Coimbra  19 de Janeiro de 2026 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

João Ferreira

Coimbra, capital do tempo e da alma: minha Coimbra, capital de tudo

18 de Abril 2025

Coimbra, luz que não cessa,

Rainha de saber e cor,

És na alma portuguesa a promessa,

De um país maior no teu amor.

Ó Coimbra, cidade do Mondego e da memória! Tu que foste berço de reis, guardiã de saberes e derradeiro altar da portucalidade – como não te chamar capital? Em ti, o tempo repousa e reinventa-se. És mais do que pedra e paisagem, varandas sobre o rio, mais do que estreitas ruas carregadas de risos e choros calados pelo implacável tempo. És essência. Foste capital do Reino quando Portugal dava os seus primeiros passos enquanto nação. De ti governou-se o país em formação, entre as muralhas da tua velha alcáçova e os claustros da tua Sé Velha. Aí, onde hoje ecoa o fado em vozes de capa e batina, ecoaram outrora decisões que moldaram a história.

Coimbra é onde o passado ainda respira, e onde o futuro se escreve todos os dias. E, no entanto, hoje questionam-te, como se precisasses provar o que sempre foste: capital em tudo, menos no estatuto actual. Mas que título poderia conter tamanha grandeza? És capital do saber.

A tua Universidade – fundada em 1290, entre as mais antigas da Europa – não é apenas instituição, é monumento vivo da inteligência portuguesa. Nas tuas salas e laboratórios, nas tuas bibliotecas e pátios, formaram-se pensadores, cientistas, políticos, juristas, engenheiros e médicos que espalharam o nome de Portugal pelos quatro cantos do mundo. E o Penedo da Saudade guarda os nomes e os versos de quem por ti passou e nunca mais te esqueceu.

És capital da cultura. Do Teatro Académico de Gil Vicente ao Conservatório, dos festivais de jazz às semanas culturais que enchem de vida as tuas noites, pulsa Coimbra com arte e criação. O teu Fado, distinto e sereno, é Património Imaterial da Humanidade, e canta, com voz doce e dorida, a alma de um povo inteiro. És capital da saúde.

Com os Hospitais da Universidade de Coimbra, referência nacional e internacional, com centros de investigação médica de excelência, acolhes os doentes de todo o país e formas os profissionais que os cuidam. És onde se aprende a salvar vidas. És capital de inovação e ciência. No Instituto Pedro Nunes, no Biocant Park, nas startups que nascem à tua sombra, brota o futuro. Coimbra não vive de glórias passadas – cultiva o amanhã com mãos firmes e mente desperta, felina.

E mesmo na tua geografia, Coimbra és capital natural. És centro – literal e simbólico – de um país que se inclina demasiadas vezes para os extremos. Estás entre o litoral e o interior, entre o Norte e o Sul, entre o mar e a serra. Nenhuma outra cidade liga tanto, une tanto, representa tanto. Hoje, a tua Comunidade Intermunicipal – a CIM Região de Coimbra – é a maior do país, com 440 mil habitantes distribuídos por 19 municípios de três distritos distintos: Coimbra, Aveiro e Viseu. Este corpo plural, rico, único e interligado é mais do que um território: é uma identidade regional que merece ser reconhecida como Área Metropolitana. Lisboa e Porto já o são – e bem. Mas Coimbra tem igual ou maior legitimidade. Tem a massa crítica, a diversidade económica, a história, o potencial. Não pode continuar esquecida numa categoria administrativa que a diminui. Enquanto o Minho reforça a sua voz com o novo “Pentágono Urbano” – um louvável esforço de afirmação – Coimbra já tem o conteúdo, falta-lhe apenas o reconhecimento.

Não é hora de hesitar. É hora de dizer com clareza: Coimbra é, e deve ser, área metropolitana! Porque já o é em tudo o que importa. E tu, Coimbra, com a tua Baixa encantada e as tuas colinas coroadas de história, com o teu rio que embala segredos e sonhos, és chamada, não apenas a recordar o que foste, mas a assumir o que ainda és: uma capital sem par. Não há decreto que te retire esse estatuto. Nenhum documento pode negar o que o tempo confirma e o coração sente. Porque capital não é só quem manda – é quem inspira, quem forma, quem transforma.

Coimbra é capital do tempo, da memória e do futuro.

É capital do espírito português.

É capital. Sempre foi. E sempre será.

Para o leitor, com estima:

A Metamorfose: Alienação, Culpa e Desumanização no Universo de Kafka. Publicado em 1915, A Metamorfose, de Franz Kafka, é um conto perturbador que mergulha o leitor numa realidade onde o absurdo se cruza com a dor silenciosa do existir. Narra-nos a transformação repentina de um homem de família num monstruoso insecto, Kafka cria uma metáfora sobre a alienação familiar, a pressão social e a perda de identidade… Com uma escrita rica e carregada de simbolismo, estimula-nos sentimentos de claustrofobia e inquietação, revelando uma genial crítica feroz às dinâmicas opressivas dos tempos modernos. Contudo, o ritmo do texto e o seu teor existencial podem afastar leitores menos habituados a uma prosa introspetiva e filosófica. (Explorando os limites da condição humana e o peso do olhar social, A Metamorfose reafirma a literatura como um espelho inquietante da nossa própria vulnerabilidade).

(*) Doutorando na FMUC