Coimbra  17 de Março de 2026 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

Hernâni Caniço

Um caso clínico

18 de Abril 2025

Um doente fez uma cirurgia cardíaca num hospital do SNS em Lisboa, que correu muito bem, com elevado risco de complicações, pelo que necessitava vigilância apertada em Coimbra, onde residia, e de fazer um penso no fim-de-semana. Não havendo serviço público para esse efeito, o doente recorreu a hospital privado, onde lhe foi dado acesso a cuidados de enfermagem, apenas após ter pago consulta médica.

Em continuidade, desenvolveu febre, um dos sinais pelos quais deveria recorrer de imediato a cuidados médicos, dado o risco (quase sempre fatal) de fístula aurículo-esofágica, que necessitaria cirurgia emergente. Chamou o INEM, que chegou após 30 minutos, foi conduzido ao hospital central de Coimbra; após 15 minutos foi chamado para triagem, onde lhe foi atribuída a pulseira amarela (urgente, mas não emergente).

De seguida, esperou 2 horas pelo primeiro atendimento médico, seguiram-se exames, sendo chamada especialista de Cardiologia apenas 3h30m depois, e observado mais 4h30m depois. A Cardiologia, após observação e exames da especialidade, em 1h37m, excluiu complicações cirúrgicas. A Medicina Interna, em 2m, concluiu ser quadro infeccioso de causa provável virusal, tendo alta.

Foram necessárias 12h35m para avaliar uma situação que, a confirmar-se, seria catastrófica, fatal. Intercalarmente, o doente foi ignorado pelo pessoal de enfermagem (apenas contactos agressivos, e limitação de visita por acompanhante, a contragosto), enquanto via vários doentes sentados em cadeiras, toda a noite, com tratamentos administrados, e outra doente ao seu lado, gritando desalmadamente a noite inteira, em sofrimento.

Não se duvida da competência dos médicos (e simpatia demonstrada) nem dos enfermeiros (e antipatia demonstrada), questiona-se o tempo necessário que pode separar a vida da morte, e o número de elementos das equipas em serviço.

O hospital privado obriga a consulta médica para fazer um penso por enfermagem, obviamente para facturação acrescida.

Preparação burocrática por algoritmos

O INEM funcionou, ao seu ritmo, não comparável a recente episódio (de responsabilidade governativa) em que não foram acautelados os serviços mínimos em dia de greve, com relação directa com mortes, segundo relatório da inspecção de saúde.

A triagem (de Manchester) que deveria ser feita pelos médicos mais qualificados, é feita por pessoal de enfermagem, para a qual tem apenas preparação burocrática por algoritmos (o tempo salva ou mata).

As especialidades médicas têm sobrecarga de trabalho, e a administração apresenta os seus quadros de excelência (que não do trabalho médico), ignorando o abandono dos médicos e enfermeiros do SNS, que fogem para serviços privados ou para o estrangeiro, onde são respeitados, reconhecidos, devidamente pagos, por vezes também explorados como no SNS.

O Hospital Geral Central dos Covões já não existe, e tem um simulacro de serviço de urgência também em extinção.

Com a visão de António Arnaut e Mário Mendes, foi a minha geração que criou o SNS, ao fazer saúde pública e serviço médico à periferia, levando médicos onde muitas pessoas nunca tinham visto tal. Fui médico, lavei o chão, esterilizei material, trabalhei 80 horas por semana, fui a domicílios pela terra e lama, matei insectos e répteis, apanhei pulgas e vermes, …mas nunca direi mal do SNS.

Mas não sou obrigado a elogiar o SNS que alguns querem destruir, o saque de alguns hospitais privados, o espírito de sacrifício dos profissionais esgotados, os doentes tratados como objectos, as mortes evitáveis, a aberração de não vá… telefone!

(*) Médico e vereador do PS na Câmara de Coimbra