O Dia Mundial da Língua Portuguesa, comemorado ontem (5), passou a ser celebrado anualmente a partir de 2019. Esta data, dedicada a idiomas falados em todo o mundo, pretende celebrar a diversidade cultural e multilinguística, além de enfatizar e dar a conhecer a história por trás de cada língua.
Também voltado para a multiculturalidade e para a importância de trazer visibilidade a temas, por vezes, apagados, nasceu o Grupo de Estudos Maria Quitéria. Originalmente, os fundadores e membros desta iniciativa eram brasileiros universitários em Coimbra, todos alunos de Relações Internacionais. No entanto, actualmente, os integrantes do Grupo frequentam cursos diversos, como Direito, Psicologia, Letras ou Sociologia.
Esta iniciativa, que decorre desde 2019, fornece debates, palestras, eventos, cursos e promove, ainda, a troca de conhecimentos acerca do Brasil e, de forma mais abrangente, da América Latina.
O aparecimento do Grupo deu-se após os estudantes de Relações Internacionais terem identificado uma lacuna no conteúdo programático do curso: não existia nenhuma cadeira voltada para o Brasil ou para a América do Sul e, ainda hoje, não são fornecidos estudos nessa área, afirma o presidente do Maria Quitéria, Pedro Falcone.
“O grupo, na sua origem, percebeu que existia uma oportunidade de dialogar, de forma horizontal, sobre conhecimentos ligados ao Brasil”, explica.
Assim, a iniciativa surgiu com uma vertente mais académica, para compensar e explorar os conhecimentos que não estavam a ser leccionados na instituição, além de actuar como uma ferramenta para visibilizar “conteúdos e informações fora do prisma eurocêntrico”.
Actualmente, os participantes das actividades promovidas pelo Grupo são oriundos de diversos países, principalmente dos que compõem a CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa).
“Para mim [o Grupo] é uma casa, um espaço onde eu consigo encontrar as minhas origens e expressar genuinamente o que penso. Tenho a possibilidade, também, de expandir os meus horizontes e visibilizar pautas ligadas à realidade brasileira que nos afectam muito em Portugal, como o racismo, a xenofobia, o preconceito linguístico e até mesmo a precarização da nossa vida enquanto estudantes, além de pensar em soluções que temos para os problemas da Universidade”, conta o presidente, natural de João Pessoa, Paraíba.

O Grupo de Estudos Maria Quitéria realiza formações, desde há quatro anos, nas áreas de história, cultura e política
Actividades para debater e partilhar conhecimentos
Para tratar dos temas propostos, o Grupo Maria Quitéria fornece, gratuitamente, “Módulos de Estudo”, em que o debate de textos e de materiais bibliográficos (artigos, livros e documentários), sobre uma temática geral, são o foco da actividade.
As reuniões são semanais, decorrem às quartas-feiras, às 18h00, na Casa da Lusofonia de Coimbra. As inscrições são feitas no início do semestre e os que apresentarem um mínimo de 70% de assiduidade têm direito a um diploma. No entanto, mesmo quem não realizou o registo prévio, pode assistir a estes debates (embora não obtenha o documento comprovativo). Actualmente, o tema tratado é a “História Indígena e Colonial”.
“O Módulo de Estudos é coordenado por estudantes, então a participação é horizontal: não existe uma autoridade, ou alguém que está ali para expor conteúdos. Existe uma rotatividade das pessoas que vão mediar os textos e apresentar as suas impressões e, depois, procede-se ao debate”, conta Pedro Falcone.
Para além destes debates, a iniciativa “Política de Botequim” promove, em um ambiente informal, a discussão sobre política num formato de tertúlia, em que todos podem contribuir e expor os seus pontos de vista. A entrada é livre e não é necessário realizar nenhum tipo de inscrição, basta verificar o local, a data e a hora em que vai decorrer, informações sempre divulgadas pelas redes sociais do Grupo (Instagram: grupo.mariaquiteria e Facebook: Grupo de Estudos Brasileiros Maria Quitéria).
“Temos também debates e palestras, assim como eventos sociais, há festas de integração, voltadas para exposição da cultura brasileira, embora este não seja o foco do Grupo”, explica.
Ser activo e interventivo
A par de todas estas iniciativas dinamizadas, as esperanças para o futuro são “ter uma organização mais activa e interventiva”, conta o presidente do Maria Quitéria.
“Queremos procurar soluções concretas para a realidade dos estudantes brasileiros e internacionais, ser uma organização geradora de líderes e pensadores que busquem transformar a sociedade e apresentar uma visão bastante genuína do Brasil para o mundo”.
Uma das ferramentas utilizadas para ajudar estes alunos, por exemplo, é a revista “Cadernos do Brasil”. De periodicidade anual, esta revista académica permite que estudantes (licenciatura, mestrado ou doutorado), de dentro e fora da Universidade de Coimbra, possam publicar artigos científicos.
Como explica Pedro Falcone, depois dos trabalhos serem enviados ao Grupo Maria Quitéria, professores parceiros desta iniciativa analisam os textos e verificam se o material cumpre os requisitos para posterior publicação na “Cadernos do Brasil”.
Assim, os trabalhos podem ser enviados, por e-mail (cadernosdobrasil@gmail.com), até o dia 13, sendo o tema desta edição a “Democracia Brasileira”.
No entanto, como informa o Grupo, a revista também aceita conteúdos que não estejam relacionados com este mote (serão publicados numa parte anexa da edição).
Maria Quitéria: uma heroína brasileira
Maria Quitéria nasceu em 1792, em Feira de Santana, Bahia, e foi a primeira mulher a fazer parte do Exército Brasileiro. Quando tinha 30 anos, entrou para o Regimento de Artilharia, sendo posteriormente transferida para o batalhão dos “Voluntários do Príncipe Dom Pedro”.
“Em meio ao processo de Independência do Brasil, Maria Quitéria disfarçou-se de homem e fugiu de casa com a farda de soldado do cunhado, para representar a Independência brasileira no campo de batalha”, explica o Grupo de Estudos.
Entre os combates em que participou, há o da Ilha Maré, Pituba, Itapuã e o de Foz do Rio Paraguaçu, onde lutou com água na altura do peito.
Mesmo depois da descoberta de que Maria Quitéria era mulher, ela foi promovida a cadete e, posteriormente, condecorada com a Imperial Ordem do Cruzeiro, pelo antigo imperador D. Pedro I, além de ser reconhecida como heroína da Independência.
Em 1966, o Estado Brasileiro atribuiu-lhe o título de patrona do Quadro Complementar de Oficiais do Exército Brasileiro.

Maria Quitéria fingiu ser homem para poder ingressar no Exército Brasileiro e tornou-se uma heroína da Independência
Fernanda Paçó e Randeson Lima»» [Reportagem da edição impressa do “Campeão” de 4/5/2023]