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Miguel Cardina quer uma Esquerda forte e unida em Coimbra

26 de Janeiro 2025 Jornal Campeão: Miguel Cardina quer uma Esquerda forte e unida em Coimbra

Miguel Cardina é um nome que salta à vista no panorama académico e político português. Historiador e investigador no Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra tem-se destacado pelo seu trabalho na área das memórias cruzadas e das políticas do silêncio, especialmente no contexto do colonialismo, das lutas anticoloniais e da guerra colonial. Foi o responsável pelo projecto de investigação «CROME – Crossed Memories, Politics of Silence. The Colonial-Liberation Wars in Postcolonial Times», financiado pelo European Research Council (ERC). Mas Miguel Cardina não se fica pela academia. Enquanto membro das Coordenadoras Concelhia e Distrital, e da Comissão Política Nacional do Bloco de Esquerda, tem também uma forte intervenção cívica e política.

Campeão das Províncias [CP]: Estamos em contagem decrescente para as eleições autárquicas. O Bloco de Esquerda já tomou uma decisão em relação a Coimbra?

Miguel Cardina [MC]: Foi tomada uma decisão, o que não significa que todo o processo esteja encerrado. Trata-se de um percurso que contempla várias etapas. Importa salientar que esta candidatura não exclui a possibilidade de convergências à esquerda. O que significa isto? Trata-se de um caminho de diálogo, que tem sido mantido, inclusive, a nível nacional, com o partido LIVRE. Já tivemos reuniões com o LIVRE em Coimbra, e, como é sabido, as coligações são estabelecidas entre partidos.

A decisão de apresentar uma candidatura do Bloco de Esquerda nestes moldes foi tomada na Assembleia Concelhia da semana passada. Definimos também a realização, em abril, de um fórum de discussão que contribua para a definição de um programa socialista e ecologista para o concelho. Teremos agora uma nova Assembleia Concelhia, agendada para o próximo dia 29, onde serão discutidos e decididos outros aspectos deste projecto. É muito provável que dessa reunião saia o nome do rosto que irá encabeçar a candidatura à Câmara Municipal de Coimbra.

 

 

[CP]: A decisão do Bloco de Esquerda foi não ir em coligação com o Movimento Cidadãos por Coimbra. Porquê?

[MC]: O movimento Cidadãos por Coimbra, que teve um papel significativo na cidade nos últimos anos, está agora esgotado eleitoralmente. Contudo, isso não invalida o reconhecimento do seu impacto enquanto oposição à esquerda aos executivos do PS e da direita.

Estamos agora num novo ciclo político e o Bloco de Esquerda acredita ser fundamental assegurar que a esquerda não fique órfã nas próximas eleições autárquicas. Por isso, decidimos afirmar a nossa posição de forma autónoma.

Quanto à ligação entre o PS e os Cidadãos por Coimbra, não compete ao Bloco avaliar as decisões do movimento. No entanto, o que presenciámos recentemente, incluindo no evento do dia 16, não configura, de forma alguma, uma frente de esquerda. O que existiu foi um pré-anúncio da candidatura do PS. Nós, formalmente, enquanto Bloco de Esquerda, não fomos convidados para esse debate e ainda bem: seria deprimente sermos convidados para debater caminhos para o concelho e depois a sessão transformar-se no pré-lançamento da candidatura do PS.

Diante deste cenário, o Bloco considera essencial “ir a jogo” para garantir que a esquerda tem uma representação forte, numa disputa autárquica que será determinante para o futuro do concelho.

 

[CP]: O Bloco de Esquerda considera uma coligação com o PS em Lisboa?

[MC]: Não estou a par dos moldes específicos em que as conversas estão a decorrer. Contudo, é claro que o contexto de Lisboa é distinto do de Coimbra. Apesar de existirem semelhanças, os desafios, a história e os protagonistas são diferentes. Jorge Sampaio, que conseguiu aglutinar a esquerda em Lisboa, não é Manuel Machado, que deixou a marca de uma governação negativa em Coimbra. Tal como Alexandra Leitão não é Ana Abrunhosa, caso venha a ser a candidata do Partido Socialista.

Outro elemento diferenciador é o facto de o Bloco de Esquerda ter um vereador eleito em Lisboa com força própria, enquanto em Coimbra o movimento Cidadãos por Coimbra, que apoiámos nas últimas eleições, não conseguiu eleger um vereador.  É a força prévia de cada partido ou movimento que permite implementar e dinamizar um programa político de forma realista.

Acreditar que um programa se movimenta apenas com boas intenções escritas num papel é ingénuo. Articulações à esquerda exigem capacidade de aglutinação e uma força consolidada para terem eficácia. Assim, não me parece adequado comparar Lisboa, com as suas especificidades muito concretas, à situação de Coimbra, que opera num contexto completamente distinto.

 

[CP]: O Bloco de Esquerda considera ter força suficiente para ir a eleições em Coimbra de forma autónoma?

[MC]: O Bloco de Esquerda renovou-se com novas pessoas e uma maior capacidade de intervenção, que tem sido visível nos últimos anos. Este reforço foi visível nas legislativas e será visível na campanha autárquica, creio.

O nosso foco estará na construção de um programa que una forças sociais e políticas da cidade e do concelho. Embora os nomes ainda não estejam definidos, contamos com protagonistas aptos para este desafio. Eu, enquanto dirigente nacional e local, estarei naturalmente envolvido na campanha, mas o Bloco tem outros rostos preparados e reconhecidos para assumir esta liderança.

O nosso objectivo é claro: garantir uma representação no executivo camarário. Estamos determinados a dar à cidade uma voz activa e consistente à esquerda.

 

[CP]: Como é que o BE tem visto a governação na Câmara de Coimbra?

[MC]: Coimbra enfrenta desafios urgentes, especialmente na habitação, onde as promessas, como o “Plano Marshall” para reabilitar a Baixa, resultaram em pouco ou nada. Enquanto os preços da habitação sobem e a gentrificação aumenta, os problemas estruturais, como o esvaziamento urbano e a falta de infra-estruturas, permanecem sem solução eficaz.

Com 11.000 fogos devolutos, a cidade precisa de um plano robusto de reabilitação urbana, mas a Câmara tem preferido medidas simples e de curto prazo. A incoerência na gestão é evidente, como na aprovação de um megabairro social em Taveiro, longe da cidade, que perpetua a espacialização da pobreza, já evidente no Planalto do Ingote.

O PS, em vez de romper com estas práticas, tem dado continuidade a políticas desajustadas, reflectindo a incapacidade de promover uma governação urbana inclusiva e sustentável. Coimbra necessita de planeamento a longo prazo para construir uma cidade mais equilibrada e justa.

 

[CP]: A questão da mobilidade também é um tema forte em Coimbra?

[MC]: A mobilidade em Coimbra é um problema central. O Bloco de Esquerda está a trabalhar em soluções viáveis e realizará um fórum em Abril para debater mobilidade, transportes, habitação, cultura, saúde, educação e políticas sociais. O sistema de transportes públicos enfrenta problemas de confiança, falta de motoristas e escassez de peças para as viaturas, agravados pela falta de investimento da Câmara. Via com bons olhos uma proposta de gratuidade dos transportes públicos, começando pelos SMTUC, o que exigiria um aumento do investimento e ajuste do orçamento da Câmara. Quanto ao edifício de Coimbra A, é crucial definir rapidamente o seu futuro para evitar especulação imobiliária e o Bloco propõe uma utilização que beneficie a comunidade.

 

[CP]: Em termos distritais onde é que o Bloco pensa apresentar candidaturas?

[MC]: Estamos a planear apresentar candidaturas nos locais onde já o fizemos em 2021, como Figueira da Foz, Lousã e Condeixa, onde conseguimos representação nas assembleias municipais. Além disso, pretendemos manter ou alargar a representação em Miranda, Montemor e Cantanhede. E estamos a trabalhar para apresentar candidaturas em locais onde o Bloco não apresentou em 2021 ou nunca apresentou, como Mira, Penela e Soure. Estamos em contacto com pessoas e a estabelecer diálogos para viabilizar estas candidaturas. A distrital de Coimbra está empenhada e a trabalhar para isso.

[CP]: A nível nacional, como é que o BE tem visto este Governo?

[MC]: Passámos da “geringonça” (2015-2019) para uma maioria absoluta e agora temos um governo de direita. Este governo distingue-se pela relação ambígua com a extrema-direita, tentando mimetizá-la para conquistar o senso comum, como foi visto no caso da Rua do Benformoso. Portugal é um país seguro, mas o governo explora percepções de insegurança para disputar votos da extrema-direita, o que é preocupante. Este comportamento não é novo; foi assim que a direita clássica em França ou Itália deu força a figuras como Le Pen e Meloni.

Mas a política não se faz só no Parlamento; manifestações como a da Rua do Benformoso, que uniu várias áreas da esquerda contra o racismo e a xenofobia, são essenciais. O Bloco de Esquerda está e estará sempre empenhado em defender direitos sociais e o SNS, mesmo fora do Parlamento.

 

Luís Santos/Joana Alvim