Coimbra  15 de Maio de 2026 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

Joana Gil

Uma janela aberta para (as mesas d)o mundo

14 de Abril 2023

Uma das coisas que mais define uma cultura é a sua gastronomia. Não porque somos o que comemos (graças a Deus!), mas porque a gastronomia que hoje cada povo tem é o resultado de uma escolha apurada feita pelo povo, ao longo de séculos, combinando as limitações do que a terra dá, do que o clima permite, do que a imaginação concede e do que o gosto determina. Cada prato tradicional carrega consigo parte da identidade de um povo.

Sou uma fã incondicional da gastronomia portuguesa, sobretudo do marisco (só a Galiza rivaliza connosco) e do peixe em geral (poucos são os povos que comem mais peixe do que nós). Isso não me impede de desfrutar, com entusiasmo e curiosidade, da descoberta de outros pratos, com os quais venho convivendo quotidianamente desde há quase uma década. Há algo de muito único na oferta gastronómica de Bruxelas: a infinita diversidade. E isto não se refere à gastronomia belga (de que destaco as bizarras batatas fritas com mexilhão – primeiro estranha-se, depois entranha-se), mas antes ao facto de a cidade oferecer gastronomia de todo o mundo. Na zona central da cidade encontramos num raio de menos de 1 km restaurantes que oferecem pratos do Nepal, Cuba, Brasil, Índia, Espanha, Itália, Vietname, Tailândia, Indonésia, Grécia, Turquia, Marrocos, Líbano, Síria, China, Japão, Etiópia ou Madagáscar. E, já agora, da Bélgica! Se alguma desta gastronomia está massificada (quem não encontra, em qualquer lugar da Europa, um restaurante chinês, italiano, japonês ou indiano?), outra não tanto. Sucede que Bruxelas é um óptimo local para explorar a cozinha a norte do deserto do Saara, uma vez que tem uma oferta abundante de excelente cozinha magrebina, a qual é, em certa medida, uma ilustre desconhecida em Portugal, apesar de nos ser tão próxima, e não apenas geograficamente. De facto, é uma sensação de familiaridade que me oferecem, por exemplo, as cenouras à marroquina – por parecerem essencialmente uma variante das cenouras à algarvia… Também os ‘briwats’ doces são o que há de mais próximo da fabulosa doçaria do Algarve. Mas foram precisos alguns anos em Bruxelas, que é uma janela aberta para o mundo, para descobrir isso.

O mais curioso é que cada país, embora dispondo dos mesmos ingredientes que outros, consolida o seu uso de forma muito única. A beringela é disso um bom exemplo. Os portugueses não têm tradição no seu uso, embora comecem agora a circular, sobretudo na internet, incursões da beringela na chamada “cozinha moderna portuguesa”, repescando e reinventando receitas de outras paragens onde o uso da beringela é bem antigo. Mas se queremos a melhor inspiração para cozinhar beringelas, não precisamos de procurar muito longe: a capital do nosso país dista 550 kms em linha recta de Rabat, capital de Marrocos, e esse é para mim um dos melhores países aonde ir buscar inspiração. Seja simples, apenas temperada com especiarias, seja na forma de ‘zaalouk’, onde se confecciona também com tomate, a beringela pode ser uma verdadeira iguaria. Os gregos usam beringela na tradicionalíssima ‘moussaka’, os italianos são mestres na arte de a frigir, e não faltam pela Ásia, de onde a beringela será (?) originária, múltiplas abordagens culinárias na hora de a preparar. Este vegetal (tecnicamente um fruto, tal como o tomate, mas utilizado como um legume), não figura nos nossos livros de receitas tradicionais mas é bem conhecido dos portugueses, há muitos séculos. Nas Beiras, por exemplo, a beringela frita é um óptimo acompanhamento para um arroz. Já no Auto da Lusitânia de Gil Vicente, do século XVI, a personagem Mãe anuncia que para o jantar há, entre outras coisas, beringelas e pepinos. Agora que estamos no século XXI, talvez possamos recriar um pouco do Auto em nossa casa, repescando receitas marroquinas ou de outros países, porque nunca é tarde para expandir horizontes gastronómicos.