Um doente fez uma cirurgia cardíaca num hospital do SNS em Lisboa, que correu muito bem, com elevado risco de complicações, pelo que necessitava vigilância apertada em Coimbra, onde residia, e de fazer um penso no fim-de-semana. Não havendo serviço público para esse efeito, o doente recorreu a hospital privado, onde lhe foi dado acesso a cuidados de enfermagem, apenas após ter pago consulta médica.
Em continuidade, desenvolveu febre, um dos sinais pelos quais deveria recorrer de imediato a cuidados médicos, dado o risco (quase sempre fatal) de fístula aurículo-esofágica, que necessitaria cirurgia emergente. Chamou o INEM, que chegou após 30 minutos, foi conduzido ao hospital central de Coimbra; após 15 minutos foi chamado para triagem, onde lhe foi atribuída a pulseira amarela (urgente, mas não emergente).
De seguida, esperou 2 horas pelo primeiro atendimento médico, seguiram-se exames, sendo chamada especialista de Cardiologia apenas 3h30m depois, e observado mais 4h30m depois. A Cardiologia, após observação e exames da especialidade, em 1h37m, excluiu complicações cirúrgicas. A Medicina Interna, em 2m, concluiu ser quadro infeccioso de causa provável virusal, tendo alta.
Foram necessárias 12h35m para avaliar uma situação que, a confirmar-se, seria catastrófica, fatal. Intercalarmente, o doente foi ignorado pelo pessoal de enfermagem (apenas contactos agressivos, e limitação de visita por acompanhante, a contragosto), enquanto via vários doentes sentados em cadeiras, toda a noite, com tratamentos administrados, e outra doente ao seu lado, gritando desalmadamente a noite inteira, em sofrimento.
Não se duvida da competência dos médicos (e simpatia demonstrada) nem dos enfermeiros (e antipatia demonstrada), questiona-se o tempo necessário que pode separar a vida da morte, e o número de elementos das equipas em serviço.
O hospital privado obriga a consulta médica para fazer um penso por enfermagem, obviamente para facturação acrescida.
Preparação burocrática por algoritmos
O INEM funcionou, ao seu ritmo, não comparável a recente episódio (de responsabilidade governativa) em que não foram acautelados os serviços mínimos em dia de greve, com relação directa com mortes, segundo relatório da inspecção de saúde.
A triagem (de Manchester) que deveria ser feita pelos médicos mais qualificados, é feita por pessoal de enfermagem, para a qual tem apenas preparação burocrática por algoritmos (o tempo salva ou mata).
As especialidades médicas têm sobrecarga de trabalho, e a administração apresenta os seus quadros de excelência (que não do trabalho médico), ignorando o abandono dos médicos e enfermeiros do SNS, que fogem para serviços privados ou para o estrangeiro, onde são respeitados, reconhecidos, devidamente pagos, por vezes também explorados como no SNS.
O Hospital Geral Central dos Covões já não existe, e tem um simulacro de serviço de urgência também em extinção.
Com a visão de António Arnaut e Mário Mendes, foi a minha geração que criou o SNS, ao fazer saúde pública e serviço médico à periferia, levando médicos onde muitas pessoas nunca tinham visto tal. Fui médico, lavei o chão, esterilizei material, trabalhei 80 horas por semana, fui a domicílios pela terra e lama, matei insectos e répteis, apanhei pulgas e vermes, …mas nunca direi mal do SNS.
Mas não sou obrigado a elogiar o SNS que alguns querem destruir, o saque de alguns hospitais privados, o espírito de sacrifício dos profissionais esgotados, os doentes tratados como objectos, as mortes evitáveis, a aberração de não vá… telefone!
(*) Médico e vereador do PS na Câmara de Coimbra