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Semanário no Papel - Diário Online

 

Hernâni Caniço

A remodelação necessária

5 de Maio 2023

Na governação há sempre 2 vertentes do mesmo problema, que levam à radicalização, e haverá uma só solução, que se encontra na obscuridade do conhecimento público, na vontade de um titular de regime semipresidencialista, na teimosia de um legítimo decisor ou na volatilidade do sentido de voto eleitoral da população.

Os casos, casinhos e casões em contínuo fragilizam o Governo e o PS, denegrindo o crédito concedido pelos eleitores ao socialismo, como ideologia de base defensora dos direitos humanos e satisfação das legítimas aspirações da população.

A reação do PS aos acontecimentos foi de promoção da governação (o que é legítimo, verdadeiro e oportuno, em maioria absoluta), mas com 2 defeitos.

Por um lado, há ausência de reconhecimento da gravidade dos factos cometidos por “socialistas”, desleixo do escrutínio interno e promoção de “amigos” (leia-se suspeita de crimes, incapacidade de análise interna e excesso de confiança, distribuição de funções de decisão e poder por compadrio e não por competência).

Por outro, há uma manifesta falta de humildade democrática, não reconhecendo erros de casting, invocando a espuma dos dias, assim desiludindo os eleitores (que não têm memória tão curta quanto se queira) e desacreditando o PS.

São casos sobre casos em catadupa, uns empolados pela comunicação social enfeudada a querer colocar o PSD no Governo, outros motivados pelo amadorismo de membros do Governo, que são yuppies que cometem gaffes, e meninos de coro comportando-se como “tias”.

A divulgação por e-mails, o whatsapp a decidir, as reuniões e actas, a preparação de reuniões de preparação, a miscelânea de mentiras e vídeo, são casinhos ridículos.

A injecção de milhões de euros dos contribuintes e privatizar empresa bandeira, a saúde em queda vertiginosa, a educação em convulsão, os incêndios virão, são casões reais.

A oposição não tem credibilidade, os populistas são agressivos e demagógicos, o Governo socialista toma medidas de apoio às famílias e empresas que passam para segundo plano, esmagadas pela casuística e pela comunicação social pejada de comentadores de direita.

A situação económica é favorável. No 1.º trimestre 2023, Portugal liderou o crescimento económico na Europa, o Produto Interno Bruto português avançou 2,5% em termos homólogos (o 3.º melhor registo entre os países da UE), e o crescimento em cadeia, de 1,6%, foi o mais alto da UE. O PRR está em força crescente. A inflação recuou para 5,7% (queda de 1,7%), devido à descida dos preços energéticos e dos bens alimentares. É o 6.º mês consecutivo que a inflação está a descer, calculada ainda antes do IVA Zero.

O Partido Socialista é um partido defensor do socialismo democrático, que se opõe a correntes autoritárias. É uma variante do marxismo, com base seguida por Mário Soares, que recusa o modo de produção capitalista, mas que se sujeita ao socialismo de mercado, rejeitando o leninismo, o estalinismo e o trotskismo.

Ora o PS, a par de socialistas, criou uma plêiade de não socialistas, basicamente social-democratas liberais, que estão anexos aos partidos do poder (seja o PS, seja o PSD).

O Governo socialista não deve incluir arrivistas e arranjistas e deve mostrar que as alternativas de caça ao poder pela direita demagógica, não são mais do que proclamações de falsas virgens, por figuras sem ideologia solidária e figurões à espreita de negociatas de milhões.

É imperioso praticar mais políticas socialistas, alargando as medidas de combate à crise, apoiando as famílias e as empresas, assumindo a ala esquerda do PS e o Estado Social, em nome do combate à desigualdade, dos direitos humanos e da promoção da qualificação, da competência e do rigor na defesa dos eleitores, na luta pela sociedade mais justa e solidária.

Por isso, a solução para a crise de poder é uma grande remodelação do Governo, que envolva estadistas e dispense amadores, que retome as ideias socialistas e esqueça as conveniências e tácticas, que assuma o desenvolvimento, a regionalização e a situação económica promissora.

(*) Médico e vereador do PS na CMC