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Entrevista: Sandra Simões – a voz activa em defesa da saúde na região Centro

6 de Maio 2023 Jornal Campeão: Entrevista: Sandra Simões – a voz activa em defesa da saúde na região Centro

Sandra Simões é médica de Medicina Interna, com um vasto e reconhecido currículo, exercendo funções no Hospital dos Covões. Contudo, o seu percurso profissional não se limita aí, pois é também a presidente da Associação Centro Saudável – Juntos pela Saúde no Centro. Este movimento, inicialmente criado para defender os interesses do Hospital dos Covões, cresceu e ampliou os seus objectivos, tornando-se numa forte e activa voz em prol da saúde. Nesta entrevista, Sandra Simões partilha connosco a sua perspectiva sobre o estado actual da saúde, bem como as suas convicções e ideias para um sistema de saúde mais justo e eficaz.

 

Campeão das Províncias [CP]: O Hospital dos Covões fez 50 anos que abriu portas como Hospital Geral integrado no Centro Hospitalar de Coimbra, mas a data parece que foi esquecida. Como se sente com este esquecimento?

 

Sandra Simões [SS]: A lembrança dessa data tão importante para muitos ainda ecoa, porém, é lamentável que o CHUC tenha deixado passar despercebido um momento tão significativo. Como parte integrante dessa história, confesso que sinto uma pontinha de tristeza e até mesmo mágoa. O Hospital Geral de Coimbra é um património da cidade, repleto de cultura, história e acima de tudo, compromisso com a saúde e bem-estar da população.

Em momentos cruciais este hospital esteve sempre pronto para agir, oferecendo o melhor atendimento médico e as melhores condições para enfrentar qualquer desafio. Recentemente, tivemos que lidar com a pandemia da Covid-19, um período de extrema dificuldade, mas que com garra e determinação, foi superado. Na década de 70, um surto de cólera atingiu Coimbra e foi no Hospital Geral que as vítimas receberam o tratamento necessário, mostrando mais uma vez a importância desta instituição para a cidade.

Infelizmente, nos últimos tempos, temos observado uma redução de recursos e uma diminuição da posição que o hospital ocupa na sociedade. No entanto, o nosso espírito de luta e determinação não foi abalado. Estamos sempre prontos para enfrentar qualquer batalha em prol da saúde das pessoas e da cidade que tanto amamos. Esse espírito de luta é um legado que carregamos com muito orgulho e que jamais será esquecido.

 

[CP]: O Covões quando funcionava em pleno era um grande hospital.

[SS]: Sem dúvida alguma, estamos a falar de um hospital que já teve múltiplas valências. Como alguém que teve a oportunidade de fazer o internato geral no Hospital dos Covões, posso afirmar que na altura era um verdadeiro hospital central, com todas as especialidades médicas, desde neurocirurgia até psiquiatria, funcionando tanto em regime de urgência como em consultas e internamentos.

Não é à toa que este hospital era referência para uma grande parte da população, abrangendo desde Pombal, Leiria até mesmo a Sertã. E mesmo hoje em dia, ainda temos doentes vindos de Castelo Branco. Estamos a falar de uma região, Pinhal Interior, que é desprotegida e afastada dos grandes centros urbanos e dos hospitais de referência. Mas essas pessoas também merecem um atendimento de qualidade e é justamente isso que o Hospital dos Covões oferece. Não podemos deixar que essa história se perca e que este hospital perca a sua importância.

 

[CP]: Deixou-se de falar sobre a saída de serviços do Hospital dos Covões. Foi porque já saíram todos?

[SS]: Embora ainda não tenham sido encerrados todos os serviços, estamos muito perto disso. Parou de se falar, porque, na verdade, nós fomos fazendo alertas enquanto ainda havia alguma coisa, pouca, para chamar a atenção.

Essa perda de capacidade de oferta é preocupante, especialmente para uma cidade universitária como Coimbra, que deve ser capaz de oferecer a formação necessária para médicos, enfermeiros e técnicos de saúde. É essencial que falemos mais sobre isso e tomemos medidas para garantir que a cidade não perca ainda mais a sua capacidade de resposta na área da saúde.

 

[CP]: O que é que correu menos bem na integração dos Covões no Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra (CHUC)?

[SS]: Infelizmente, houve um problema crucial – a falta de sinergia entre os dois hospitais que possuíam grande potencial. Era possível aproveitar essa potencialidade de ambos os lados, mas infelizmente isso não aconteceu. O que vimos foi a absorção de um hospital por outro maior, o que acabou por tirar as características, equipamentos e pessoal ao Hospital dos Covões, deixando ali um vazio e pouquíssima capacidade de resposta às necessidades da população.

A culpa por esta situação é, sobretudo, política. E, objectivamente falando, a cultura que existe na cidade e no hospital universitário também contribui para isso. Infelizmente, há uma zona em Coimbra que é vista como o centro das atenções, enquanto tudo o que fica além do seu perímetro urbano é considerado menos importante. A margem esquerda da cidade, por exemplo, é muitas vezes esquecida, o que é lamentável, pois é, igualmente, importante e possui recursos valiosos que deveriam ser devidamente valorizados e aproveitados.

 

 

[CP]: O Conselho de Administração do CHUC alegou que o encerramento de serviços nos Covões se justificava para não haver duplicação de serviços e para poupar recursos. É válido este argumento?

[SS]: Esse argumento seria válido se os doentes não estivessem a ficar com consultas atrasadas e internamentos mais prolongados porque não há equipa médica para estar tão presente, e para haver mais agilidade nas altas. Estaria bem se a urgência não estivesse completamente assoberbada e lotada de pessoas e não tivesse levado a que haja uma pior qualidade. Seria fácil concordar se os resultados fossem positivos. No entanto, a realidade é bem diferente e a população sofre com as consequências da falta de equipa médica, consultas atrasadas, internamentos prolongados e uma urgência completamente assoberbada e lotada de pessoas. As cirurgias são adiadas por falta de camas e os doentes de medicina interna estão dispersos pelas enfermarias do hospital, sem terem acesso a uma enfermaria vocacionada. É importante frisar que estamos com muito pior resposta do que antes da fusão, ou seja, estamos a sofrer de escassez. Apesar de haver serviços, como o trauma e a neurocirurgia, que necessitam de um pólo dedicado, é inegável que a cardiologia e outros serviços têm falta de capacidade para dar resposta aos doentes. A carência está presente e não a duplicação.

 

[CP]: As Urgências nos HUC estão em obras e com condicionamentos. Como estão a funcionar e a responder as Urgências dos Covões?

[SS]: A Urgência dos Covões está a funcionar neste momento como urgência básica, para atender os doentes “verdes”, embora também se atenda “amarelos”, doentes acamados e por aí fora. Posso dizer que somos um Centro de Saúde, mas de luxo! Somos uma unidade básica com medicina interna e que está a funcionar entre as 8h00 e as 24h00.  Quando surgem casos complicados há que fazer o transporte em ambulância para os HUC.

 

[CP]: O que é a Associação Centro Saudável – Juntos pela Saúde no Centro?

[SS]: Havia já um movimento cívico que começou em defesa do Hospital dos Covões, mas também pela defesa da saúde na região. A região está carente, dispersa e a empobrecer e sentimos que merece ser olhada de outra forma pelo Poder Central. Somos, neste momento, um filho em quem já não se investe. Há aqui qualquer coisa com Coimbra e com a região Centro, que não sei o que será, se calhar, é só falta de boa representação política. A culpa poderá ser nossa, somos nós que elegemos os nossos representantes, na verdade. A Associação nasceu precisamente desse movimento cívico em defesa do Hospital, da necessidade de soluções e nós achámos que poderíamos fazer isto de uma forma mais consistente tornando-nos uma personalidade jurídica, uma associação que pudesse ter sócios e pudesse representá-los e defender os interesses dos cidadãos e dos profissionais, representando-os junto de centros de decisão. Temos alguns projectos para para avançar. Tentamos manter as pessoas actualizadas em relação ao que se vai passando, não apenas em relação ao Hospital dos Covões. Organizamos palestras sobre vários assuntos relacionados com a Saúde e temos vários projectos sobre educação e literacia para a saúde.

 

[CP]: Como está a Saúde em Coimbra e na região Centro?

[SS]: Não está bem, e isso pode ser observado em indicadores tanto pequenos quanto grandes. Pequenos indicadores incluem a desorganização e os longos tempos de espera no serviço de urgência, além da falta de internamento e doentes a terem que ficar em macas por períodos muito prolongados. Já os grandes indicadores estão relacionados à centralização excessiva, o que impacta directamente todo o sistema de saúde. É necessário que haja uma melhor organização e vontade política para resolver esses problemas, além de uma humildade em reconhecer quando as decisões não foram tomadas da melhor maneira. É preciso enfrentar esses desafios e procurar soluções efectivas, mesmo que isso signifique voltar atrás em decisões e pedir desculpas quando necessário. O importante é fazer o melhor para garantir uma assistência de qualidade aos doentes