Carlos Antunes é uma figura central no panorama artístico e arquitectónico português. O director do Círculo de Artes Plásticas de Coimbra (CAPC) tem desempenhado um papel essencial na dinamização cultural da cidade. Em 2015, fundou, juntamente com Désirée Pedro, a Bienal de Arte Contemporânea de Coimbra – Anozero, consolidando o evento como uma referência internacional. É arquitecto, professor convidado no Departamento de Arquitectura da Universidade de Coimbra e tem um percurso premiado, destacando-se no cruzamento entre arte, arquitectura e pensamento contemporâneo. A poucos dias de inaugurar “ A fábrica das Sombras” de Janet Cardiff e George Bures Miller, Coimbra prepara-se para receber mais uma grande exposição internacional que poderá ser visitada de 5 de Abril a 5 de Julho.
Campeão das Províncias [CP]: Como surgiu a ideia de criar a Bienal de Arte de Coimbra, fundada em 2015 e agora a celebrar 10 anos de existência?
Carlos Antunes [CA]: A Bienal de Arte de Coimbra nasceu da relevância do Círculo de Artes Plásticas, sua estrutura-mãe, que desde 1958 tem sido um espaço fundamental para a vanguarda artística em Portugal. Ao longo das décadas, o Círculo foi um ponto de encontro de grandes nomes da arte contemporânea, com períodos de maior e menor dinamismo.
A criação da Bienal surgiu do desejo de recentrar Coimbra e o Círculo no debate sobre arte contemporânea, num momento em que a Universidade e a Alta foram classificadas como Património Mundial da Humanidade. Esta distinção trouxe consigo a responsabilidade de evitar que a cidade se cristalizasse no passado e garantisse um futuro dinâmico e inovador. O risco de Coimbra se tornar um “corpo morto”, como aconteceu noutros locais classificados pela UNESCO, tornou evidente a necessidade de iniciativas que mantivessem a cidade activa.
Assim, nasceu a Bienal com o nome Ano Zero, simbolizando um novo começo para Coimbra. A proposta foi apresentada à Câmara Municipal e à Universidade, que a acolheram com entusiasmo, permitindo que a Bienal crescesse e consolidasse a sua ambição.
[CP]: O Anozero é já o evento de arte contemporânea mais visitado do país, com uma média de 100 mil visitantes por edição. Que estratégias foram essenciais para alcançar este nível de envolvimento público?
[CA]: É difícil afirmar categoricamente que o Anozero é o evento de arte contemporânea mais visitado do país, mas é, sem dúvida, um dos mais relevantes. Para se ter uma ideia, no encerramento da última edição, com a exposição de Ragnar Kjartansson, reunimos cerca de 3.000 pessoas num único dia – um número extraordinário para uma exposição de artes plásticas. A estimativa de 100.000 entradas por edição é baseada nos registos dos diversos espaços expositivos, mas é importante ter transparência: trata-se de um número de entradas e não necessariamente de visitantes únicos, já que muitas pessoas percorrem vários espaços e podem ser contabilizadas mais de uma vez. Ainda assim, os números mostram um envolvimento massivo do público.
Quanto às estratégias que permitiram alcançar este nível de adesão, o mais importante foi reforçar a auto-estima da cidade e do seu território. Um projecto cultural pode ter um impacto transformador numa pequena aldeia, numa cidade, numa universidade ou até numa região inteira. Acredito que o Anozero tem desempenhado esse papel em Coimbra: criou um sentimento de pertença que fez com que os próprios cidadãos se tornassem os seus maiores promotores. As pessoas sentem que o evento lhes pertence e, por isso, voltam, trazem família e amigos, organizam visitas e programas de fim-de-semana.
Uma das frases que mais ouvimos dos visitantes é: “Quando venho à Bienal, sinto que podia estar em qualquer parte do mundo”. O maior perigo para um território é a autolimitação, a ideia de que um certo nível de ambição global não lhe pertence. Esse sentimento de exclusão cultural é devastador, porque apaga qualquer possibilidade de sonhar em grande. O Anozero tem ajudado a inverter essa lógica. Há cada vez mais pessoas a reconhecer que Coimbra pode estar no centro do debate artístico internacional. Esse é o verdadeiro impacto da Bienal.
[CP]: O Mosteiro de Santa Clara-a-Nova tem sido um palco central das bienais e exposições. Que impacto tem tido a presença da arte contemporânea neste espaço?
[CA]: Sentimos que era fundamental encontrar um espaço referencial para a Bienal, um lugar matricial que pudesse sustentar a nossa ambição. Não se trata de um desejo de ser grande por ser grande, mas de ter a relevância e de estar lado a lado com os maiores eventos do mundo. A nossa ambição não é apenas de escala, mas de impacto. Ao escolhermos um espaço único, arrebatador, garantimos que cada ano seja mais fácil em termos de infra-estruturas. Podemos dedicar mais recursos aos artistas e às obras, tornando o evento cada vez mais ambicioso artisticamente.
Esse espaço tornou-se a nossa grande âncora, essencial para atrair artistas de renome, como aconteceu com Ragnar Kjartansson, que, ao ver as imagens da Bienal, imediatamente desejou expor ali. O mesmo aconteceu com Zé Pedro Croft, um artista que já era nosso amigo, mas que também se encantou pelo local, reconhecendo nele uma oportunidade única. Não podemos ignorar a importância de um espaço tão diferenciado na reflexão sobre o futuro da Bienal. Ignorar essa oportunidade seria, no mínimo, imprudente.
[CP]: Como é desenhado o programa educativo e de formação em arte contemporânea?
[CA]: Esse é um dos grandes trunfos da Bienal. Contamos com uma equipa altamente qualificada, com experiência internacional, entre os quais se destaca Jorge Cabrera, responsável pelo serviço educativo. O seu trabalho tem sido notável, ao ponto de o Plano Nacional das Artes ter atribuído à Bienal de Coimbra o Grande Prémio de Serviço Educativo Nacional, superando algumas das maiores instituições culturais do país. Esse reconhecimento, recebido no Centro Cultural de Belém há cerca de dois meses, reflecte a excelência da sua actuação.
O programa educativo da Bienal abrange um público vasto, desde crianças do pré-escolar a estudantes universitários e à terceira idade, com iniciativas adaptadas a cada grupo. Até mesmo empresas recorrem à Bienal para formação dos seus quadros, reconhecendo na arte contemporânea um instrumento valioso de desenvolvimento profissional.
Mais do que um evento artístico, a Bienal inscreve-se no território através deste trabalho de mediação, essencial para aproximar o público da arte contemporânea. A arte, por natureza, provoca estranheza, mas há dois tipos de estranheza: a que afasta e rejeita — “isto até eu fazia” — e a que desperta curiosidade e fascínio. O grande desafio do serviço educativo da Bienal é transformar a primeira na segunda, promovendo o encanto pela descoberta.
[CP]: Por que foi escolhida a dupla Janet Cardiff & George Bures Miller para o Solo Show de 2025?
[CA]: Entre bienais organizamos exposições individuais para garantir visibilidade a cada artista, contrariando a tendência das grandes bienais onde, por vezes, os artistas se diluem no conjunto. Assim, decidimos que, nos anos intercalares, apresentaríamos exposições individuais, como fizemos com José Pedro Croft e Ragnar Kjartansson, cuja mostra foi considerada uma das mais importantes do ano em Portugal. Agora, recebemos Janet Cardiff & George Bures Miller, uma dupla de enorme prestígio internacional. O seu trabalho, profundamente ligado à memória, ao eco e ao espectro do passado, encaixa perfeitamente no edifício histórico onde será apresentado.
A exposição A Fábrica das Sombras inclui instalações imersivas que transcendem a arte tradicional, criando ambientes sonoros e visuais que envolvem o visitante. Uma das obras em destaque, The Infinity Machine, será apresentada pela primeira vez fora do continente americano. Criada para Houston, esta peça monumental, composta por 150 espelhos suspensos que giram ao som do cosmos, esteve armazenada durante uma década até agora.
[CP]: Como é que a ideia de “obra de arte total” se reflecte na exposição, num espaço com a carga histórica do Mosteiro de Santa Clara-a-Nova?
[CA]: O Mosteiro de Santa Clara-a-Nova não é um espaço neutro, como uma galeria de paredes brancas. Pelo contrário, ele desafia e ressignifica as obras de arte, enquanto estas também transformam o próprio espaço. Um exemplo claro é a peça de Ragnar Kjartansson na entrada do mosteiro: a relação complexa entre mãe e filho, que já carrega em si amor e tensão, ganha uma nova camada ao lado da Roda dos Expostos. O contexto histórico impregna a obra de novos significados, tornando-a diferente de qualquer outra apresentação em espaços convencionais.
Outro exemplo marcante é Forty Part Motet, de Janet Cardiff e George Bures Miller, uma peça sonora onde cada voz de um coro infantil é reproduzida individualmente por 40 colunas. O efeito cria a presença fantasmagórica dos cantores, unindo a sua ausência física à força da música. Esta instalação estabelece um diálogo subtil com The Visitors, de Ragnar Kjartansson, que explora uma ideia semelhante: a solidão de cada intérprete, reunida através da música. Ambas as obras mostram como a arte pode ter uma dimensão redentora, ligando o indivíduo ao mundo e aos outros.
Luís Santos/Joana Alvim