Coimbra  20 de Maio de 2026 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

António Vinhal

A (des)organização do território

14 de Abril 2023

1. Quatro exércitos em luta aberta

A luta está intensa e promete dar que falar. Um dos exércitos pretende casas para já, agora mesmo, sem mais demoras, de preferência baratas ou mesmo oferecidas a título de subsídio de renda sem termo; um outro exército pretende continuar a obter benefícios com o alojamento local, abocanhando o maior quinhão de casas devolutas que lhes for possível; o terceiro exército, este comandado pelo executivo em vigor, com pouco vigor diga-se de passagem, sem bússola, com muita parra e pouco uva, não sabe se pretende alguma coisa ou simplesmente quer que o tempo passe depressa abocanhando pelo caminho aplausos e mercês para os seus protegidos de sempre, venham eles de Caminha ou de Vinhais, de preferência sempre com o rabo entalado na justiça; e finalmente a ver a banda passar, um quarto exército, desarmado, atarantado, chamado de zé de pagode ou também de zé pagante ou ainda de zé povinho como preferia o tal das caldas.

O comandante do quarto exército veio à televisão explicar a coisa de maneira muito clara e até trazia um mapa de Portugal com uma pequena e estreita faixa em metade da costa marítima pintada de azul a que chamava território de alta densidade (tratar-se-ia, creio eu, de densidade populacional), e uma outra, muito mas muito maior, de norte a sul, manchada de branco. Digo bem, manchada de branco. A esta zona chamava-lhe o chefe de território de baixa densidade, quer dizer desabitado, despovoado, abandonado, ermo, vazio de gente.

O comandante e toda a sua esquadra vive e trabalha, ou faz que trabalha, na zona azul. Ali nasceu, estudou, casou, teve filhos, comprou casa e agora até tem um ou vários palácios. Vive feliz e contente, de barriga cheia, naturalmente de picanha, que tem amigos no Brasil que lhe tratam da dieta. Também ali, bem no centro, vive a plêiade de 240 deputados, todos os qiase todos representantes daquela faixa costeira, pronta a fazer as leis que os protejam, e só essas.

O mapa reproduz a organização do território, tal como é concebida de há muitos anos a esta parte e que vamos tentar revelar, mais uma vez.

Na zona azul estão todos os serviços do Estado, mas também os serviços públicos; as grandes empresas, as tais que apresentam milhões de euros de lucro a cada três meses; as escolas, por acaso sem professores; os hospitais, por acaso sem médicos Nenhum destes serviços nem servidores quer ir para a zona branca, porque aí não há praias lindas, fica fora de vista para aquele segundo de notoriedade, não tem as tais mulheres bonitas do botox e das operações de estética nem usam decotes ilustrativos, não se bebe cerveja em copo de dois litros, não se canta o fado. O Santana perdeu o lugar porque em dia de mau olhado se lembrou de dizer que ia desconcentrar os serviços do Estado, e os funcionários do Infarmed até para a cidade do Porto se recusaram ir.

Para estarem ao serviço de toda esta parafernália, era imperioso sugar tudo o que houvesse de gente com capacidade de trabalho e com isso, despovoaram o interior, a tal zona manchada de branco onde sobretudo acampa o quarto exército. Ao princípio, esta gente foi para lá viver em barracas de alumínio ou cobertas com palha do centeio, tomavam banho uma vez por ano na ribeira que passava mesmo ali ao lado e que, por acaso, também era cloaca do território; acordavam cedo para irem limpar a casa dos burgueses que habitam sempre o chamado centro histórico. Os mesmos que agora reclamam nas ruas o direito a uma habitação condigna. Para mostrarem a sua grande bravura até incendeiam as poucas que inda por lá existem.

2. Queremos tudo a que temos direito e nem vamos a manifestações

Pois bem. Nós, o quarto exército, os da zona branca, temos tudo do que eles precisam. Podemos, à vontade, mandar para lá montanhas de serras queimadas, terras de lavradio abandonadas, aldeias inteiras totalmente ou quase desertas. com casas de habitação para todos eles, com vistas maravilhosas para o vale, talvez a precisarem de uma que outra reparação e a piscina no quintal, que disso eles não prescindem e hortas para eles cultivarem e não terem de comprar tudo no supermercado, que a vida está cara.

E em troca o que é que nós queremos? Queremos hospitais funcionais e com médicos especializados em todas as capitais de distrito; hospitais e centros de saúde, talvez um pouco mais modestos mas eficazes, em todas as capitais dos municípios; assistência médica em todas as capitais de freguesia, pelo menos uma ou duas vezes por semana; queremos escolas com professores, que à falta delas até as crianças se vão pelas madrugadas friorentas de inverno, dormindo ainda no autocarro, até vinte, trinta, quarenta quilómetros de distância, para encontrar uma escola que as receba; queremos lares da terceira idade para os mais idosos, devidamente equipados e gratuitos, como é natural que seja; queremos empresas fortes e inovadoras com total isenção de IRC e outras isenções que sobrecarregam a sua actividade económica e as fazem recear a deslocação para o interior, mas empresas que possam retribuir a nossa gente com salários condignos; queremos isenção de IRS para todos os moradores do território, a tal zona branca, claro; queremos total isenção de portagens, IMI’s e IVA e queremos tudo quanto os nossos líderes municipais vem reclamando desde sempre, sem que os tenham ouvido como merecem.

Em suma, queremos tudo a que temos direito e nem vamos manifestar-nos na avenida da liberdade ou na rua almirante reis.

(*) Professor do Ensino Superior