Rui Amaro é o actual presidente da Escola Superior Agrária de Coimbra (ESAC). Com uma carreira sólida na instituição, tem desempenhado ao longo dos anos diversas funções de liderança na ESAC, contribuindo para o seu desenvolvimento.
Campeão das Províncias [CP]: A Escola Superior Agrária de Coimbra está de parabéns. Celebra 136 anos de existência.
Rui Amaro [RA]: Comemorámos os 136 anos no dia 22 de abril, no sábado passado. Foi nessa data que, em 1887, foi publicada a expropriação da Quinta do Bispo, onde hoje está localizada a ESAC, para ser entregue à então Escola Prática Central de Agricultura, que assim se deslocou de Sintra para Coimbra. Na época, na área onde actualmente está situada a ESAC já existiam instalações pertencentes à Coudelaria Central do Norte, o que poderá ter sido decisivo para a instalação da Escola pois, essa localização estratégica e a infra-estrutura disponível terão facilitado e sido determinantes para a transferência da Escola Prática Central de Agricultura para Coimbra, designação que, mais tarde, viria a mudar para Escola Nacional de Agricultura, Escola de Regentes Agrícolas de Coimbra e, finalmente, Escola Superior Agrária de Coimbra.
[CP]: A Quinta onde está instalada a ESAC continua a ser suficiente?
[RA]: É uma área bastante extensa para a região (140ha) e, portanto, uma grande responsabilidade na sua gestão que assume características particulares: estas terras são utilizadas como o nosso laboratório vivo, onde se praticam, de facto, diversas actividades relacionadas com a agricultura, a pecuária e a floresta, mas não só. O nosso lema “Estudar n(a) Natureza” tem também a ver com o facto de os estudantes de outras formações, como sejam os cursos de ambiente, biotecnologia, tecnologia alimentar, turismo em espaços rurais naturais, por exemplo, poderem utilizar todo o espaço, tirando partido de condições únicas para a sua aprendizagem, onde o “saber fazendo” em condições reais pode ser uma realidade.
[CP]: Faz sentido existirem tantas escolas agrárias no país? Há trabalho suficiente para esses alunos?
[RA]: Diria que, actualmente, poderá ser considerado excessivo o número de escolas que no país leccionam cursos na área da agricultura pois, às diversas escolas agrárias existentes, teremos de juntar a formação que ocorre nas universidades. A oferta existente está um pouco desfasada das opções dos jovens que terminam o ensino secundário e que, provavelmente, continuam a associar a agricultura, no sentido lato do termo, ao trabalho manual e à ausência de tecnologia. Esta é uma visão que, cada vez mais, tem pouca adesão à realidade, na medida em que a evolução tecnológica tem ditado uma evolução notável na forma de fazer agricultura. Por exemplo, na área florestal em que se reconhece a importância para o país de dispor de técnicos qualificados, face à procura decrescente durante vários anos, apenas três instituições, entre as quais a Agrária de Coimbra, continuam a leccionar cursos de licenciatura. Paradigmático desta disfuncionalidade é o facto de, quase todas as semanas, termos solicitações de empresas e entidades para lugares disponíveis na área florestal e que não conseguimos satisfazer.
Importa, contudo, dizer que, mercê destas dificuldades de atractividade, tal como nós, de uma forma geral todas as escolas agrárias fizeram um caminho de diversificação e, actualmente, não leccionam apenas cursos nas áreas da agricultura e alimentar.
[CP]: Que argumentos pode apresentar para que um aluno que termine o 12.º ano ingresse na Escola Agrária de Coimbra?
[RA]: Existem muitos e bons motivos para ingressar na Agrária de Coimbra.
Para além da ampla diversidade de cursos, a reconhecida qualidade dos técnicos que formamos é um aliciante importante que deve ser considerado pelos candidatos que queiram ingressar no ensino superior em Coimbra. Acresce que, mercê da capacidade da Escola em se envolver em muitos projectos de investigação e em actividades de apoio à comunidade, é proporcionado aos alunos um ambiente de experiências e de inovação, próprio de uma instituição de ensino superior. Para além disso, creio que faz toda a diferença o espaço e as capacidades que o mesmo permite para uma permanente ligação à Natureza, disfrutando de um laboratório vivo, muito enriquecedor das vivências solicitadas pelas diferentes actividades lectivas. Finalmente, o facto de ser em Coimbra é, já de si, um atractivo pela vida académica que lhe associamos e que, na Agrária de Coimbra tem uma expressão difícil de explicar e que se pode exemplificar com o facto de alguns estudantes que, de início, possam equacionar uma mudança de escola, depois da vivência que a ESAC proporciona, optam claramente por ficar e fazer da Escola uma parte importante da sua vida.
[CP]: Há mais aceitação da sociedade pelo Ensino Politécnico?
[RA]: A recente aprovação na Assembleia da República para a criação das universidades politécnicas pode ser um contributo decisivo para atenuar a percepção da sociedade em geral que continua a diferenciar o ensino superior nas universidades do ensino superior dos politécnicos. Creio que, na maior parte das situações, se trata de um estigma, na medida em que a diferença poderá estar no facto de a nossa abordagem formativa ser baseada no “aprender fazendo”, o que exige capacidade tecnológica, equipamentos e infra-estruturas adequadas, preparando os alunos para o exercício de uma profissão. Esta diferenciação acarreta complexidade na gestão; pois precisamos de estar actualizados em termos de equipamentos e tecnologia disponíveis para o ensino, o que justificariam uma discriminação positiva ao nível do financiamento, exactamente ao contrário do que sucede na realidade. Uma boa notícia é que na semana passada, a ministra da Ciência, da Tecnologia e do Ensino Superior anunciou uma linha de apoio no âmbito do PRR para reforço dos equipamentos na área das Ciências Agrárias. Portanto, estamos esperançosos em podermos usufruir desse apoio, pois é muito importante continuar a melhorar a ESAC com bons, variados e atualizados equipamentos.
[CP]: O ano lectivo está a terminar. Correu bem?
[RA]: Sim, correu bem. Eu destacaria a continuidade que temos conseguido na subida do número de alunos. Passámos por um momento mais difícil na atractividade, mas temos recuperado. Ainda que se deva ponderar muito bem entre o crescer por crescer e a qualidade das formações, é importante ter um crescimento sustentado. A maior e mais assertiva divulgação em que temos apostado é muito importante, sendo que deveremos ser abrangentes na forma como a fazemos pois, muitas vezes, existe a ideia de que se deve privilegiar apenas os territórios onde predomina o rural, em detrimento da urbanidade. No entanto, porque o espectro dos nossos cursos é muito amplo e inclusivo, todos têm lugar na Agrária de Coimbra que faz por ter os melhores meios e infra-estruturas ao serviço do ensino. Além da investigação, oferecemos ainda um grande apoio à comunidade e às empresas que têm projectos desafiadores, que desejam criar produtos diferenciados, que desejam experimentar alternativas, e nós temos essa capacidade.
Temos de confiar nos jovens, nas suas opções e temos a obrigação de lhes fornecer as ferramentas para que possam escolher de forma consciente e seguir os seus sonhos. Temos trabalhado nesse sentido. Honra-nos muito o passado, mas a perspectiva do futuro é o que mais nos motiva.
Lino Vinhal/ Joana Alvim