literacia é promover gerações mais capazes de contribuir para uma sociedade melhor. “Quanto mais soubermos, mais capazes somos de olhar para o futuro de uma forma positiva”, conclui.