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Mão na Mão: uma luz na escuridão da carência infanto-juvenil na Figueira da Foz

4 de Fevereiro 2024 Jornal Campeão: Mão na Mão: uma luz na escuridão da carência infanto-juvenil na Figueira da Foz

Na sombra das necessidades que assolam crianças e jovens em situações precárias surge uma esperança tangível: a organização não-governamental (ONG) “Mão na Mão”, sediada na Figueira da Foz. Num cenário onde a carência é uma dura realidade para muitas famílias, esta organização dedica-se incansavelmente a apoiar aqueles que mais necessitam, todos referenciados por entidades públicas, como a Câmara Municipal, Juntas de Freguesia, Segurança Social, CPCJ e Escolas. No entanto, os apoios estatais são escassos, limitando-se a 1.000 euros por ano (da Câmara Municipal) para sustentar as dificuldades enfrentadas por 70 famílias. Este é o retrato desafiador que a Mão na Mão enfrenta diariamente.

Criada por uma iniciativa privada e hoje reconhecida de utilidade pública, a Mão na Mão surge como uma resposta para combater a precariedade infanto-juvenil em todas as suas formas, desde a pobreza, à fome e à miséria. Numa conversa franca com o Campeão das Províncias, o presidente da ONG Mão na Mão, José António Guardado Carvalho, abriu as portas do passado e presente desta organização.

A trajectória da Mão na Mão teve um início notável, conforme revela José António Carvalho: “Começámos como um movimento de angariação de bens para a UNICEF durante a guerra da Síria. A maioria foi destinada a Lampedusa”.

No entanto, a descoberta de necessidades locais mudou o curso da organização: “Ao voltar, percebi que havia tantas necessidades na nossa região. Decidi transformar este movimento em algo duradouro, fundando a Mão na Mão em 2017”.

A luta contra a pobreza infantil e juvenil tornou-se uma missão chave para a Mão na Mão, como explica o presidente: “Criámos a primeira loja social, inicialmente no Mercado Municipal. Apesar de promessas não cumpridas de espaços maiores, avançámos graças ao apoio de amigos, associados e emigrantes, sobretudo da Suíça e do Luxemburgo, que têm sido uma força vital”.

A Mão na Mão expandiu o seu alcance para além-fronteiras, ajudando países como Guiné-Bissau, São Tomé, Moçambique e Cabo Verde. José António destaca orgulhosamente a colaboração com a Associação de Emigrantes Portugueses no Luxemburgo, na criação de uma loja social.

Ao mostrar uma lista actualizada das pessoas assistidas, José António afirma: “Todas as pessoas são referenciadas por entidades públicas. José António destaca o compromisso da Mão na Mão: “A fome não falta aqui. O nosso propósito é simples: ajudar a comunidade, independente de quem são ou de onde vêm. Esta é a política da Mão na Mão – uma política de amor e solidariedade por todos e para todos”.

(RE)APRENDER A VIVER: uma iniciativa contra o cancro infantil

Além do apoio prestado às famílias em situações de carência, a Mão na Mão abraçou uma causa também ela delicada: o Projecto (RE)APRENDER A VIVER. Esta iniciativa, idealizada e dinamizada pela ONGD Mão na Mão – Associação Crianças do Mundo, destaca-se como uma resposta pioneira no apoio a crianças com cancro e as suas famílias.

O projecto, que terminou agora, e que se reinventa com o nome (RE)APRENDER A VIVER 2, contou com uma equipa multidisciplinar, composta por profissionais especializados em Desenvolvimento Infantil, Pediatria e Saúde Familiar. O objectivo foi proporcionar cuidados não apenas curativos, mas também um apoio abrangente, incluindo visitas familiares e actividades formativas e de capacitação, realizadas através de uma Unidade de Saúde Móvel. Este foi um esforço dedicado não apenas à cura física, mas também à humanização dos serviços e à melhoria da qualidade de vida das famílias e crianças enfrentando o cancro.

Com cerca de 400 novos casos de cancro infantil registados anualmente em Portugal, a Mão na Mão identificou a ausência de respostas integradas na região Centro, especialmente nos grupos etários 0-4 e 15-19 anos.

 (RE)APRENDER A VIVER 2: um olhar atento para a realidade

O projecto (RE)APRENDER A VIVER, agora na sua segunda versão, assume uma abordagem mais abrangente e inclusiva, dirigindo-se não apenas a crianças com patologias oncológicas, mas também a outras condições crónicas, como diabetes tipo um, obesidade, doenças raras, asma, bronquite, entre outras. A iniciativa representa uma evolução, com uma visão de proporcionar uma vida mais saudável e inclusiva para crianças e jovens dos 3 aos 21 anos que enfrentam desafios de saúde.

O (RE)APRENDER A VIVER 2 tem como objectivo fornecer apoio, envolvendo fisioterapeutas, médicos, enfermeiros, enfermeiros de reabilitação, preparadores físicos e personal trainers.

Esta nova versão do projecto não apenas representa um passo adiante na resposta da Associação Mão na Mão a desafios sociais, mas também demonstra a capacidade de inovação e adaptação da organização às necessidades emergentes da comunidade.

Envolvimento voluntário e parcerias estratégicas na missão da associação

“Contamos com a colaboração de voluntários das escolas locais, escoteiros da Figueira da Foz, de Tavarede, e do Alqueidão. Conseguimos mobilizar essa diversidade de pessoas porque a comunidade responde de maneira incrível”, partilha José Carvalho.

O trabalho voluntário é diversificado e abrange actividades como distribuição de alimentos, realização de peditórios, recolha de donativos, entre outras acções essenciais.

A importância de voluntários especializados também é realçada, com a associação a contar com enfermeiros de reabilitação, médicos, juristas e outros profissionais que oferecem os seus conhecimentos de forma voluntária.

Sem resposta das entidades públicas

A Associação Mão na Mão tem sido a principal responsável por colmatar lacunas e assegurar apoio essencial ao nível do transporte de crianças para o Hospital Pediátrico de Coimbra para algumas escolas da região. Neste âmbito, José Carvalho, juntamente com a equipa da associação, têm desempenhado um papel fundamental na articulação e logística necessárias para levar essas crianças às consultas médicas. Apesar dos esforços da Mão na Mão em preencher essa lacuna, a falta de resposta e colaboração das entidades públicas é evidente. Este cenário torna-se especialmente problemático quando se considera que crianças com patologias crónicas dependem da atenção de especialistas disponíveis apenas no Hospital Pediátrico de Coimbra. Infelizmente, as limitações financeiras dos pais dessas crianças, somadas à falta de apoio das entidades públicas, resultam na impossibilidade de acesso a tratamentos essenciais, destacando assim a necessidade crítica da acção da Mão na Mão.

Enfrentando desafios para alcançar objectivos

Maria José Verdete, assistente social na ONG Mão na Mão, partilhou os desafios enfrentados pela organização no que diz respeito à obtenção de alimentos e apoios institucionais.

“Mesmo pessoas de classe média procuram assistência, mas muitas preferem não ser identificadas. Os créditos aumentam, e as necessidades são crescentes”.

O sonho comanda a vida

Quando questionado sobre objectivos, José António expressou a aspiração de ter uma sede maior: “Queremos ter uma grande sede para nos tornarmos uma entidade de solidariedade humana significativa não apenas para o concelho, mas em todo o distrito. A Câmara poderia ajudar nesse sentido”.

A Mão na Mão, apesar dos obstáculos, mantém uma visão clara de um futuro mais robusto e compassivo. Com o apoio contínuo da comunidade, a organização permanece comprometida em oferecer ajuda às famílias mais vulneráveis da região.

O presidente encerrou a entrevista com um apelo à acção e à solidariedade: Juntos, podemos fazer a diferença na vida daqueles que mais precisam. A Mão na Mão continuará a sua missão, mas com a colaboração de todos podemos alcançar ainda mais.”