Coimbra  10 de Dezembro de 2025 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

Hernâni Caniço

A ortodoxia não passará

31 de Janeiro 2025

Fui aconselhado a estar quieto e sossegado, por estar a promover uma potencial união de forças políticas para candidatura à autarquia de Coimbra, da qual se autoexcluem os sectários e aqueles que julgam ter superioridade intelectual, mesmo que alguns dirigentes tenham nascido em democracia e desconheçam as agruras do fascismo.

Para alguns, é pouco conveniente mexer no “status quo” dos partidos políticos, porque pode levar a serem coarctadas ambições pessoais (porque não há lugar para todos), porque o debate ideológico e a definição de objectivos, estratégia e programa vão dar muito trabalho e há pouca preparação (digamos sapiência), e porque sempre foi assim, contam-se os anos de militância e invocam-se os méritos próprios e a ocupação anterior de cargos (mesmo que sejam de nomeação e não por eleição).

Os partidos políticos têm regras, designadas de estatutos, cujo cumprimento não só é abonatório como imperioso, para que haja estrutura organizada, haja competências para decidir, existam funções para exercer, debate interno para aprender e dar a conhecer, melhores resultados para obter, camaradagem para desenvolver.

Mas nos partidos políticos há (ou deve haver) o direito à liberdade de opinião, em que, perante determinada situação concreta (posições públicas sobre os assuntos da actualidade, propostas de intervenção diferenciadas, candidaturas a funções de Estado, corrida ao lugar por vezes de emprego), existem divergências que se procuram sanáveis, com bom senso, isenção e bonomia.

O Partido Socialista é um partido cujos militantes conciliam a responsabilidade de o ser, preservando a imagem do partido com a liberdade de reflectir, divergir e expor a expressão do pensamento, o que não significa que não haja quem procure, através da pressão interna ou das páginas dos jornais, denegrir a força política em que está integrado (voluntariamente), para retirar dividendos (sejam lá quais forem…).

Não estarei quieto nem sossegado, quanto ao uso do direito de opinião e fruição da liberdade, enquanto tiver capacidades de intervenção, domínio do conhecimento e análise política e saúde para permitir observação e interpretação séria.

Também fui convidado a ter juízo, decoro e respeito. Quanto ao juízo, estarei mais habilitado a conhecer o significado e as condições de exercício da mente do que quem seja mentecapto, o decoro está associado a educação, a saber estar, a decência e a dever de reserva, que nem todos possuem mesmo que sejam escrevinhadores em jornais, e tenho o respeito que é devido pela minha vetusta idade e posição social de compostura, admiração e honra, que alguns precisam aprender.

Há quem julgue que as proclamações de fidelidade política permitirão influenciar, dominar, ter ganho secundário. Pela minha parte, militante antifascista e ex-preso político durante a ditadura de Salazar e Caetano, continuarei livre e convicto militante do Partido Socialista, e não serei intimidado por qualquer criatura sem passado político relevante.

Quero crer que a ortodoxia política não passará. E continuo a acreditar que a melhor solução para Coimbra é derrotar as forças conservadoras de direita que estão no executivo autárquico, a fazer inaugurações à hora (muitas provenientes de projectos de executivos socialistas), a governar pelas redes sociais e a promover culto da personalidade, e levar à vitória uma coligação de esquerda com o Partido Socialista, sem presunção e com competências, progressista e pelo Desenvolvimento Sustentável de facto e não apenas slogans.

(*) Médico e vereador do PS na Câmara de Coimbra