Coimbra  20 de Maio de 2026 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

Quito Pereira

O Fittipaldi dos triciclos…

14 de Abril 2023

Era a segunda metade dos anos cinquenta do século passado. E em Coimbra havia um bairro nos arrabaldes da cidade. Um bairro novo de casas brancas e asseadas com telhados cor de laranja, como um jogo colorido de peças da Lego numa esquadria de ruas largas e estreitas. E praças de tapete verde de relva viçosa.

Um bairro de casais jovens na flor da vida. Elas, as mulheres, maioritariamente trabalhavam em casa. Eles, partiam de manhã para os empregos e para o combate da vida. Quando a noite descia no Bairro Marechal Carmona e depois de jantar, elas entretinham – se a ouvir uma novela radiofónica ou a fazer tricot. Eles, saíam de casa e confraternizavam com os amigos no Centro de Recreio Popular do Bairro Marechal Carmona. Por aquela altura, já as mães diligentes tinham deitado as crianças para de manhã lhes lavarem a cara, pentearem o cabelo, vestirem os bibes e verificar os livros didácticos na mochila e dos deveres que a professora tinha mandado para os meninos fazerem em casa.

Naquela época, o Centro de Recreio era uma pérola de associativismo. De gente que na sua generalidade se respeitava e estimava, desde aqueles que um dia se tinham sentado nos anfiteatros da Universidade, aos que tinham uma cultura escolar mais modesta. Aquele caldo de cultura popular funcionava em pleno. E eles, os amigos do Centro, sempre na preocupação de arranjar actividades que satisfizessem os associados e os habitantes daquele bairro longe do centro da cidade. Também na preocupação de alimentar as ilusões das muitas crianças que povoavam o bairro encantado. E foi assim que nasceu a ideia dos concursos de papagaios de papel e das corridas de triciclos.

O domingo de sol nascia clamoroso e festivo. De manhã, no “Cavalo Selvagem” onde o Manuel Padeiro pastoreava o seu gado, tinha lugar o concurso de papagaios de papel. Papagaios coloridos a dançar ao vento nos céus de Coimbra. E um júri formado por três habitantes do Bairro, de nariz no ar a avaliarem qual o papagaio mais bonito e mais artístico. Sem truques e sem malícia, nem favoritismos.

Da parte da tarde, a corrida de triciclos. E, naquela tarde, a prova disputavs-se num percurso de pouco mais de cem metros, entre o cruzamento junto da casa do saudoso Senhor Almeida (fiscal) e o cruzamento de acesso à Rua Bartolomeu Dias. Oito ou nove concorrentes na linha da partida. E eu, de perna ligeira, era um adversário temível – modéstia à parte, claro. Era por isso que era olhado pelos outros concorrentes de sobrancelha franzida, desconfiados. Os pais davam os últimos conselhos aos filhos em como abordar a corrida. E nós, corredores, com o peso da responsabilidade das empresas que gastavam milhares de contos a patrocinar as equipas, como a mercearia do Senhor Alípio, o talho do Senhor Aires, a tabacaria Celeste, o café do Senhor Silva e a barbearia Simões, vergados sobre os volantes à espera do tiro de partida.

Ao disparo corri como o vento. Rápido tomei a dianteira e sensivelmente a meio da corrida, olhei para a casa do Senhor Quaresma que com o meu pai na janela do segundo andar e de camarote, assistiam à corrida. Então, triunfante, parei o triciclo, abri os braços ao alto vitorioso e gritei: Pai, ganhei !!!

E foi nessa altura que o pelotão furioso que me perseguia, me ultrapassou pela direita e pela esquerda e cortei a meta em último.

E à noite, contristado, vi o vencedor da corrida receber o seu prémio na sala de estar do Centro de Recreio. E como eu tanto queria aquele prémio cobiçado – uma raquete e uma bola branca e saltitante de ping – pong…