Coimbra  15 de Maio de 2026 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

Carla Rodrigues: coragem e ética do jornalismo em tempos de guerra

29 de Abril 2023 Jornal Campeão: Carla Rodrigues: coragem e ética do jornalismo em tempos de guerra

Foi aqui, em Coimbra, que há vinte e tal anos deu os primeiros passos no Jornalismo, na então também jovem Rádio Regional do Centro. Concluído o curso, fez-se a Lisboa em busca do mundo da informação televisiva que ambicionava. Recentemente, esteve na Ucrânia (pela TVI e CNN), onde cobriu o conflito entre as forças ucranianas e as forças russas. Em Entrevista à Rádio Regional do Centro e ao Campeão das Províncias, Carla Rodrigues partilhou a sua experiência, descrevendo os desafios enfrentados como repórter de guerra, desde as condições extremas de trabalho até aos perigos inerentes à cobertura de zonas de conflito.

 

Campeão das Províncias [CP]: A profissão, ao longo destes 24 anos, tem correspondido às suas expectativas?

Carla Rodrigues [CR]: A informação é uma descoberta diária. Isto não é uma frase feita. A informação exige de nós muita vontade, muita predisposição para ela e vontade de descobrir. A informação acompanha o nosso percurso ao longo da vida. Se estivermos abertos à experiência, apesar de as coisas não serem assim tão taxativas, o mundo vem ao nosso encontro. Não me imagino a fazer outra coisa. Amo muito o que faço.

[CP]: O sector da informação atravessa um período particularmente difícil. Ainda é uma profissão em que vale a pena investir?

[CR]: Essa é uma decisão individual. É verdade que o jornalismo é um mundo extremamente complicado. Os órgãos de comunicação social estão a atravessar uma tremenda crise no país. O trabalho é muito precário, com salários extremamente baixos. No entanto, se a pessoa realmente gosta do que faz, acredito que consiga superar essas dificuldades. Será fácil? Não. Não vão começar logo como apresentadores ou a cobrir grandes eventos. Vão começar a fazer um pouco de tudo, o que é bom pois dá-lhes polivalência, mas terão que percorrer um caminho difícil. A grande maioria das redacções paga pouco mais do que o salário mínimo nacional. Portanto, é uma luta difícil e demorada, e não é exactamente atraente para quem sai da universidade e começa a trabalhar com perspectivas de futuro não tão animadoras. No entanto, isso não significa que seja assim para o resto da vida.

[CP]: É fácil conciliar a profissão com a vida pessoal?

[CR]: Não é fácil na medida em que não há horários. É preciso ter disponibilidade e um certo espírito de missão. Podemos ser chamados a qualquer momento. Há mais dias complicados do que fáceis, mas são os dias mais difíceis que me dão mais satisfação. Não é uma profissão para quem deseje ter uma vida regrada ou mais organizada.

[CP]: Esteve recentemente a cobrir a guerra na Ucrânia. Voltou a mesma pessoa?

[CR]: Acho que voltei mais enriquecida e madura. É uma realidade que marca muito, apesar de termos momentos difíceis durante o trabalho, ao final do dia, voltamos para casa e estamos aqui, confortáveis. Em cenários de guerra, vivemos todas essas emoções e trazemos, sobretudo, essa vivência, mesmo que não estejamos lá 24 horas por dia, 12 meses por ano. Voltei com uma visão mais ampla do mundo, com um enriquecimento profissional e também com uma maior tolerância em relação às coisas. Não me aborreço com tanta facilidade agora.

[CP]: Como é que foi estar num cenário de guerra?

[CR]:   Não foi a primeira vez que estive num cenário destes. Quando vamos para este tipo de trabalho, precisamos de mudar o modo de pensar. Vou preparada para o que vou ouvir, para o que vou ver, é uma forma de defesa. Temos que estar extremamente focados e atentos ao que nos rodeia. Há sempre o som das explosões e da artilharia do fogo cruzado. Às vezes mais perto, outras vezes mais distante, mas habituamo-nos. As pessoas que vivem lá também se habituaram, mas isso não significa que gostem.

[CP]: Quando se está num palco destes consegue-se manter a isenção?

[CR]:   Nós somos educados com certos parâmetros, temos os nossos valores, temos as nossas regras, portanto, carregamos isso connosco, somos seres humanos. Antes de sermos jornalistas, somos seres humanos. Não sei se fui parcial ou não. A verdade é que sou influenciada, por tudo o que carrego dentro de mim. O que faço é relatar, observar e explicar factualmente o que estou a ver, citando sempre, e então cada um pode tirar as suas conclusões. Ser 100% imparcial é impossível.

[CP]: Quando e como é que a guerra na Ucrânia vai terminar?

[CR]:  Não faço ideia nenhuma. Parece-me que vai durar. E vai durar até que a Rússia assim o entenda. A Rússia tem um dos maiores exércitos do mundo apesar de, enfim, não estar a ter ganhos significativos na Ucrânia. A sua aviação é das mais poderosas a nível mundial. A Ucrânia tem essa consciência.  A aviação é capaz de passar por uma zona e destruir tudo, e a Ucrânia não tem essa essa capacidade. Eu penso que conflito ir-se-á manter até a Rússia entender que deve estar ou sentir que pode estar. Não vejo o Vladimir Putin a desistir.

[CP]: A diplomacia poderá funcionar?

[CR]:  Isto é política e em todas as guerras, foi a política que prevaleceu. Existem dois tempos muito distintos. O momento actual é o tempo de vida e morte nas trincheiras, um tempo imediato, minuto a minuto ou segundo a segundo, para ambos os lados, tanto na Rússia quanto na Ucrânia. E depois há o tempo da diplomacia, que é o tempo da política, e esse tempo exige o seu espaço. Trata-se de questões extremamente delicadas e sensíveis. É a política que irá determinar o fim deste conflito. Agora, o que é necessário para que isso termine? É preciso vontade.

[CP]: Se a ocasião se proporcionar, admite voltar?

[CR]:  Claro que sim, não digo já, porque também preciso de um espaço para ganhar fôlego e também para dar alguma paz de espírito aos meus, para não estar sempre a apanhar o avião e a dizer que vou para zonas complicadas. Mas sim, estou sempre pronta para voltar para esses sítios. Gosto de trabalhar nesses ambientes. São ambientes que me desafiam muito, são extremamente difíceis. É lá que sinto que me supero.

Lino Vinhal/ Joana Alvim

 [Entrevista da edição impressa do “Campeão” de 27/4/2023]