Coimbra  17 de Maio de 2026 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

Joana Gil

Perder o comboio

31 de Março 2023

Há algo nos comboios, estações e apeadeiros que remete para o cenário de um filme, uma passagem de um livro ou um recanto do imaginário colectivo. A chegada e partida de pessoas faz sonhar sobre de onde virão, para onde vão, e porquê. Em Portugal este imaginário tem menos alcance, porque quando se apanha o comboio o único destino que não seja o próprio país é Espanha. Só tive essa percepção de que o meu país é um pouco uma ilha com o somar dos anos vividos em Bruxelas.

Em Bruxelas, o título de estação mais frequentada vai para a Gare do Norte, com uma média, em 2019, de quase 64 000 passageiros por dia. Já a Gare do Sul, não sendo embora particularmente bonita, é a estação por excelência das ligações internacionais, onde é possível apanhar comboios para os países com que faz fronteira – Alemanha, França, Holanda e Luxemburgo – e ainda para o Reino Unido. Acrescem a Gare do Leste, a Gare do Oeste e a Gare Central. E, porque Bruxelas é a capital da Bélgica mas também da União Europeia, há ainda a Gare Schuman, que faz desaguar passageiros junto ao coração das instituições europeias.

Com tantas estações de comboio, difícil é alguém dizer que mora longe de uma estação de comboio. Uma rede ferroviária densa e com imensos pontos de acesso nas principais cidades do país faz do comboio um meio de transporte extremamente utilizado. Comparando valores médios, na Bélgica as pessoas utilizam a ferrovia sensivelmente duas vezes mais do que em Portugal. E se o relevo plano da Bélgica, sem grandes acidentes orográficos, oferece condições facilitadas para uma excelente ferrovia, isso não explica tudo – basta ver os números relativos à ferrovia na montanhosa e acidentada Suíça…

De todo o modo, é certo que não podemos comparar Bruxelas a Coimbra – de tão diferentes que são na sua localização e no número de habitantes. Ainda assim, Coimbra tem duas estações: a Estação Central (para mim, Estação Nova ou Coimbra A) e a (carinhosamente chamada) Estação Velha ou Coimbra B. E se Coimbra B não deslumbra (para não dizer que envergonha…), já Coimbra A, pese embora as dificuldades da zona envolvente, tem charme e beleza arquitectónica. Os comboios que dali saem, para toda a região Centro e mais além, servem mais de um milhão de passageiros por ano. Não se trata de uma estação que serve apenas a cidade ou a baixa, mas de uma estação que serve a região e o país. A triste decisão de avançar com o seu encerramento a pretexto do traçado dos novos autocarros eléctricos é incompreensível e vai ao arrepio do que está a ser feito pela Europa fora – vamos, sem dúvida, perder o comboio do transporte sustentável.
Nas cidades europeias, os comboios deixam os passageiros no centro, ou perto dele. Coimbra caminha a passo decidido e acelerado na direcção errada, mantendo uma única estação na periferia da malha urbana e fechando as portas a quem deseja vir de comboio até ao centro. Deveríamos estar a estudar há anos como criar mais uma estação, e não como encerrar a única central que temos. Fechar Coimbra A é um enorme tiro no pé, que deixará a cidade coxa durante décadas.

(*) Em Bruxelas