Não há assim tanto tempo, em meados do século XX, o Pai Natal não distribuía prendas a ninguém em Portugal. Na noite de 24 para 25 de Dezembro, era o Menino Jesus quem, através da chaminé, fazia chegar as prendas que as crianças haviam de encontrar no Dia de Natal. As prendas eram entregues no sapatinho que ficava cá em baixo, à espera, e não na meia, como hoje se vê em filmes norte-americanos e nas cadeias que vendem folclore natalício, que de natalício pouco ou nada tem. Já em Espanha, como os portugueses bem sabem, o momento da troca de presentes há-de chegar mais tarde, no Dia de Reis. Na Bélgica, como em muitos outros países da Europa, há uma outra data muito relevante, sobretudo para as crianças: é o Dia de São Nicolau (Saint-Nicolas/Sint-Niklaas), a 6 de Dezembro.
Mas quem é São Nicolau? Diz a história que viveu na Ásia Menor um homem chamado Nicolau, nascido em 270 numa cidade que se situaria naquilo que é hoje a Turquia. Nicolau viria a tornar-se bispo naqueles tempos iniciais do cristianismo e notabilizou-se pela sua generosidade. Detentor de uma grande fortuna que recebera em herança após a morte dos pais, Nicolau manifestava pouco interesse nas riquezas materiais. Diz-se que um dia um homem que havia caído em miséria partilhou com o bispo Nicolau a sua angústia relativamente ao futuro das suas três jovens filhas. A pobreza impedi-las-ia de contraírem matrimónio, nada mais as esperando que uma vida de miséria e porventura de prostituição. Sensibilizado pelo relato, Nicolau terá atirado pela chaminé, no segredo da noite, sacos de ouro que permitissem às jovens escapar a tão triste destino. Preferia manter a sua generosidade escondida, quer por não desejar infundir nenhum sentimento de dívida em quem era ajudado, quer por não querer expor os carenciados à eventual humilhação de terem de aceitar ajuda. Viria a falecer a 6 de Dezembro de 343.
É difícil distinguir a história da lenda. Os registos dessa época são escassos, mas a tradição popular é rica em milagres associados àquele bispo, o que inclui acalmar o mar e mesmo ressuscitar crianças. Entres factos e lendas, a devoção a São Nicolau haveria de desenvolver-se por muitos países da Europa ocidental e central, onde hoje ficam a Alemanha, a Bélgica ou a Holanda. O dia 6 de Dezembro foi por isso ficando, ao longo dos séculos, associado a este santo e, progressivamente, às crianças, de quem se revelou sempre especial protector.
Quando os holandeses se estabeleceram do lado de lá do Atlântico, em Nova Amesterdão, levaram consigo a devoção a São Nicolau, as suas lendas e a ideia de um homem bondoso, protector das crianças, que oferecia prendas às escondidas. Um homem já com idade avançada, de barbas brancas e vestes vermelhas. Esta tradição, que já havia criado um “Sinterklaas” um pouco distinto do originário “Sint-Niklaas”, criou no Novo Mundo o “Santa Claus”, em Portugal chamado Pai Natal.
Na Bélgica, o São Nicolau é efusivamente assinalado. Não há escola que não conte com alguma alusão ao santo e é possível encontrá-lo a visitar escolas, aqui e ali, no dia 6 de Dezembro. As crianças são presenteadas com um saquinho de doces e uma tangerina.
Em Portugal o São Nicolau não tem expressão enquanto festividade natalícia. Curiosamente, porém, há pontos de contacto: em tempos idos, de maior escassez de recursos, na manhã de Natal as crianças de algumas zonas das Beiras encontravam uma tangerina à sua espera no sapatinho…