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Semanário no Papel - Diário Online

 

Hernâni Caniço

A promiscuidade não compensa

8 de Dezembro 2023

Em estilos de vida, vamos analisar o grau de promiscuidade e a sua influência na saúde. Entre as múltiplas definições de promiscuidade, consideramos a mistura desordenada da convivência confusa entre as pessoas e relação com os bens.

Pode ser observada através do meio ambiente e da poluição química e sanitária, por meio da habitação própria ou em uso, por intermédio da participação em grupos de rotura social, via o ambiente de trabalho desregrado e indisciplinado ou directamente dos comportamentos de risco sexual.

A promiscuidade, através do meio ambiente e da poluição química e sanitária que envolva a zona de habitação, pode ser vista como importante, pela deterioração do ambiente e consequências em saúde e vida animal, por ser geradora de interesses económicos e industriais sem regras, ou por atrair pessoas não recomendáveis em honestidade e princípios. Ou pode ser tida como pouco importante, por estar distante do seu meio pessoal e não o afectar negativamente, por partilhar as motivações negociais obscuras e seus ganhos, ou por preferir o risco e a corda bamba em função do lucro.

A promiscuidade, por meio da habitação própria ou em uso, por ausência de condições de espaço, higiene e salubridade, pode ser julgada como importante, por não ter habitat digno como direito exercido, pela falta de recursos económicos e consequências em saúde e contaminação, ou por estimular padrões de comportamento insocial, hostilidade e doença. Ou pode ser apontada como pouco importante, pela assumpção de separação de classes sociais distintas, pelo direito à habitação ser um acto ilusório e distante, ou pela personalidade ser relevante e etérea não justificando as condições e actos materiais.

A promiscuidade, por intermédio da participação em grupos de rotura social, com utilização de agressividade, violência e espírito classista, pode ser olhada como importante, porque afecte e desequilibre a saúde mental da pessoa, pelo prejuízo dos direitos individuais e das regras em sociedade que representa, ou por trazer consequências graves na preservação da vida humana, multiculturalidade e generosidade. Ou pode ser encarada como pouco importante, pelo espírito de desumanidade e vingança, por sentimento de revolta pela índole própria e acontecimentos pessoais antecedentes, ou pelo envolvimento em actos desestruturadores da sociedade sem autocrítica.

Comportamentos de risco sexual

A promiscuidade, por via do ambiente de trabalho desregrado e indisciplinado, ou espaço de opressão e limitação de direitos em saúde, pode ser reputada como importante, porque influencia a qualidade de produção e o bem-estar pessoal, por induzir actos organizados de contestação e reorganização laboral, ou porque é um atentado à regulação e preservação dos direitos humanos. Ou pode ser classificada como pouco importante, pelo abstencionismo e insensibilidade individual, pelo receio de consequências prejudiciais e revanchismo, ou pela primazia de outros factores da vida pessoal e/ou familiar em detrimento do trabalho.

A promiscuidade, através dos comportamentos de risco sexual, que envolvem consequências para os praticantes, parceiros e famílias, pode ser valorizada como importante, porque põe em causa a estabilidade da vida pessoal em comum, porque é objecto de crítica social e do meio convencional, ou porque destrói a unidade do agregado familiar nuclear e mesmo família alargada. Ou pode ser desvalorizada como pouco importante, pela irresponsabilidade perante a vida, por atracção e desejo de aventura e experiência radical, ou pelo desprezo pelo impacto comunitário e desestabilização social.

Fiódor Dostoievski, numa das suas fases de vida, chegou a dizer que “A falta de liberdade não consiste jamais em estar segregado, e sim em estar em promiscuidade, pois o suplício inenarrável é não se poder estar sozinho”.

A promiscuidade não compensa, no balanço do deve e haver, da satisfação ou da frustração, da realização ou da incapacidade, da provocação ou da inibição, do direito ou da falta de recursos. Haja saúde!

(*) Médico