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Daniel das Neves: o conimbricense que fez a sua sorte e chegou a Hollywood

18 de Fevereiro 2024 Jornal Campeão: Daniel das Neves: o conimbricense que fez a sua sorte e chegou a Hollywood

Daniel das Neves tinha apenas 14 anos quando descobriu a sua paixão pelo universo 3D. Começou a adquirir aptidões no computador da irmã, de forma autodidacta, e hoje trabalha para Hollywood. Com um percurso marcado pela persistência e trabalho árduo, o jovem natural de Coimbra alcançou o destino onde moravam os seus sonhos. Voou, pela primeira vez, aos 22 anos, rumo a outro país, e nunca mais parou.

“Eu nunca pensei que acabasse a trabalhar no que trabalho. Era um sonho para mim. Claro que, quando uma pessoa tem um sonho, tenta apontar todas as decisões que toma na vida para o alcançar”, confessa Daniel das Neves, em declarações ao “Campeão”. Traçados objectivos, estava na hora de os pôr em prática, o que levou o conimbricence a tirar a Licenciatura de Comunicação e Design Multimédia, na Escola Superior de Educação de Coimbra (ESEC). No terceiro ano, teve uma cadeira de animação 3D, contudo, garante que a verdadeira aprendizagem foi adquirida fora da Escola.

“Para ser muito sincero, aquele curso foi útil para aprender uma série de coisas que são importantíssimas para o que faço actualmente, por exemplo, fotografia. No entanto, eu podia não ter tirado o curso e ter acabado onde estou na mesma. No fundo, formei-me porque, em Portugal, quase toda a gente tem que ter um curso”, confessa. Foi, por isso, aprendendo “por tentativa e erro”, através da criação de projectos próprios, como é o caso da “45 graus”, uma empresa de garagem, em Coimbra, que desenvolveu com mais dois amigos. “Fazíamos webdesign e imagens para arquitectura”, conta.

O sonho do cinema

Apesar dos trabalhos que foi desempenhando aqui e ali, Daniel nunca deixou de sonhar com o cinema. Um desejo que vivia dentro de si desde que conheceu filmes como o Toy Story. “Tentei concorrer para uma empresa que trabalhava na série ‘Game of Thrones’ [Guerra dos Tronos]. Mandei currículos para vários sítios, mas pensei ‘nunca ninguém me vai aceitar’”. A realidade é que a resposta positiva acabou por chegar, a uma quinta-feira banal, como recorda.

“Recebi um contacto de uma empresa chamada Pixomondo para ir para um estúdio de Xangai, na China. Era um projecto da Volkswagen de um carro voador. Eu sempre gostei de carros e foi, por aí, a fazer automóveis 3D que eu comecei os meus trabalhos em casa”, adianta. Foi esse, o portefólio autonómo de Daniel, que lhe garantiu um emprego que lhe viria a mudar a vida. “Às vezes, as pessoas dizem que ‘tive sorte’. Há uma coisa que eu gosto de dizer que é: ‘és tu quem faz a tua sorte’. Se calhar, se na altura eu não tivesse este sonho e, de certo modo, tivesse tomado decisões que fossem apontando para ele, nunca o teria alcançado”, admite.

E se, no bom português, se diz “quando a vida te der uma oportunidade agarra-a com unhas e dentes”, foi isso mesmo que Daniel das Neves fez. “No momento em que eu tive a possibilidade de sair do país, eu não pensei duas vezes”, garante.

A experiência na série “Game of Thrones”

A ganhar cada vez mais experiência no estrangeiro, os elogios ao trabalho de Daniel chegaram à sede da Pixomondo, na Alemanha. Depois de três meses a trabalhar na Ásia, surge, assim, um convite para voltar à Europa e integrar uma equipa que trabalhava para “Game of Thrones”. Neste momento, o jovem pensou que podia ser ali o início da sua carreira. Todavia, a realidade mostrou-se diferente da que estava à espera.

“Quando cheguei lá vi-me no departamento de publicidade para carros. Ou seja, acabei a fazer publicidade para a Mercedes, para a Porsche e para a Audi durante uns meses, enquanto via os meus colegas a trabalhar no ‘Game of Thrones’ na sala ao lado”, lamenta. Uns meses depois, o propósito de Daniel, finalmente, concretiza-se. Ingressa no sector relacionado com a série, onde se depara com o que considera “um balde de água fria”, afinal, tudo ao seu redor era complexo. “O trabalho em cinema e televisão é muito diferente daquilo a que eu estava habituado. Tive que aprender, mais uma vez, por tentativa e erro, e observando o colega do lado. Aprendi a ganhar força”, sublinha.

Lado a lado com Christopher Nolan

Depois da sua passagem pelo fenómeno da HBO, Daniel das Neves viveu uma nova aventura que lhe abriu largos horizontes. Em 2014 concorreu à Moving Picture Company (MPC), em Londres, onde esteve cerca de um ano. Relembra, com carinho, que “Guardiões da Galáxia”, da Marvel, foi o primeiro filme em que trabalhou. Dois anos depois, em 2016, participou em “Dunkirk”, de Christopher Nolan, um dos seus realizadores de eleição. Neste projecto, a equipa era reduzida, o que deu origem a uma vivência única no trajecto do conimbricense.

“O Nolan costumava lá estar. É o único realizador que eu conheço que vai ter com os artistas de efeitos visuais e está na sala connosco. Como éramos 10/20 pessoas, o ambiente tornava-se muito familiar”, salienta. Ao partilhar as memórias que guarda dessa época não esconde o orgulho que sente. “O facto de eu poder estar na mesma sala que Christopher Nolan e trabalhar lado a lado com ele, para mim, foi fantástico”, reconhece.

De país em país, de projecto em projecto, mostra-se satisfeito por perceber que o talento português é valorizado lá fora. “Somos poucos, mas bons”, sorri, enfatizando que “há portugueses cá fora a fazer um bom trabalho, tal como há muitos portugueses, em Portugal, a fazer igualmente um óptimo trabalho também”.

Empenhado em continuar a viver a sua paixão pelo cinema, até ao final do ano passado, Daniel esteve envolvido na série da Netflix “Avatar: The Last Airbender”. A estreia está agendada para dia 22 deste mês. “ O trailer tem uma série de trabalho meu, de shots feitos por mim”, revela. Actualmente – e após ter sido pai – está a “fazer uma pausa” na sua carreira. Regressa ao activo em Março, já com a sua própria empresa, na Bélgica.

De olhos postos no futuro, o passado não tem obrigatoriamente de ficar para trás. Voltando à imagem do jovem de 14 anos que usava o computador da irmã para se aventurar nos projectos 3D, Daniel das Neves deixa o conselho: “a maior mensagem que gostava de deixar é que as pessoas acreditem nos seus sonhos e que tomem decisões, por vezes, arriscadas. Orgulho-me muito de ter acreditado”, remata.

Cátia Barbosa (Jornalista do “Campeão” no Porto)

Publicado na edição em papel do Campeão das Províncias de 15 de Fevereiro de 2024