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Semanário no Papel - Diário Online

 

António Vinhal

Reflexões em tempos da Páscoa

31 de Março 2023

1. A morte de alguém, seja por raiva seja por desespero, é sempre uma coisa monstruosa

Vivemos tempos difíceis. E isto que agora vos digo, ouvi-o muitas vezes ao longo da minha vida, que já vai longa. E, de facto, a história das vidas, em sentido individual, e das nações como espaços colectivos, pauta-se por continuamente apresentar desafios que, apesar de tudo, o homem sempre soube resolver, bem ou mal, frequentemente com o sacrifício dos mais inocentes, dos mais mal preparados ou mal informados, dos que estavam no local errado na hora errada.

Neste exacto mesmo momento, a televisão informa da morte de duas pessoas e ferimentos graves numa terceira, pelo menos uma delas em trabalho de voluntariado em apoio dos serviços prestados pela e na comunidade ismaelita, em Lisboa. E não fica dito que o autor dos atentados, por sinal muito graves, não seja ela mesma mais uma das vítimas. Vítima da sua vida, das suas circunstâncias, da desumanidade com que vamos andando nesta caminhada a que chamamos vida. Jovem, engenheiro de telecomunicações, refugiado do Afeganistão onde, depois da saída dos americanos, seria seguramente perseguido pela sua religião, perde tudo, viúvo a partir do momento em que a sua mulher morre queimada num incidente em Lesbos, na Grécia, onde se amontoava com muitos outros enquanto a burocracia decidia da sua sorte, pai solitário de três filhos menores, sem trabalho porque não dominava a língua nem tinha reconhecidas as competências profissionais nem os títulos académicos, apesar dos sucessivos pedidos e apelos, seguramente desesperado. E nenhum de nós tem dúvidas de quão longe nos pode levar o desespero.

Que fique claro o que é claro. Verdadeiramente vítimas sem apelo nem agravo são as duas mulheres que morreram e o homem que ficou gravemente ferido. Às suas famílias apresentamos sentidas condolências. Sem remissão, duas pessoas de elevada utilidade social e sentido humano se perderam e não voltam mais.

2. A diferença entre a civilização urbana e a civilização rural está nas capacidades de acolhimento e integração da segunda onde a primeira se mostra totalmente incapaz

Mas num tempo que poderia ser de grande elevação moral, num tempo de quaresma que grande número de pessoas nem sabe bem do que se trata, o que queremos é lembrar a nossa condição humana, sem dúvida frágil mas ao mesmo tempo capaz da maior elevação ética e moral. Nos comentários que se têm prolongado nesta noite de luto nacional, o que continua a ressaltar é uma vista de olhos sobre a necessidade da imigração para ajudar a resolver a nossa falta de mão-de-obra. Estamos a olhar o nosso interesse em meio à dor alheia. De humanidade minguam as perspectivas. E é de humanidade que nós precisamos. Não por precisarmos de malta barata para os trabalhos que não queremos fazer, mas porque de homens e mulheres, em tudo iguais a nós, se trata. E qualquer homem ou mulher, de qualquer raça, credo, língua ou país merece toda a nossa estima e consideração, a todos devemos acolher como a um igual, com iguais direitos e igual respeito. E falo de acolhimento. Acolher não é apenas receber, aceitar, mas sobretudo abraçar, integrar, apoiar. Somos um país de emigração e, melhor que nenhum outro, sabemos como é chegar a uma terra estranha, estranhos costumes, estranha língua, estranho modo de ser. E porque o sabemos como ninguém, como ninguém sabemos como é vivificante um sorriso, um abraço, uma palavra amiga, uma integração que respeite as nossas diferenças. Nestas condições é sadio lutar, trabalhar e integrar. Só nestas condições sentimos em pleno o prazer de ser e estar, sem receio de nos mostrarmos tal qual somos, sempre débeis e cada vez mais fortalecidos e prontos a caminhar juntos para um bem colectivo.

Na verdade, nem mesmo entre nós, concidadãos, estamos preparados para reagir de braços abertos à diferença. Fechamo-nos à chave dentro de casa e nem aos gritos dos vizinhos respondemos. De nenhum deles sabemos os nomes, as carências, as esperanças ou as frustrações. De nenhum deles queremos saber da saudação pela manhã ou do adeus ao fechar da tarde. Os nossos filhos deixaram de brincar na rua com os amiguinhos de escola, só vão aos anos deles se forem filhos do papá, se calçarem das adidas ou vestiram louis vuiton. Se forem filhos da empregada da limpeza do prédio já não servem, sejam ou não concidadãos.

E é nestas circunstâncias que eu recordo com imensa nostalgia os meus tempos de criança na aldeia onde éramos gente entre as pessoas crescidas, meninos e meninas educados pela família tanto quanto pela comunidade que nos rodeava, sabia quem éramos, de onde vínhamos e para onde íamos. Gente sã que ainda hoje faz voluntariado para que estejamos todos juntos, seja na festa da padroeira, seja no almoço de convívio, que organiza eventos para que não se esqueçam as tradições, que levanta pequenos museus para preservar a sua história, que dá nome ao largo da aldeia para não esquecerem pessoas, que diz bom dia mesmo ao estranho que aparece pela primeira vez, que pergunta se necessitamos de sal, ou de azeite ou de uma couvinha, que nos leva a casa meia dúzia de ovos porque nunca se sabe, apesar de não lhos termos pedido.

A civilização da cidade não está preparada para isto. Criou a burocracia para afastar as pessoas, afastar cada vez mais as pessoas, mostrar poder e prepotência e defende essa porcaria com o maior rigor, segura de que seria bom que a ouvíssemos quando nos diz para irmos por ali (parafraseando o Poeta).

(*) Professor do Ensino Superior